
Há mais de dez anos, o pastor e jornalista Marcos Corrêa da Silva tem dedicado parte de sua vida ao trabalho missionário no continente africano.
Aos 62 anos, ele integra a Missão Mãos Estendidas e atua no Projeto Umodzi, que desenvolve iniciativas de evangelização, educação, alimentação e assistência humanitária em comunidades vulneráveis de Moçambique, Malawi, Zâmbia e Zimbábue.
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Membro da Igreja Adventista da Promessa, atua nos departamentos de evangelismo, comunicação e na junta diaconal, além de exercer atividades de pregação e palestras.
Casado, pai de dois filhos e avô de três netos, sua trajetória missionária transcultural começou depois dos 50 anos, durante uma viagem à África para realizar uma cobertura jornalística.
Desde então, passou a testemunhar situações de pobreza extrema, fome, violência e perseguição religiosa, mas também histórias de transformação que, segundo ele, demonstram o poder do Evangelho.
Autor do livro “Ouse Ir”, o pastor afirma que a Igreja brasileira precisa recuperar sua responsabilidade com missões e abandonar a ideia de que a Grande Comissão é uma tarefa exclusiva de missionários.
Em entrevista ao Guiame, conta como crianças que antes enfrentavam a fome passaram a receber alimentação, educação e ensino bíblico, relembra momentos em que temeu pela própria vida e faz um apelo aos cristãos brasileiros.
Guiame: Pastor Marcos, o senhor costuma dizer que “o cristianismo não está morto, ele tem fome”. Que fome é essa e como ela se manifesta hoje tanto na África quanto no Brasil?
Marcos Corrêa: O cristianismo continua vivo porque ele é a única solução para a humanidade. Não há outro caminho, não há outra saída.
Infelizmente, vemos hoje um mundo em que a grande maioria das pessoas não é cristã, e muitos tentam matar o cristianismo.
Então, o cristianismo tem fome porque carece de pessoas que acreditem que ele é a resposta para tudo, inclusive para aqueles que têm fome física, mas também fome espiritual e enfrentam problemas de diversas naturezas.
G.: O que fazer para que essa fome comece a ser saciada?
M.C.: É necessário que aqueles que acreditam, que são discípulos de Jesus Cristo, saiam de suas redomas, de dentro das belas igrejas, das igrejas suntuosas, com seus aparelhos de ar-condicionado ligados e estruturas cada dia mais pujantes.
As pessoas se acostumam a ficar dentro de uma igreja e acham que tudo aquilo é cristianismo. Mas nem tudo aquilo é cristianismo. Muitas vezes, é comodidade.
Não sou contra uma boa estrutura de igreja, mas acredito que a mensagem é muito mais importante do que tudo isso.
Precisamos sair dos nossos lugares seguros, dos nossos lugares cômodos, para pregar o cristianismo e atender às necessidades das pessoas.
Pr. Marcos Corrêa com alunos da Escola Umodzi, na África. (Foto: Arquivo pessoal)
G.: O senhor integra a liderança do Projeto Umodzi. Quais são as principais atividades desenvolvidas por essa iniciativa e em quais países da África elas atuam hoje?
M.C.: A Missão Mãos Estendidas está presente em quatro países, Moçambique, Malawi, Zâmbia e Zimbábue. Procuramos chegar aos lugares mais pobres da África, um continente que já enfrenta grandes necessidades.
Quando chegamos a uma região, começamos a instalar escolas, oferecer alimentação, construir poços artesianos e dar suporte às crianças, procurando amenizar um sofrimento que é muito grande.
Trabalhamos com educação secular e educação religiosa. Também construímos banheiros, distribuímos roupas e calçados e, onde é possível, levamos atendimento médico.
Montamos machambas, que são hortas, aviários e espaços para brincadeiras e esportes. Levamos bolas, brinquedos e procuramos oferecer condições para que aquelas crianças tenham uma vida melhor.
G.: Quais são as principais diferenças e desafios encontrados em cada contexto cultural onde o Projeto Umodzi atua?
M.C.: Há diferenças muito grandes de um lugar para outro. Uma das primeiras dificuldades é a questão linguística.
Em Moçambique, por exemplo, o português é a língua oficial, mas nas aldeias as pessoas falam seus próprios idiomas locais. No Malawi, o inglês é uma das línguas oficiais, mas nas aldeias também encontramos outros idiomas.
Então, enfrentamos barreiras linguísticas e culturais.
Mesmo depois de mais de dez anos trabalhando na África, ainda me deparo com questões culturais muito diferentes daquilo que aprendi.
