A igreja brasileira tem muito a ensinar às igrejas pelo mundo, diz pastor de Hong Kong

Ivan Chung, professor universitário, pastor e integrante do Movimento Lausanne fala em entrevista exclusiva ao Guiame.

fonte: Adriana Bernardo

Atualizado: Sexta-feira, 13 Setembro de 2019 as 1:55

Ivan Chung em vista ao Brasil para participar da “Conferência 3R – O Nosso legado”, em São Paulo. (Foto: Adriana Bernardo/Guiame)
Ivan Chung em vista ao Brasil para participar da “Conferência 3R – O Nosso legado”, em São Paulo. (Foto: Adriana Bernardo/Guiame)

Ivan Chung nasceu nos EUA, mas sua família é de Hong Kong, onde ele vive atualmente. Em sua estada no Brasil para participar da “Conferência R3 – O Nosso legado”, que aconteceu em São Paulo, o pastor Chung falou com exclusividade ao Guiame.

Coordenador na Universidade Politécnica de Hong Kong, onde lidera a educação extracurricular para cerca de 5.000 estudantes de graduação e pós-graduação residenciais, Ivan Chung lida diariamente com jovens, grupo que desde março protagoniza protestos que tomaram proporções enormes, com grande repercussão internacional.

Organizadas inicialmente de forma pacífica, as manifestações em Hong Kong surgiram em protesto ao projeto de lei de extradição, proposto pelo governo de Hong Kong e que prevê a deportação de pessoas para a China, o que pode criar sujeição à lei chinesa.

O mote dos protestos é a luta pela democracia, sistema político inexistente na China, governada por regime comunista (Partido Comunista Chinês – PCC). Hong Kong é um território autônomo, que tem sua própria legislação e sistema político.

Atualmente, Ivan Chung trabalha no desenvolvimento de liderança entre os universitários e iniciativas de paz em áreas pós-genocídio da África oriental. Sua paixão é pela educação urbana multiétnica global e local, bem como pela reconciliação e parcerias ministeriais entre grupos culturalmente díspares.

Em nossa conversa, Ivan Chung, que também atuou como Pastor em cidades como Milwaukee, Houston, Chicago e Nova York, onde desenvolveu um trabalhado de integração entre educação, espiritualidade e justiça social, fala sobre os últimos acontecimentos políticos em Hong Kong, com enfoque para seu ministério pastoral, em liderança e na igreja.

Sua carreira de professor universitário se mistura com seu ministério, como isso acontece?

Em meus anos de formação eu vivi em Chicago. Depois da universidade comecei a pastorear em Houston, Texas, Newark, Chicago e em Nova York, onde eu conheci minha esposa. Mudamos para Los Angeles e comecei trabalhar em tempo integral em uma universidade cuja base de ensino é a fé cristã. Lá, nos EUA, ensinei coisas sobre comunicação transcultural, missões, estudos de migração, na área de sociologia e também estudos interculturais e ministérios cristãos.

O Sr. diz que pensou em morar no Brasil...

Sim! Minha esposa e eu pensamos em vir morar aqui em 2014, mas Deus nos deu um filho com necessidades especiais, o que nos fez ficar num sistema médico com comunicação em inglês. Foi um tempo de muita dedicação, e cuidamos dele intensamente por três anos. (O pastor Ivan teve dois filhos. Isaiah, faleceu em março deste ano em consequência de severos problemas neurológicos).

Como foi esse período?

De modo geral tive de cancelar todas as atividades com as igrejas e ministérios, porém mantive aceso o meu relacionamento com os pastores, por isso estou aqui no Brasil hoje.

O Sr. vive em Hong Kong. O que o levou para lá?

A três anos atrás Deus nos levou para Hong Kong, por causa de uma oportunidade de trabalho na área da educação. Em Hong Kong é raro ter educação além da sala de aula, o que chamamos de atividade extracurricular. Eu trabalho na área de desenvolvimento estudantil, e esta é a maneira como eu também ministro. Minha abordagem é prover oportunidades para os alunos em diversas áreas como liderança, comunicação e desenvolvimento pessoal como um todo. Ainda sou pastor, porém trabalho com educação um governo não cristão. Meu trabalho é principalmente dentro da universidade governamental. Eu faço a conciliação entre o que é exigido de mim pelo governo, mas também ministerialmente dentro da educação.

