A fé seletiva de Mlodinow, roteirista nas séries de TV McGyver

A fé seletiva de Mlodinow, roteirista nas séries de TV McGyver

Atualizado: Quinta-feira, 15 Setembro de 2011 as 9:14

Aos 56 anos, Leonard Mlodinow é dono de uma biografia singular. Nos anos 1980, trabalhou como roteirista nas séries de TV McGyver – Profissão: Perigo e Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. Depois se tornou professor do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), autor de best-seller e parceiro de Stephen Hawking, um dos mais brilhantes físicos da atualidade. Com ele, escreveu dois livros, Uma Nova História do Tempo, espécie de continuação do fundamental Uma Breve História do Tempo, e o recém-lançado O Grande Projeto. [Leia aqui alguns trechos da entrevista que ele concedeu ao site da revista Veja.

Em O Grande Projeto, o senhor e Hawking afirmam que não precisamos de Deus para explicar o universo. Por quê? Algumas pessoas têm mania de tratar a ciência como um monstro que quer dominar o universo. A ciência não tem nada contra a religião ou contra a filosofia. A ciência diz que tudo segue um conjunto de leis. Queremos saber quais são essas leis, e não acreditamos que haja exceções ou milagres. Não tentamos desacreditar milagres, mas assumimos que eles não existem porque nunca fomos capazes de reproduzi-los em laboratório. [Se a lógica for essa, o que dizer da macroevolução e do big bang, que igualmente nunca foram e certamente nunca serão reproduzidos – pelo menos não de maneira natural, sem a interferência de agentes inteligentes – em laboratório? Se a lógica for essa, muitos conceitos em ciência deverão ser descartados pelo fato de não serem reprodutíveis em laboratório.] Se há um Deus invisível e indetectável, deixamos isso para os teólogos. Só queremos descobrir as leis da natureza – sem que as pessoas se zanguem com a gente.

O senhor acredita em algum deus? De certo modo sim. Apesar de acreditar nas leis da Física, parece que não existe uma razão para explicar por que essas leis existem. Por que as coisas não acontecem aleatoriamente? Talvez esse seja o milagre: o Universo segue as leis da natureza. Talvez essas leis que regem o Universo sejam a definição de “deus”. [Mlodinow está chegando perto da verdade, mas, como ocorre frequentemente com cientistas treinados no naturalismo filosófico, ele recua antes da dar o último passo. Embora quase admita que a existência de leis e a não aleatoriedade do Universo – leia-se nas entrelinhas design inteligente – constituam uma ideia estranha sob o ponto de vista da casualidade e do afinalismo, Mlodinow não faz a pergunta crucial: Se existem projeto e leis, não haveria por trás deles um Projetista, um Legislador? De onde “surgiram” essas leis que regem o Universo? E como a realidade poderia existir antes dessas leis? Teriam essas leis “criado” a si mesmas?] É uma noção bem diferente de um ser que está lá em cima metendo o dedo na vida das pessoas e fazendo milagres [Mlodinow deixa escapar seu (pre)conceito equivocado de Deus – muito comum também entre os neoateus como Richard Dawkins et al. Segundo a Bíblia, Deus não fica “metendo o dedo” na vida das pessoas. Ele atua para o bem eterno delas apenas quando é convidado. Mlodinow parece querer acreditar num Deus, mas não O conhece suficientemente para fazê-lo]. A Física busca explicações simples para descrever o mundo que experimentamos.

Deus não seria uma explicação bem mais simples do que a complexa Teoria das Supercordas, por exemplo? Seria ótimo se a explicação de tudo fosse Deus. Albert Einstein disse que os cientistas tentam fazer tudo da maneira mais simples possível, mas não de maneira simplória.

O senhor fala como se a Teoria das Supercordas, amplamente discutida no livro, já tivesse sido verificada na prática, o que não é o caso. Qual distinção faz? Ninguém mostrou que a Teoria das Supercordas não é verificável.Dizemos, contudo, que não sabemos como vamos verificá-la . Concordo que quanto mais tempo se passa sem que uma teoria seja provada, o desinteresse cresce e os cientistas se ocupam com outros temas. Exigimos que as teorias sejam verificáveis, mas não precisa ser hoje.Algumas demoram mesmo. Einstein levou 11 anos para formular a Teoria Geral da Relatividade.

A afirmação sobre a existência de múltiplos universos pode ter o mesmo impacto que a descoberta de que a Terra não é o centro do Universo? Antigamente era natural pensar que tudo no Universo estava a serviço dos seres humanos. A Revolução Copérnica (de Nicolau Copérnico, astrônomo que formulou, no século XVI, a teoria de que o Sol é o centro do Sistema Solar, contrariando a crença vigente de que esse posto pertencia à Terra nos trouxe a noção de que a Terra não está no centro de tudo. Similarmente, a Revolução Darwiniana nos disse que a humanidade não é a essência da vida [darwinistas sempre gostam de fazer essa associação Copérnico/Darwin, mas se esquecem de que ambos nunca negaram Deus; Copérnico era profundamente religioso e Darwin se tornou agnóstico, não ateu]. Se a Revolução dos Multiversos for verdadeira, nem o nosso universo é o centro: existe uma infinita variedade de coisas acontecendo, e não há locais ou seres favorecidos.

No fim do livro, o senhor e Hawking afirmam que a Filosofia está morta. Como assim? Cheguei a comentar com Stephen que não deveríamos publicar isso. Originalmente, a frase foi formulada de outra maneira. Algo como: “como ferramenta para aprender sobre o mundo físico, a Filosofia está morta”. Ele concordou, mas disse que assim não causaria impacto. Decerto houve impacto, mas isso também nos atingiu, dado o número de filósofos que ficaram furiosos. O que queríamos dizer é que há muitos e muitos séculos os efeitos naturais não tinham uma explicação razoável, apesar de estar pautados pela Filosofia. Hoje, os instrumentos da Filosofia não permitem que sondas sejam enviadas ao espaço, que novas tecnologias sejam criadas para melhorar a vida das pessoas. Com a Física podemos observar o mundo, formular uma teoria, montar um experimento e fazer previsões. As teorias são verificáveis, e milagres, não. Foi nesse sentido que afirmamos que a filosofia estaria morta.    

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