Perseguição no Iêmen leva cristão a decorar versículos e virar “Bíblia ambulante”

Majed passou a decorar versículos da Bíblia com o objetivo de continuar compartilhando o Evangelho mesmo se fosse preso.

Fonte: Guiame, com informações da Open DoorsAtualizado: terça-feira, 24 de fevereiro de 2026 às 15:51
Crescimento do cristianismo é apontado como uma das razões para a intensificação das ações contra os convertidos. (Foto representativa: Portas Abertas)
Crescimento do cristianismo é apontado como uma das razões para a intensificação das ações contra os convertidos. (Foto representativa: Portas Abertas)

Em um dos países mais perigosos do mundo para quem decide seguir a fé cristã, um líder convertido decidiu se preparar para a prisão de uma forma incomum: memorizando a Bíblia.

No Iêmen, onde a conversão do islamismo pode trazer graves consequências, o cristão conhecido como Majed* passou a decorar versículos da Bíblia com o objetivo de continuar compartilhando o Evangelho mesmo se fosse detido.

Segundo relatos de organizações que acompanham a perseguição religiosa no país, Majed dizia que desejava se tornar uma “Bíblia ambulante”.

“Eu também serei levado, havia veículos com agentes perguntando sobre mim apenas alguns dias atrás”, disse Majed aos parceiros locais da Open Doors no final do ano passado, quando a repressão começou. Foi o último contato feito com ele.

A expressão refletia seu propósito de guardar as Escrituras na memória para poder citá-las em qualquer circunstância, inclusive dentro da prisão, onde dificilmente teria acesso a um exemplar da Bíblia.

“Sim, é uma época difícil que nós, como igreja, estamos passando, mas somos filhos do Rei dos Reis. Jesus nos disse que neste mundo teremos problemas, mas Ele também nos prometeu a vitória nEle, e é isso que nos mantém, e eu incluído, indo”, disse.

Para Majed, isso incluía a preparação para o inevitável.

“Eu sei que está chegando. Enquanto isso, estou tentando memorizar tantas passagens e versículos da Bíblia quanto possível. Quero ser uma Bíblia ambulante, para que, onde quer que eu seja levado, eu possa compartilhar sobre Jesus. Que possamos ser espelhos de nosso Salvador, na maneira como falamos e agimos.”

Repressão crescente

A decisão não era exagero. Líderes cristãos locais já alertavam para uma crescente repressão contra convertidos.

Nas últimas semanas, dezenas de cristãos foram presos ou desapareceram após operações realizadas principalmente por autoridades ligadas ao grupo terrorista Houthi.

Muitos são levados para locais desconhecidos e mantidos sem comunicação com familiares ou advogados.

De acordo com relatos divulgados por ministérios que apoiam a igreja perseguida, Majed já previa que poderia ser detido a qualquer momento. Ainda assim, decidiu permanecer no país.

Em conversas com outros cristãos, ele afirmou que poderia deixar o Iêmen para viver com mais segurança, mas escolheu ficar.

“Se todos saírem, quem ficará?”, teria dito ao explicar sua decisão.

Dores e torturas

Em conversa com entidades cristãs locais, Majed explicou os desafios vividos por aqueles que se encontravam na prisão – o que ele provavelmente também enfrentaria:

“As pessoas que conheço muito bem estão atualmente com dor, provavelmente sendo torturadas. Alguns também estão assustados, sentados nas celas escuras da prisão. No meu país, especialmente nesta região [uma área controlada por Houthi], quando alguém é levado, eles podem desaparecer por meses – três, oito ou até mais – e podemos não saber nada sobre eles até que eles sejam libertados.”

Mesmo após ser capturado, a paixão de Majed pelo Evangelho e por sua nação permanece intacta, espelhando a extraordinária coragem de cristãos iemenitas em meio ao aumento da hostilidade.

“Deus nos chamou para sermos sal e luz, é isso que eu oro para que eu possa ser”, disse ele.

“Que Deus me use. Assim como Ele estava com Paulo e Silas na prisão em Filipos, eu sei que Ele estará comigo. E se Ele está comigo, quem pode ser contra mim? Eles podem matar o corpo, sim, mas eu oro para que o ministério não pare, precisamos que o Iêmen seja para Cristo. Que Ele reine sobre o meu país.”

“Que Deus intervenha, em meio aos problemas e à dor, e que Ele nos conforte. Mesmo quando somos apanhados, oramos para que o trabalho continue. Peça a Deus para levantar outros que continuarão compartilhando Sua luz com o povo iemenita, aqueles que vivem no escuro, eles merecem conhecê-Lo.”

Conflitos políticos e religiosos

O gesto revela o cenário enfrentado pelos cristãos iemenitas. Em uma sociedade majoritariamente muçulmana e profundamente marcada por conflitos políticos e religiosos, a fé cristã costuma ser vivida em segredo.

Reuniões, discipulados e momentos de oração frequentemente acontecem de forma clandestina para evitar represálias.

Apesar da pressão crescente, líderes cristãos afirmam que o número de pessoas interessadas no cristianismo continua aumentando no país.

Paradoxalmente, esse crescimento é apontado como uma das razões para a intensificação das ações contra os convertidos.

Organizações internacionais classificam o Iêmen entre os lugares mais hostis para cristãos no mundo, especialmente para aqueles que abandonaram o islamismo.

Ainda assim, histórias como a de Majed revelam a determinação de muitos em manter a fé mesmo diante do risco.

Enquanto seu paradeiro permanece incerto após a recente onda de detenções, o testemunho do cristão que desejava se tornar uma “Bíblia ambulante” continua circulando entre comunidades cristãs ao redor do mundo como símbolo de coragem e perseverança.

*Nome fictício por motivo de segurança.

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