Como o Sr. avalia os últimos acontecimentos em Hong Kong?

Primeiro, violência gera violência. Eu penso que parte da mídia foca um ponto ou outro e às vezes eles têm seu próprio ponto de vista. Conforme tenho visto, as manifestações se tornaram violentas. Toda vez que o restante do mundo ouve as palavras “liberdade” e “democracia”, eles desenvolvem um certo ponto de vista da situação. Por certo eu acredito em liberdade e democracia. Também creio na liberdade de expressão. Mas por outro lado sou contra toda a violência. Se entendermos a história de Hong Kong – eu ainda estou estudando sobre todas estas coisas –, veremos que muito do medo se tornou em raiva. O sistema educacional, o sistema político e muito dos sistemas estabelecidos abafam esse medo e essa raiva começa a transbordar de forma horrível. Creio que meu ministério é mostrar que existem alternativas de como as pessoas podem viver. Também como educador meu papel e ajudar os alunos, os professores a tomarem posição de liderança servidora em situações como essa. Ou seja, não tomar posições políticas rapidamente, mas buscar entender as pessoas. Ter paz um com o outro. E ver alternativas sobre como podem encontrar soluções.

Isso parece complicado em meio ao que vemos em Hong Kong hoje.

É uma situação muito difícil porque os alunos são muito facilmente movidos e conduzidos por outros poderes e sobre o que está acontecendo por trás desses poderes. Mas, como eu disse, o que vejo é a raiva, o medo, e uma luta por poder. Eu creio que Jesus nos ensina um meio diferente de viver. Vemos isso quando seus seguidores perguntaram se eles poderiam ter lugar de proeminência, em sua vitória política. Um queria se sentar à direita e outro à esquerda. Jesus disse: ‘Você está disposto a passar pelo que eu vou passar para fazer isso funcionar?’ A vitória política não é, de forma alguma, o que Jesus está procurando. Mas os ser como Ele é, e que cada um leve a sua cruz [para segui-lo]. E o sofrimento e a vergonha que muitas vezes vêm ao entregarmos nossa vida, eu creio que mesmo os seguidores de Jesus não entendem isso quando chega a essa situação política.

O caminho de Jesus para conflitos é outro...

O caminho de Jesus é o caminho da cruz. Não creio que Jesus escolheu um lado político proeminente. Mas na verdade ele nos empodera para que possamos viver a realidade do dia a dia para vivermos no sistema político que estiver estabelecido. Jesus tinha um judeu zelote com ele sempre lutando contra os políticos; Jesus tinha um coletor de impostos que trabalhava para o governo romano. Como eles conviviam? É assim que temos que conviver em Hong Kong.

Em meio a estes conflitos, capitaneados por estudantes, o Sr. vê alguma tendência à fé?

É uma boa pergunta, porque eu não vejo muita inclinação para a fé mesmo nesse tempo, pois eles estão olhando para si mesmos e tentando ver se conseguem um pouco de esperança. Mas as boas-novas é que um pouco dessa inquietude abriu oportunidades para discutirmos sobre a fé. O simples fato de que muitos estudantes e jovens não encontram esperança da maneira que vivem em Hong Kong, que tem um custo de vida e muito alto. Até mesmo os grandes administradores das universidades não têm como comprar propriedades em Hong Kong. Existe uma grande realidade política no país, de algo grande, adquirida pela memória de uma suposta boa vida dos nossos colonizadores, tem a influência ocidental que moldou Hong Kong e as pessoas acabam não sabendo para onde ir. Elas estão tentando encontrar esperança. Hong Kong é bem pequena e muito densamente populada. É difícil para as pessoas encontrarem emprego, eles estão muito nervosos a respeito do futuro. Interessante a maneira como a violência é justificada facilmente, eu creio que isso será um grande problema para os nossos jovens. Isso me dá mais razões para eu ficar em Hong Kong e trabalhar com os jovens.