É preciso saber distinguir o que é cultura e deve ser respeitado daquilo que envolve questões espirituais contrárias ao Evangelho.
Não podemos simplesmente chegar e querer retirar a cultura de um povo, que muitas vezes é milenar. Precisamos respeitar aquilo que faz parte de sua identidade e, ao mesmo tempo, apresentar o que chamamos de cultura do Reino.
À esquerda, pastores Elias Caetano e Marcos Corrêa com crianças do Projeto Umodzi; à direita, pastor Marcos Corrêa com equipamento de poço artesiano junto com pastor Saulo Porto, em Hatone, no Malawi. (Foto: Arquivo pessoal)
G.: O senhor afirma que a vida missional não é exclusividade do missionário, mas um chamado de todo cristão. O que um cristão comum pode fazer para viver missões sem necessariamente deixar o Brasil?
M.C.: Existe uma frase muito conhecida no meio missionário que diz que podemos fazer missões do outro lado da rua ou do outro lado do mundo.
As dificuldades que enfrentamos em outros países também existem dentro do Brasil. Quando falamos de fome, analfabetismo e opressão, encontramos tudo isso aqui.
É claro que, quando chegamos a determinadas regiões da África, percebemos que os recursos são muito mais escassos, e não estou falando apenas de recursos financeiros.
Há lugares onde chegamos e ninguém havia estabelecido uma base de atendimento.
Mas você pode e deve viver a missão. Uma igreja que deixa de ter visão missional, que não pratica a Grande Comissão, perde sua própria razão de existir.
A razão da Igreja é a Grande Comissão. Nós somos parte dela. Portanto, todos podem viver essa missão.
G.: Ao longo do seu livro Ouse Ir, o senhor relata diversos desafios enfrentados no campo. Com que frequência viaja ao continente africano e houve alguma experiência em que realmente temeu pela própria segurança ou da equipe?
M.C.: Normalmente, viajo duas vezes por ano para a África. Os desafios são tremendos.
Até atravessar uma fronteira pode ser um grande desafio. Já fiquei nove horas tentando passar de um país para outro. A corrupção é algo terrível e endêmico em algumas regiões.
Mas também existem riscos muito grandes à vida. Eu e outros companheiros já enfrentamos situações em que ficamos esperando a morte. O risco de sequestro também existe.
Livro Ouse Ir!, de autoria do pastor Marcos Corrêa, sobre suas experiências missionárias além das fronteiras. (Foto: Arquivo pessoal)
G.: Pode compartilhar conosco algum momento tenso que passou durante viagem missionária na África?
M.C.: Em uma ocasião, estávamos em Uganda, hospedados em um hotel muito simples. O lugar foi cercado por pessoas ligadas a um grupo que queria nos matar porque estávamos pregando contra determinadas práticas da região, inclusive sacrifícios de crianças.
Ficamos cerca de duas horas cercados. Pela graça e misericórdia de Deus, conseguimos sair dali.
Uma autoridade militar entrou em contato com o Exército do país, que foi até o local e conseguiu nos retirar.
Já enfrentamos outras situações muito difíceis. Em Moçambique, por exemplo, há regiões que se tornaram muito perigosas para a pregação.
Conhecemos pastores que perderam suas igrejas em episódios de violência terrível. Quando entramos na África para realizar esse trabalho, sabemos que existem riscos.
G.: O Projeto Umodzi trabalha simultaneamente com evangelização, alimentação e educação para crianças. Por que essas áreas não podem ser separadas no trabalho missionário?
M.C.: Porque, muitas vezes, chegávamos a uma aldeia e, quando voltávamos meses depois, várias crianças já haviam morrido por falta de alimentação ou por doenças.
Isso é terrível.
Sabemos que o que realmente pode transformar a vida de uma aldeia ou de uma cidade é Jesus, é o entendimento do Evangelho de Jesus Cristo.
Mas a própria Palavra nos ensina. Jesus disse: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.
Quando você chega a um lugar e vê crianças passando fome, pessoas sem acesso à água potável, adoecendo porque precisam consumir água contaminada, não pode simplesmente ignorar essa realidade.
Já estivemos em lugares onde encontramos crianças extremamente desnutridas, algumas muito magras, outras com o corpo inchado em decorrência da fome.
É preciso transformar essa realidade.
Por isso, oferecemos alimentação diariamente, construímos poços artesianos, escolas, banheiros, distribuímos roupas e calçados e procuramos levar atendimento médico.
Também trabalhamos com hortas, criação de aves, atividades esportivas e recreativas.
