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Verdade e Fé

Verdade e Fé

Atualizado: Sexta-feira, 7 Maio de 2010 as 5:39

O movimento evangélico se fortaleceu como uma reação e engatinhou na trincheira da apologética.  No final do século XIX a cristandade fervia com a Alta Crítica e com o Revisionismo Teológico das escolas alemãs e segmentos mais conservadores (herdeiros do pietismo e puritanismo europeu) se viram forçados a solidificar suas posições dogmáticas.

Quando o fundamentalismo surgiu, ganhou espaço porque conseguiu sintetizar o que se considerava como inegociável na fé cristã. Desse modo, o literalismo dos textos passou a ser chamado de ''inerrância'' - que considera a Bíblia como revelação da verdade, portanto, sem erro nenhum. Doutrinas como o nascimento virginal e a salvação como resultado da aceitação dos efeitos forenses da cruz se tornaram, por assim dizer, os carros chefes do movimento.

Como os evangélicos se arregimentaram na virada do século, compartilharam o ambiente milenarista peculiar da época. Assim, a volta triunfal de Cristo para arrebatar a sua igreja se tornou bastante popular. Os fundamentalistas se consideravam a ''última geração'' antes de Cristo implementar seu reino milenar aqui na terra.

Esse fundamentalismo se tornou tão hermético, tão sectário, que na década de cinqüenta, gente como Carl Henry - fundador da revista Christianity Today - e Billy Graham sentiram que precisavam arejar para dialogar com outros segmentos cristãos. Além de um pouco mais ecumênicos em relação ao catolicismo, também admitiram os pentecostais como crentes legítimos - nesse tempo, os pentecostais se alastravam pelas beiradas sociais, crescendo entre os pobres e já não podiam ser rejeitados.

Desse modo, os evangelicais ganharam terreno deixando os fundamentalistas para trás. O pentecostalismo alcançou novo status; tratado incialmente com desdém, foi aceito no aprisco apesar de ser tratado como a expressão ''diferente'' da ''verdadeira igreja''. Com a chegada dos irmãos ''bizarros e barulhentos'', os antigos fundamentalistas fizeram bico e se distanciaram de uma vez dos ''evangelicais''. Ensimesmados, perderam espaço e representatividade. (os dois grupos só voltaram a se irmanar novamente com a "Moral Majority" para lutarem contra o aborto, o homossexualismo, a teoria da evolução e outros "valores familiares").  

Billy Graham e os evangelicais mais arejados ganharam notoriedade, escalando, inclusive, patamares sociais de primeria classe - Graham foi conselheiro de vários presidentes estadunidenses. Os crentes enriqueceram e tiveram acesso à mídia - como o ''meio é a mensagem'', a teologia da prosperidade ganhou terreno criando uma nova tendência, os neopentecostais.

Os evangelicais empreenderam grandes projetos missionários; definiram o cânone teológico para a formação de pastores nos países pobres; construíram escolas; enfim, deram a cara para o que o senso comum atual entende por protestantismo.

Os evangelicais jamais abandonaram os antigos ranços apologéticos. Na década de sessenta, consumiram os livros de Francis Schaeffer para provar que a fé era racional; elegeram o escritor inglês C. S. Lewis como ícone da legitimação acadêmica da fé; tornaram obrigatória a leitura dos compêndios de teologia sistemática porque acreditaram que a codificação lógica da verdade era imprescindível; estudaram e escreveram teologia a partir de categorias pretensamente acadêmicas. Sempre estiveram à cata de critérios ''científicos'' para compreenderem Deus e comprovarem a verdade da fé.

Os tempos, contudo, mudaram desde que os ''desconstrutores'' pós-modernos como Lacan e Derridá sugeriram categorias diferentes para a compreensão da linguagem. Com as novas leituras de textos, paradigmas mudaram. Foucault, por exemplo, sugeriu que a verdade é, à princípio, um controle dos que detém o poder. Para ele, a ''versão oficial'' não é, e nem pode, ser considerada a verdade factual ou objetiva. Portanto, ele propõe que não se leiam os textos com as lentes racionais emprestadas pela modernidade .

De fato, as compreensões precisam partir de leituras em que se consideram até os afetos; e a exatidão de uma verdade ''verdadeira'' perde a sua antiga importância. As intenções subjetivas, os instrumentos sociais, as manipulações institucionais, podem mascarar ou postergar a percepção do que se considera como a verdade. Portanto, não se deve buscar entender, decodificar ou autenticar uma verdade, mas percebê-la com todas as suas implicações.

Desta forma, não importa o acesso a uma verdade ''autêntica'', ''única''. Justiça, ou a essência do bem, passam a ser compreensões que se forjam no palco da vida, no decorrer da história; que se encarnam nas escolhas. A grande questão não é mais chegar a um conhecimento absoluto, mas adensar o  que favoreça a vida. A verdade que se vive numa sociedade mais justa excede em importância todas as que se articulam nas teorias.

O movimento evangélico, entretanto, permanece dentro do paradigma da modernidade, repetindo o ''cogito ergo sum''. Ainda batalha pelo texto, acreditando que a literalidade da escrita é a ''comprovação'' última da verdade. Porém, cogitar não é preciso; é preciso ser.

A verdade cristã procura, tão somente, reverter as palavras iniciais do Evangelho de João quando afirma que o verbo se fez carne. É necessário também transformar a carne em verbo. Em outras palavras, adensar o discurso na vida e fazer da vida um discurso. Ghandi afirmava: ''Devemos ser no mundo a mudança que queremos ver no mundo''.

Embora difícil, é preciso transformar-se no que é proclamado. Infelizmente grandes segmentos do evangelicalismo restringiram a teologia aos contornos da exegese, acreditando ser possível ''entender'' exatamente quem é Deus.

Chegou o tempo de se buscar uma nova percepção da verdade; com a consciência que ilumina e produz maturidade humana. Descobrindo uma verdade que não se abrevia à razão, mas que se encontra num mergulho interior, em patamares sensitivos do espírito, no silêncio do Espírito de Deus.

Hans Burki repetia uma frase em inglês importantíssima: ''We need to learn the unlearnable'' - (numa tradução livre: Precisamos aprender o inaprendível) e santo Agostinho afirmava: "Deus tem filhos que a igreja não tem". Eu me atrevo a dizer: a verdade não é propriedade de qualquer instituição; repetir um conceito não o torna verdadeiro; todo saber precisa pousar na terra para ter o calor divino.

Ricardo Gondim   é pastor da Igreja Betesda de São Paulo e presidente da Convenção Nacional da denominação. Presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. Gondim é casado com Silvia Geruza Rodrigues, pai de três filhos - Carolina, 29; Cynthia, 27; e Pedro, 19 - e avô de Gabriela, Felipe e Felipe Naran. Nascido em 1954, em Fortaleza, Ceará, é formado em Administração de Empresas. Viveu nos Estados Unidos onde obteve formação teológica no Gênesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia.

Ministra palestras e conferências. É colunista das revistas evangélicas "Ultimato" e "Enfoque Gospel". Como escritor, Gondim é autor de livros como "O Evangelho da Nova Era", "Santos em Guerra", "Saduceus e Fariseus", "Creia na Possibilidade da Vitória", "É Proibido" - obra indicada ao prêmio Jabuti, de literatura brasileira -, "Artesão de uma Nova História", "Como vencer a Inconstância", "A presença imperceptível de Deus", "Do Púlpito 5", "O que os evangélicos (não) falam", "Creio, mais tenho dúvidas", e "Sem perder a Alma", o mais recente.

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