Pais maus professores, filhos curiosos

Um brinde a todos os que aprenderam a fazer perguntas ao invés de decorar respostas, vocês nos levam sempre além da mediocridade

Fonte: guiame.com.brAtualizado: sexta-feira, 4 de julho de 2014 12:21
pai e filho
pai e filho

pai e filhoEu sou um péssimo professor, confesso. Especialmente do meu filho. Não fui um bom aluno, pelo menos não quando avaliado pelos padrões oficiais da Educação. Desde muito novo não me bastava saber as respostas, mas buscava a utilidade, o sentido, a razão. Deste modo, sempre me saí melhor com os temas que com as datas, com a lógica que com a conta, com a alquimia que com a tabela periódica. O livro separa as formas em pirâmides e prismas dos poliedros; eu me pergunto o porquê. Por que preciso saber ou decorar isso? Talvez se trabalhasse com projetos, desenhos, utilização de espaço! Acho que ainda assim não precisaria conhecer o nome técnico para ter condições de aplicar a forma.

Ao estudar teologia não foi diferente. Que me perdoem alguns professores, mas quando não via a utilidade de um tema, não perdia tempo com o debate.

O que penso é que há uma categoria sobre o que não é prático, portanto, habita o universo da elucubração. Cada área de conhecimento tem a sua e não vejo problema algum nisso. É bacana sentar com os pares, de preferência à uma boa mesa, sem tempo, para debater sobre detalhes que não alteram fundamentalmente nada.

Agora, por que nossos sistemas de ensino exigem que conheçamos particularidades sem qualquer utilidade de áreas às quais jamais nos interessaremos?

E tendo sido um péssimo aluno, que não deu atenção pra além do satisfatório aos temas sem importância em minha formação, tenho imensa dificuldade em exigir de meu filho que faça diferente. Tomara que ele mesmo descubra os atalhos para fazer seu caminho seletivo em seus estudos.

Por essas e outras que gosto do Professor Ruben Alves, que há várias décadas tem nos alertado para obsolescência dos programas educacionais e das estruturas escolares. Ele nos lembra que a pergunta deveria guiar o ensino, porque um Universo se cria a partir da curiosidade de uma pessoa, mas quando não se vê o sentido que estimula o interesse, nada se aprende, ainda que se decore algumas fórmulas.

E que dilema! Preciso ensinar meu filho, ajudá-lo a estudar, especialmente matemática. Ele vai ter que decorar os poliedros para a prova. Vou fazer minha parte, de pai responsável que diz pro filho estudar tudo o que há nas apostilas, mas, confesso novamente, desejo mesmo é que ele me desobedeça, lá no fundo, sem me deixar saber disso, claro, mas queria mesmo que ele descobrisse um jeitinho de agradar gregos e troianos sem desrespeitar seu interesse. Isso! Que ele decore as fórmulas da semana para a semana, mas que se deixe guiar pela curiosidade que movimenta a História.

Um brinde a todos os que aprenderam a fazer perguntas ao invés de decorar respostas, vocês nos levam sempre além da mediocridade.


- Alexandre Robles

 

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