MENU

Sobre pessoas e porcos

Sobre pessoas e porcos

Atualizado: Quinta-feira, 16 Abril de 2009 as 12

Era uma vez, uma cidadezinha chamada Gadara que era muito, mas muito pequena. Gadara ficava na fronteira entre dois países. Bastava atravessar a rua e do outro lado já se falava uma língua esquisita e comiam-se outros tipos de alimentos. O trânsito entre as pessoas nessa fronteira não facilitava só as trocas comerciais, as relações entre os habitantes tornavam-se crescentemente cordiais; as crianças dos dois países não cresciam apenas bilíngües, mas transculturais.

Um belo dia, Jesus de Nazaré resolveu visitar esse lugarejo esquecido de todos. Tomou um barco e viajou o dia inteiro para cruzar o lago que o separava do lugar onde vivia. Logo que aportou em Gadara, um lunático, possesso de uma legião de bichos-ruins veio ao seu encontro.

O estado deste anônimo cidadão era deplorável. Imundo, vivia em cemitérios tenebrosos. Nunca se soube qualquer coisa sobre seus familiares, seus traumas e feridas da adolescência ou das suas perversões morais. Como ele se pervertera tanto? Ninguém sabia e todos se conformavam com a sua decadência.

Espalharam-se versões cada vez mais alarmantes de sua força descomunal. Algumas vezes preso, ele ressurgia solto para aterrorizar a meninada que, com certeza, recontava e aumentava a história do "monstro dos sepulcros". À noite ouviam-se seus gritos.

O gadareno queria ser livre; procurava sua vida de volta, mas não conseguia encontrá-la. No desespero de arrancar de dentro da alma tanta degradação, ele desenvolvera manias auto-destrutivas. Pela manhã, era comum vê-lo retalhado por cortes feitos com pedras.

Jesus dialogou com os demônios que o possuíam. Na curta conversa, desde que deixassem o doido em paz, a legião de demônios obteve de Cristo permissão para possuír uma vara de porcos que pastava nas redondezas. Quando os demônios entraram nos porcos, eles se desesperaram e se precipitaram num abismo.

Conta-se que os que cuidavam dos porcos fugiram. Ao narrarem esses fatos na cidade, o povo foi ver o que havia acontecido. A surpresa foi absoluta. Todos testemunharam o homem que fora possesso da legião de demônios assentado, vestido e em perfeito juízo.

A notícia correu e quando os curiosos relataram o que acontecera tanto ao gadareno como aos porcos, o povo da cidade reuniu-se para expulsar Jesus dali. Não teve jeito, o Nazareno viu-se obrigado a retirar-se do território.

Estranho! Enquanto um ser humano era destruído por forças satânicas, ninguém tomou nenhuma providência para resgatá-lo. O clube do Rotary não mobilizou os empresários ricos para ajudarem; padres, pastores e rabinos aquietaram suas congregações com boas explicações teológicas; os políticos prometeram ações concretas só para o próximo ano fiscal; nenhuma ONG se formou para minorar seu sofrimento. O pobre mendigo continuava preso, acorrentado a forças maiores do que ele.

No instante em que se constatou o prejuízo financeiro, porém, tornou-se necessário que se expulsasse Jesus. Ele ameaçava o equilíbrio econômico da região: "our life style cannot be theatened", repetiam.

Contudo, antes de partir, Jesus deixou uma lição de moral para aquela comunidade judaica (proibida desde sua formação de tocar, criar ou comercializar porcos): "que vergonha, vocês aprenderam a amar porco mais do que amam uma pessoa!".

Gadara é metáfora do mundo. As nações continuam amando porcos mais do que amam mulheres e homens. Lógico que um cavalo de raça vale mais do que uma criança liberiana. Um ancião palestino não tem a mesma importância que um poodle texano. Não resta dúvida: as vacas leiteiras inglesas são protegidas com mais denodo do que as meninas usadas pelo tráfico internacional da pedofilia.

Enquanto os religiosos vociferam seus mais entusiasmados sermões, enquanto os políticos se revezam em seus debates sobre o futuro da humanidade, enquanto os banqueiros multiplicam seus lucros, muitos pobres precisam ser restituídos à vida e terem de volta sua dignidade para poderem abraçar seus familiares.

A história continua e Jesus de Nazaré permanece um estorvo. Enquanto ele considera que uma alma vale mais do que o mundo inteiro, as nações mantêm essa esquisita predileção pelos porcos.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim é pastor da Igreja Betesda de São Paulo e presidente da Convenção Nacional da denominação. Presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. Gondim é casado com Silvia Geruza Rodrigues, pai de três filhos - Carolina, 29; Cynthia, 27; e Pedro, 19 - e avô de Gabriela, Felipe e Felipe Naran. Nascido em 1954, em Fortaleza, Ceará, é formado em Administração de Empresas. Viveu nos Estados Unidos onde obteve formação teológica no Gênesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia. Ministra palestras e conferências. É colunista das revistas evangélicas "Ultimato" e "Enfoque Gospel". Como escritor, Gondim é autor de livros como "O Evangelho da Nova Era", "Santos em Guerra", "Saduceus e Fariseus", "Creia na Possibilidade da Vitória", "É Proibido" - obra indicada ao prêmio Jabuti, de literatura brasileira -, "Artesão de uma Nova História", "Como vencer a Inconstância", "A presença imperceptível de Deus", "Do Púlpito 5", "O que os evangélicos (não) falam", "Creio, mais tenho dúvidas", e "Sem perder a Alma", o mais recente.

Site oficial:

www.ricardogondim.com.br

veja também