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Viver: aventura complicada

Viver: aventura complicada

Atualizado: Sexta-feira, 30 Outubro de 2009 as 12

Nossa vida se mistura às emoções. Apaixonados, lutamos para não deixar que os dias escorram como água entre os dedos. Imprecisa, não-evidente, enviesada, carente de construção, a vida não espera. Artesãos precisam talhá-la com a delicadeza dos joalheiros. No caldo da angústia universal, a vida aguarda que alquimistas transformem atrevimento em circunspeção; quer converter Valquírias em Marias, bárbaros em samaritanos.

A vida transcorre em constante mistério. De onde vem a percepção da beleza? Por que nos sentimos atraídos a entesourar instantes delicados do passado sob o signo da saudade? Por que, diante da morte que desfigura e esfumaça os olhos, permanecemos obstinados em aprender?

Inventamos perguntas: Para onde se expande a margem extrema do universo? Que mecanismo impede a mente de ressentir dores? Por que nos contemplamos diferente do que somos nos sonhos, embora nunca deixemos de ser nós mesmos?

A vida se perde porque, infelizmente, começamos com afirmações mas esquecemos as perguntas; não transformamos nossos pontos de interrogação em lupas. Presunçosos, não carregamos o pente fino da dúvida nos bolsos do colete. Covardes, tememos as aporias. Desistimos dos porquês infantis e ficamos com as certezas adultas, que nos entorpecem.

A vida se veste com os andrajos da tristeza. Agonizamos quando vemos a lama burocrática cobrir o vilarejo pobre. Impotentes, desistimos de resistir ao mal sistêmico, que negocia com a alma humana. Calamos quando testemunhamos as elites movimentando o motor-contínuo financeiro, que energiza as engrenagens da injustiça.

Perdidos, hesitamos na iminência da bondade e misericórdia desaparecerem do vocabulário religioso. Abatidos, vemos a sordidez sentar na cadeira da polidez, a implacabilidade ganhar da bondade e a ambiguidade ética amordaçar a solidariedade.

Entretanto, a vida é perigosamente trágica. Entramos no palco sem ter recebido qualquer roteiro; não passamos de atores que gaguejam, sem texto para decorar; personagens que atuam, sem noção do instante trágico, quando as cortinas descerão encerrando o espetáculo. Contracenamos com atores que mal conhecemos.

Vez por outra ouvimos apupos. Inutilmente procuramos máscaras sorridentes - aquelas que disfarçam constrangimentos. Sem coxia, não sabemos para onde fugir. Assumimos diferentes papeis mesmo sabendo que nos aguarda o fim trágico será inevitável. Todos sofrem. Quando finalmente nos acostumamos com os holofotes, o diretor grita: "Acabou!".

Entretanto, a vida é bela - "e sempre desejável", disse o poeta. O dilúvio não tem força de descolorir a aquarela que brota do sol, e se refrata na neblina. Homens e mulheres insistem em esperar novo céu e nova terra: o mundo impossível onde crianças brincam com serpentes, e o boi passeia ao lado do leão.

Sim, a vida é bela. Ainda é possível perceber o sopro do Espírito no farfalhar da folha que baila enamorada do vento. Somos convidados a celebrar o encanto de viver no gesto do ancião que planta uma árvore; na obstinação da mãe que ensina a filha surda a falar com as mãos; na leveza do menino que brinca com a capoeira e faz da luta uma dança.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim é pastor da Igreja Betesda de São Paulo e presidente da Convenção Nacional da denominação. Presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. Gondim é casado com Silvia Geruza Rodrigues, pai de três filhos - Carolina, 29; Cynthia, 27; e Pedro, 19 - e avô de Gabriela, Felipe e Felipe Naran. Nascido em 1954, em Fortaleza, Ceará, é formado em Administração de Empresas. Viveu nos Estados Unidos onde obteve formação teológica no Gênesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia. Ministra palestras e conferências. É colunista das revistas evangélicas "Ultimato" e "Enfoque Gospel". Como escritor, Gondim é autor de livros como "O Evangelho da Nova Era", "Santos em Guerra", "Saduceus e Fariseus", "Creia na Possibilidade da Vitória", "É Proibido" - obra indicada ao prêmio Jabuti, de literatura brasileira -, "Artesão de uma Nova História", "Como vencer a Inconstância", "A presença imperceptível de Deus", "Do Púlpito 5", "O que os evangélicos (não) falam", "Creio, mais tenho dúvidas", e "Sem perder a Alma", o mais recente.

Site oficial:

www.ricardogondim.com.br

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