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Um lamento em proporções bíblicas

Um lamento em proporções bíblicas

Atualizado: Quarta-feira, 6 Novembro de 2013 as 2:11

triste(No ano em que fui traído por meus companheiros de ministério, escrevi o texto abaixo. Vi a igreja que tanto amava, dividida. Gente inocente sofreu. Eu me abati. Acreditei na cura de minha alma. O caminho seria escrever lamentos. Mas eles teriam que ser pungentes, agudos, doloridos. Depois de alguns anos, revisitei meu Salmo – corrigi – e resolvi publicá-lo mais uma vez).
 
Meu sol, envergonhado, sujeita-se às sombras. Minhas nuvens, tristes, encolhem-se no horizonte. Meu dia, em posição fetal, chora sangue.
 
Rasgo as vestes. Espalho cinzas sobre a calva. Suplico às carpideiras: chorem por mim. No poço do meu desterro, não passo de molambo manchado com sangue menstrual. Sou lixo infectado ou mero fósforo riscado.
 
Guardo um lamento que sufoca todo riso, um pranto que sai como grito e uma angústia que estreita as paredes do meu caminho. Sou orquestra que só toca Réquiens. Meu viver virou um beco umedecido de lágrimas; quem sabe, um prado esburacado por decepções.
 
Convenci-me de que a trapaça prevaleceu no jogo. Perdi a partida. Fui desclassificado. Exilado, deixei meus sonhos juvenis na beira da estrada. Fui soldado, agora, porém, sem baioneta. Resta-me continuar agachado na trincheira. Sonhei em ser artista, mas despedaçaram o meu piano. De seus restos, inquisidores acendem a fogueira que deve me consumir. Vi-me profeta. Hoje só desejo uma caverna para me esconder.
 
Minha cidade cospe no meu rosto. Meus conterrâneos se macumunam contra mim. Meus patrícios me tratam como estrangeiro. Condenei-me a ser seixo que a vaga despreza, ou garrancho que o sol estorrica na caatinga. Volto triste para os braços da minha mulher amada como o coveiro que volta para casa depois de sua labuta inglória.
 
Minha aldeia acabou deserta. Rapinaram minha casa. Saquearam meu claustro. Invadiram minha alcova. Tento amealhar o que sobrou. No rescaldo, só encontro tições frios. Procuro recompor o cenário de paz, mas eu me perco na bagunça que se espalhou por todos os cômodos.
 
Minha escrita perdeu o ritmo. Solaparam minha poesia. Meu texto parece um amontoado de ripas em quintal baldio. Percebo o franzir de sobrolhos por detrás de meus ombros. Tímido, escrevo platitude. Sou um Galileu Galilei. Retrocedo no que acredito. Nervoso com a patrulha inclemente da religião, busco o ostracismo.
 
Sou tentado, como Jonas, a embarcar rumo a Tarsis. Parceiro de Davi, tenho vontade de afundar a cama no Hades. Quero transformar as trevas em um lençol que me cubra. À semelhança de Elias, fujo. Não tenho escrúpulos de parecer covarde diante das ameaças vazias de uma rainha louca.
 
Caia eu em tuas mãos, misericordioso Deus. Poupa-me do inferno que me rodeia. Tu, Senhor, és refúgio e esperança.
 
Soli Deo Gloria
 
 
- Ricardo Gondim
 

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