Esse homem que aceita adoração e lava os pés dos outros me enlouquece

Esse homem que aceita adoração e lava os pés dos outros me enlouquece

Atualizado: Terça-feira, 26 Novembro de 2013 as 2:47

oração
Não se engane com meu jeito educado e gentil.
Nem sempre fui assim.  Eu já matei um homem.
Cristo morreu pelos meus pecados.
Aliás, pelos nossos. E eu não desperdicei aquele sacrifício:
ao menos por mim, aquele sangue não foi em vão.
Nunca entendi a maior parte das coisas sobre Ele, mas sei que
sua vinda mudou minha história.
O cristianismo, por culpa minha, ainda não fez de mim um bom cristão,
mas já me tornou muito menos ruim do que eu seria sem ele.
Este homem disse que minha vida é mais do que meus bens,
que qualquer flor se veste melhor do que com Gucci ou Gabbana,
Versace ou Dior. Qualquer lírio do campo está na moda, sempre.
E sussurou que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma.
Este homem, que eu mesmo matei com meus pecados, e diz que
amar me torna invencível; servir, grande;
ser fraco me torna forte; dizer “não”, íntegro.
Esse homem que aceita adoração e lava os pés dos outros me enlouquece:
ele diz que quando julgo, me julgo antes, que ao perdoar também antes me perdoo,
me fala para oferecer a outra face a quem me fere, e a andar a milha extra.
E me diz que está sempre à porta, batendo, para me convidar para jantar.
Nunca vou entender esse Deus que se mata, ou, como disse Calvino,
que “se tornou  filho dos homens para os homens se tornarem filhos de Deus”.
Eu nunca vou entender esse homem que diz para eu me negar a mim mesmo e tomar uma cruz, justo ele, que em um mundo de hipocrisias primeiro me tomou a minha.
Receio que nunca irei entender quase nada, mas sei duas coisas:
sei que ele me amava antes de eu me tornar visível para os outros, e que matei esse homem.
 
 
- William Douglas
 

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