Não há como separar uma coisa da outra.
Crianças atendidas pelo Projeto Umodzi recebem brinquedos e alimentação durante ação missionária na África. (Foto: Arquivo pessoal)
G.: O senhor iniciou sua jornada missionária transcultural após os 50 anos. O que diria para aqueles que acreditam que já passou o tempo de responder ao chamado de Deus?
M.C.: Sou neto e filho de pastor. Sempre trabalhei dentro da igreja, pregando, organizando eventos e liderando departamentos.
No Brasil, também desenvolvi trabalhos de evangelização em presídios e delegacias. Preguei no antigo Carandiru, na antiga FEBEM e trabalhei com moradores de rua, inclusive distribuindo sopão.
Mas nunca havia realizado missões transculturais.
Até que fui convidado por um grupo de missionários para fazer uma cobertura jornalística na África. Fui com meu filho Marcos Paulo.
Foi ali que Deus puxou a minha orelha.
Eu recebi uma chamada de Deus para algo a que não estava prestando atenção. Deus chama cada pessoa de uma maneira e para uma missão específica.
Aquele chamado era para mim.
Isso aconteceu depois dos 50 anos, justamente quando muitas pessoas começam a pensar em aposentadoria.
Foi nessa fase que Deus me chamou para o trabalho missionário transcultural.
G.: Depois desses anos de atuação no continente africano, qual foi o maior aprendizado que a Igreja brasileira poderia receber da Igreja africana?
M.C.: A Igreja africana é um grande exemplo.
Já preguei em igrejas sem teto, debaixo de árvores, em lugares onde as pessoas se sentavam no chão, sobre panos.
Mesmo assim, existe uma alegria extraordinária. O louvor brota de uma forma muito intensa, muito natural. Existe uma gratidão muito grande.
E não estou falando apenas de gratidão por receber alimentos, roupas ou dinheiro.
Você começa a ensinar a Palavra de Deus às nove horas da manhã e, às nove horas da noite, as pessoas continuam ali, ouvindo, participando de cursos e do discipulado.
Ninguém quer ir embora.
Tudo isso com mosquitos picando, um calor absurdo, sem ventiladores, sem ar-condicionado, sem qualquer conforto.
E as pessoas permanecem ali, desejando aprender mais.
A Igreja brasileira está muito mal-acostumada. Precisamos melhorar nesse aspecto, aprender a ser mais gratos e exaltar a Deus em qualquer situação.
Momento de oração com pais de alunos atendidos pelo Projeto Umodzi, em Cateme, Moçambique. (Foto: Arquivo pessoal)
G.: Se pudesse deixar apenas um desafio para os cristãos brasileiros após lerem seu livro ou ouvirem seu testemunho, qual seria?
M.C.: Eu diria para cada pessoa pedir a Deus uma experiência.
Diga: “Senhor, dá-me uma experiência. Quero ser usado de uma forma diferente daquela em que fui usado até hoje”.
Essa experiência pode acontecer no seu condomínio, com seu vizinho, na escola, na faculdade ou no trabalho.
É muito bom ouvir falar de Deus, mas existem muitas pessoas que ouvem sobre Deus e não andam com Ele, não o conhecem profundamente.
A passagem de Ezequiel 47 nos ajuda a refletir sobre essa profundidade.
Seria muito importante que cada cristão procurasse conhecer melhor o trabalho missionário da Igreja e também a realidade dos cristãos perseguidos.
Basta acompanhar as notícias sobre a Igreja perseguida para perceber quantas pessoas estão sendo mortas, presas e enfrentando o martírio por causa da fé.
E, mesmo assim, não abrem mão de pregar o Evangelho.
Deus chamou você para alguma coisa.
G.: Qual foi o milagre ou experiência sobrenatural mais marcante que o senhor presenciou na África?
M.C.: Já presenciei muitas situações que considero milagres, inclusive livramentos envolvendo a mim e à nossa equipe.
Em uma ocasião, eu estava marcado para morrer, mas a pessoa que deveria me identificar não me viu. Consegui passar e realizar o trabalho.
Mas uma experiência muito marcante aconteceu na aldeia de Hatone, no Malawi.
Ali não existe energia elétrica disponível como estamos acostumados, e muitas daquelas crianças nunca tinham visto uma tela de projeção.
Levamos equipamentos, um gerador e um filme sobre Jesus Cristo traduzido para o idioma chichewa.
Reunimos as crianças e outras pessoas da aldeia, quase 200 participantes, e projetamos o filme.
Elas ficaram maravilhadas.
