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Reminiscências pentecostais

Reminiscências pentecostais

Atualizado: Sexta-feira, 14 Agosto de 2009 as 12

Já se vão mais de trinta anos desde que entrei em uma igreja pentecostal pela primeira vez. Era quinta-feira. A igreja do Serviluz, na zona portuária de Fortaleza, estava lotada. O ambiente parecia eletrizado. Cantaram três corais. Quando chegou a vez das mulheres, o pastor me cochichou: "A maioria é ex-prostituta daqui do bairro".

Quando terminaram, quase todas choravam muito. Eu nunca presenciara tamanha emoção. Encantei-me com a gratidão das mulheres. Algumas senhoras, precocemente envelhecidas pela miséria, se desmanchavam em lágrimas. Nunca esquecerei o hino (nº 340 da Harpa Cristã):

Eis que surge um povo forte,

Revestido de poder;

E não teme nem a morte,

Quem a ele pertencer;

E terá sublime sorte,

Pois com Cristo ao céu vai,

Podes tu dizer também.

"Sou um dos tais"?

Eu estava diante da força do movimento pentecostal, que me apaixonou por décadas. Testemunhava o que a experiência do batismo no Espírito Santo significava no resgate da dignidade de excluídos.

Os primeiros pentecostais vinham das camadas dos discriminados e alienados. Nas reuniões da rua Azuza, em Los Angeles, onde um punhado de negros buscava a presença de Deus, o movimento atraiu os pobres. O enchimento do Espírito, afirmavam, tornaria qualquer um especial.

Assim, os primeiros pentecostais não legitimavam preconceitos, mas ofereciam abrigo aos excluídos. As igrejas eram um porto seguro para aqueles que a sociedade havia jogado na marginalidade econômica e social. No espaço religioso, viam-se protegidos de um mundo hostil. E mais, a comunidade lhes devolvia a dignidade que lhes fora roubada.

O pentecostalismo causou mal-estar. O rompimento dos lacres da hermenêutica fundamentalista despertou ferrenha oposição entre os conservadores. A maior antipatia vinha dos evangélicos, que consideravam os pentecostais uma seita herética.

No princípio, em vários aspectos, o pentecostalismo parecia um segmento mais fervoroso do evangelicalismo estadunidense, já que o movimento partilhava do mesmo milenarismo escatológico -- via-se como a última chuva de Deus antes do arrebatamento --, como era rigoroso em defender a leitura literal da Bíblia.

A ênfase na cura divina não era novidade. Havia pregadores de cura anteriores ao movimento. E, logicamente, outros teísmos, com Deus intervindo e alterando o curso da história por meio de repetidos milagres. A novidade era uma certa anarquia interpretativa. Dizia-se guiado pelo Espírito Santo no entendimento e aplicação da Escritura, rompendo com as regras da hermenêutica e da exegese, tão caras aos fundamentalistas.

A teologia pentecostal foi formulada por pregadores sem sofisticação acadêmica, limitados na tradição e história do pensamento cristão. Pensadores modernos, preocupados com a racionalidade da fé, foram confrontados por pregadores que reivindicavam dons sobrenaturais que os tornavam habilitados a compreender a Bíblia. Revelações angelicais, profetas e videntes se tornaram comuns.

O pentecostalismo alastrou-se como uma das mais expressivas forças da cristandade no século 20, exatamente por não ser um movimento de teólogos. A experiência com Deus ganhou força conclusiva, obrigando a razão moderna a se dobrar diante da percepção intuitiva, muitas vezes sensorial, que aquecia o coração. Como o pentecostalismo transferiu a fé para a emoção, a vitalidade da igreja do Serviluz, composta em sua maioria por mulheres, é garantida na celebração da vida dignificada.

Os pentecostais afirmam que a experiência com Deus, o encontro místico, transforma. O êxtase pentecostal, tão malcompreendido pelos tradicionais, expressa significados que fogem à razão. A presença de Deus é fonte de vida e de sentido.

Destes encontros, o servente da construção civil, a empregada doméstica, o subempregado, se descobrem eleitos de Deus. Cada pessoa capacitada pelo Espírito "sai pelo mundo como mensageira do Senhor". Anuncia que todos podem ter seus nomes no livro da vida. O batismo no Espírito Santo desperta competência, agilidade e paixão.

Dessa forma, o pentecostalismo mostrou-se um dos segmentos mais ativos, desinstitucionalizados e eficazes do cristianismo nos últimos cem anos. A presença de Deus pode ser sentida, percebida, celebrada, mas sempre como poder para o serviço. A experiência que busca renovação consagra para a missão. Fazer a vontade de Deus autoriza o empreendedorismo. O Espírito Santo lidera, não uma organização, mas pessoas que se sentem revestidas de virtude.

Infelizmente, a teologia da prosperidade aburguesou o movimento. Desfigurado, estou certo que os pioneiros pentecostais nunca pactuariam com a mensagem que gere cobiça. Aliás, denunciariam que o mundo entrou na igreja e que os pentecostais precisam ser renovados.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim é pastor da Igreja Betesda de São Paulo e presidente da Convenção Nacional da denominação. Presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. Gondim é casado com Silvia Geruza Rodrigues, pai de três filhos - Carolina, 29; Cynthia, 27; e Pedro, 19 - e avô de Gabriela, Felipe e Felipe Naran. Nascido em 1954, em Fortaleza, Ceará, é formado em Administração de Empresas. Viveu nos Estados Unidos onde obteve formação teológica no Gênesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia. Ministra palestras e conferências. É colunista das revistas evangélicas "Ultimato" e "Enfoque Gospel". Como escritor, Gondim é autor de livros como "O Evangelho da Nova Era", "Santos em Guerra", "Saduceus e Fariseus", "Creia na Possibilidade da Vitória", "É Proibido" - obra indicada ao prêmio Jabuti, de literatura brasileira -, "Artesão de uma Nova História", "Como vencer a Inconstância", "A presença imperceptível de Deus", "Do Púlpito 5", "O que os evangélicos (não) falam", "Creio, mais tenho dúvidas", e "Sem perder a Alma", o mais recente.

Site oficial:

www.ricardogondim.com.br

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