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Uma conversa comigo mesmo

Uma conversa comigo mesmo

Atualizado: Quarta-feira, 18 Dezembro de 2013 as 9:49

reflexãoAndo inquieto. À medida que envelheço, o porvir se torna previsível. Percebo: não terei forças para mudar o mundo futuro. Não tolero ver a vida se esvaindo. Anseio controlar a inclemência do tempo. Por outro lado, não quero admitir que devo esvaziar-me.
 
Me angustio. Perder o sentimento – mesmo falso – de onipotência implica em abrir mão de antigos conceitos religiosos. Por anos, repeti: Eu posso. Frase comum em minha juventude. Quanto idealismo! Daí, a indisposição de encarar algumas mortes. Não gosto de sentir dor. Os pontapés da vida, todavia, desnudaram uma verdade inconveniente: os processos de esvaziamento são doloridos e nunca bem-vindos.
 
Não suporto mais ouvir imperativo alheio. Por que eu seria responsável por demandas de quem sequer conheço? Cada vez menos me imagino preso a roteiros e compromissos de estranhos. Paro de me culpar por sustos que causo em imaturos.
 
Careço de ócio – e ele nem precisa ser criativo. Os sábados se tornaram naturais. Sonho com a eternidade. Desejo conversa calma em ambientes bucólicos. Nasci de um amor calado. Hoje me alimento de silêncios. Atraído pelo nada, viajo em belezas inúteis. Debulho os instantes. Desdobro as alegrias mais efêmeras.
 
Sempre que choro a dor do mundo acordo para o tamanho do meu egoísmo. Procuro fotografar o orgulho antes que se disfarce e, sutilmente, se esconda de mim. Sei: empáfia se traveste de piedade e faz o tolo se sentir puro. Sempre existe uma arrogância na espreita. Ela quer infectar minhas iniciativas. Rompantes rebeldes se aprofundam, vão até a medula dos ossos, tentando me fazer acreditar que teimosia e coragem não passam de sinônimos.
 
Devo aprender a ser gente, apenas gente. Mesmo que ninguém ouça, grito: Meu Deus, como anelo caminhar na senda despretensiosa dos santos.
 
Soli Deo Gloria
 
 
- Ricardo Gondim
 

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