Olhavam umas para as outras, depois para a tela, porque estavam vendo Jesus falar no idioma delas.
Aquelas crianças já conheciam histórias bíblicas, porque oferecemos ensino religioso. Mas ver Jesus falando chichewa foi algo completamente diferente.
Alunos em sala de aula da Escola Umodzi, em Cateme, Moçambique. (Foto: Arquivo pessoal)
G.: Imagino que aquela emoção contagiou a todos...
M.C.: Sim, sem dúvida. Havia conosco um missionário muito experiente, que trabalha há mais de 35 anos na África e é casado com uma zambiana.
Ele começou a chorar e disse que aquelas pessoas estavam maravilhadas porque não imaginavam que Jesus falaria com elas.
Aquilo me emocionou profundamente. Precisei sair da sala porque não conseguia continuar olhando para aquelas crianças.
Eu pensava: “Meu Deus, muito obrigado por me dar a oportunidade de vivenciar isso”.
Com todas as dificuldades e restrições que enfrentamos para estar na África, presenciar aquela experiência foi algo fantástico.
G.: Existe alguma história de transformação promovida pelo Projeto Umodzi que simbolize a missão da organização?
M.C.: Existem transformações constantes.
Um exemplo é o trabalho que iniciamos em Cateme, Moçambique.
Quando adquirimos um terreno muito grande para instalar o projeto, eu disse que começaríamos as atividades depois de um ano, porque precisaríamos construir as salas de aula.
Mas, no fim de semana seguinte, as crianças já estavam no terreno.
O pastor da região, que ficou responsável pelo projeto, me avisou que precisou improvisar uma estrutura com madeira, barro e cobertura de lona para recebê-las.
E começamos ali.
Encontramos uma situação muito crítica. Muitas crianças eram criadas pelos avós porque já não tinham pai nem mãe. Outras viviam apenas com a mãe.
A maioria usava roupas rasgadas, andava descalça e não fazia sequer uma refeição por dia.
Então, tivemos que começar imediatamente a oferecer alimentação.
Na minha viagem mais recente, já encontrei uma realidade completamente diferente. As crianças estavam uniformizadas, alimentadas e saudáveis.
Já construímos duas salas de aula e quatro banheiros e estamos concluindo um salão de quase 400 metros quadrados, que será utilizado para aulas profissionalizantes, cultos, alimentação e outras atividades.
Prédio da Escola Umodzi e banheiros construídos pela Missão Mãos Estendidas em Cateme, Moçambique. (Foto: Arquivo pessoal)
G.: Houve uma grande transformação na realidade delas...
M.C.: Sem dúvida. Durante uma apresentação, as crianças começaram a recitar versículos e textos inteiros da Bíblia.
Fiquei impressionado com a capacidade que elas têm de memorizar as Escrituras.
Aquelas crianças que encontrei tão fragilizadas pela fome hoje estão saudáveis e demonstram um conhecimento bíblico extraordinário.
Essa transformação é muito grande para mim.
Sempre acreditei na mudança geracional. A próxima geração daquela comunidade não será a mesma.
Será uma geração que poderá pensar no futuro. E acredito que dali sairão muitos missionários para trabalhar na própria região.
É isso que queremos.
Também trabalhamos com missões autóctones, preparando pessoas da própria comunidade para desenvolver o trabalho missionário.
Já conhecemos projetos parceiros mais antigos que têm alunos formados em universidades.
Continuamos incentivando, financiando e ajudando para que essas crianças possam transformar suas comunidades e inspirar outras pessoas.
G.: Como o senhor enxerga o futuro das missões transculturais na próxima geração de cristãos brasileiros?
M.C.: Estou preocupado.
Existe uma expectativa de que o Brasil tenha um papel muito importante no envio de missionários. Hoje, o Brasil já é considerado um dos países que mais enviam missionários ao mundo, embora ainda esteja distante dos Estados Unidos em números.
Mas a Igreja brasileira está perdendo o foco de missões.
Basta observar o percentual de contribuição que uma igreja destina ao trabalho missionário.
É só comparar quanto a Igreja brasileira gasta com sua estrutura, seus salários e suas mordomias e quanto investe em missões.
E essa pergunta também deve ser individual: quanto você, eu, nós investimos em missões? Quantas pessoas realmente contribuem?
Existe uma preocupação muito grande.
Mas, se há uma promessa de Deus, ela vai se cumprir.
A questão é o tempo. Se continuarmos tratando missões da maneira como muitas igrejas brasileiras tratam hoje, isso ainda vai demorar muito.
Provavelmente, eu não verei esse cumprimento.
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Alunos do Projeto Umodzi durante atividade na escola em Cateme, Moçambique. (Foto: Arquivo pessoal)
G.: Quais são hoje as maiores necessidades dos projetos desenvolvidos pelo Umodzi?
M.C.: O maior desafio é manter o trabalho continuamente e conseguir ampliá-lo.
As pessoas muitas vezes fazem uma contribuição esporádica, e ela é muito bem-vinda. Essas ofertas ajudam a desenvolver os projetos.
Mas precisamos de apoio contínuo, porque todos os dias, faça sol ou chuva, temos que alimentar as crianças.
Todos os meses precisamos pagar as contas, comprar alimentos e manter os profissionais.
Atualmente, contamos com 13 profissionais que trabalham nos projetos, todos nativos, incluindo lideranças locais.
Não recebemos apoio institucional de nenhuma igreja para esses projetos.
Hoje, eu e meu filho conduzimos esse trabalho, com a colaboração de pessoas que Deus colocou em nosso caminho.
Uma delas é Tatiana, que chegou por indicação de uma pastora e se tornou muito importante para o projeto.
Outras pessoas também aparecem, às vezes sem sequer nos conhecer, oferecendo ajuda.
Mas precisamos crescer.
Em Hatone, no Malawi, temos mais de 100 crianças querendo ingressar no projeto, mas não conseguimos recebê-las porque precisamos construir novas salas de aula.
E não basta construir as salas. É necessário oferecer uniformes, alimentação e contratar mais professores.
Em Cateme, Moçambique, temos mais de 200 crianças aguardando uma oportunidade.
Cada ampliação representa um aumento significativo nas despesas.
Por isso, precisamos de pessoas que assumam o compromisso de contribuir mensalmente, permitindo que as necessidades básicas sejam atendidas e que mais crianças sejam acolhidas.
Uniformes e materiais escolares destinados aos alunos da Escola Umodzi, em Hatone, no Malawi. (Foto: Arquivo pessoal)
G.: Como as igrejas brasileiras podem se tornar parceiras estratégicas do trabalho realizado em campo?
M.C.: A Igreja brasileira ainda está muito distante de ser verdadeiramente missional.
É importante ouvir os missionários que trabalham no campo, conhecer suas experiências e compreender o que está sendo realizado pelo mundo.
O pastor Elias Caetano, presidente da Missão Mãos Estendidas, por exemplo, tem mais de 25 anos de experiência na África.
Quando as pessoas conhecem essas histórias, Deus pode começar a tocar seus corações, assim como tocou o meu para realizar missões transculturais.
Mas não estou falando apenas de missões em outros países.
Faça uma viagem missionária dentro do Brasil.
Saia da sua igreja em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, Curitiba, Santa Catarina ou Mato Grosso e vá com uma equipe missionária ao Norte ou Nordeste.
Vá ajudar.
Você vai descobrir que tem muito a oferecer.
Muitas vezes, estamos acomodados dentro das igrejas, enquanto poderíamos estar fazendo algo muito especial.
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Alunos da Escola Umodzi, na aldeia de Hatone, no Malawi. (Foto: Arquivo pessoal)
G.: Depois de tudo o que viu na África, o que mudou na forma como o senhor lê os Evangelhos?
M.C.: Comecei a ler os Evangelhos de uma forma muito diferente.
Atender os oprimidos, os fracos, os famintos, levar a Palavra de Deus e realizar a missão, seja ela urbana ou transcultural, é justamente aquilo que encontramos nos Evangelhos.
Você pode ser jornalista, mas, em primeiro lugar, é discípulo.
Eu sou discípulo. Depois posso ser jornalista, engenheiro, médico, produtor, cozinheira, merendeira ou exercer qualquer outra profissão.
Mas, em primeiro lugar, sou discípulo de Jesus Cristo.
Precisamos compreender que vivemos com um objetivo: falar do Reino e representar o Reino.
Existe uma pergunta que considero fundamental: quando o mundo olha para mim, ele vê Cristo?
Quando as pessoas olham para você no seu trabalho, na escola, na faculdade, na sua casa ou no condomínio, estão vendo Cristo?
Porque, se não estão vendo, precisamos refletir seriamente sobre como estamos vivendo nosso discipulado.
A Igreja precisa trabalhar essa questão com muita seriedade.
Que Deus nos ajude a compreender verdadeiramente o Evangelho.
Pr. Marcos Corrêa recebe uma galinha de presente durante a inauguração das salas de aula do Projeto Umodzi, em Cateme, Moçambique. (Foto: Arquivo pessoal)
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