Qual é o papel da igreja em relação aos manifestantes e os que estão no poder?

Eu creio que a igreja deve dar uma visão de como a cidade pode ser. Uma sociedade em que a transformação esteja acontecendo. Quando o evangelho transforma pessoas e comunidade, aí eu acredito que a sociedade poder ser transformada. A igreja deve trazer paz, shalom. Trazer paz às áreas mais violentas. A igreja deve prover novas alternativas de viver e de pensar. E aquilo que parecer ser quase impossível de ver entre os lados (manifestantes e governo), eu prefiro pensar na igreja como uma maneira de abarcar ambos os lados. Podemos ter pessoas da igreja que tomam posição ao lado de um ou de outro, e as que ficam no meio. Tem algumas posições mais acirradas, mas Jesus empodera para vivermos bem em comunidade. No final das contas o que move a educação e o que o governo e tudo o mais são os relacionamentos. As Escrituras nos ensinam a viver em paz com todo mundo, não importa como me relaciono com os manifestantes ou com governo, com a escola ou com minha família, e com meu lugar de trabalho. Jesus se importa com tudo isso. E com esse tipo de visão holística que eu acredito que a igreja precisa se comunicar.

Como é a evangelização em Hong Kong? Há liberdade? Que estratégias a igreja usa para comunicar Jesus lá?

O Espírito Santo sempre tem uma estratégia. Porque mesmo nos lugares onde há uma grande restrição religiosa, vemos Cristo sendo comunicado, e nas situações mais difíceis. Então a liberdade e a democracia podem não estar somente na política, mas, na verdade, onde estão as comunidades de Deus há liberdade. A liberdade é como nós encampamos a realidade de Deus em todas essas esferas da sociedade. Porque os alunos olham para meu plano de aprendizagem e eles encaixam as teorias de educação e de liderança. Eles prestam atenção porque esse plano todo tem a ver com desenvolvimento e caráter. Eles olham para a minha vida, eles olham para a vida da minha família. Para o sofrimento da minha família em perder uma criança e isso me dá oportunidade de compartilhar o poder, que não vem na forma de política, mas vem em relacionamento com cada esfera. Não importa a realidade a política quando temos de compartilhar muitas boas coisas com muitas pessoas. Na verdade, o meu trabalho em Hong Kong é muito singular e muito raro em toda Ásia. Existe muito pouco praticante de desenvolvimento de caráter em qualquer lugar da Ásia. Esse currículo é feito por professores especializados em suas áreas, mas eles não entendem a forma como interagem porque é muito especializado. Eu creio que é por isso que Deus me deu essa oportunidade onde eu não posso compartilhar Cristo diretamente, mas posso incorporar Cristo em tudo o que eu faço. Em termos de evangelismo, eu comunico Cristo em minha vida pessoal, eu demonstro Cristo em meu trabalho na educação. E aí quando Deus me dá oportunidade, proclamo Cristo. Ser direto pode não acontecer todo dia, mas a demonstração acontece todo dia.

Qual a visão que o Sr. tem do Brasil nos últimos tempos na questão espiritual, nos trabalhos da igreja e da liderança?

Eu dependo de meus amigos, pastores, educadores para me comunicar o que está se passando aqui. Eu amo esse país. Minha família ia se mudar para cá (lembra?) e eu quero aprender mais. Eu estou na esperança de que os pastores tenham essa visão mais generalizada sobre a igreja e a política. Eu creio que podemos ter essa visão de um lugar florescendo. Eu espero que os pastores não sigam necessariamente o padrão ocidental de pensar ou a fragmentação das diferentes denominações. Ou a maneira como a igreja é dividida naquilo que eu acho que são nossos problemas mínimos, mas encontrar maneiras de ministrarmos juntos. Podemos até discordar em algumas coisas, mas se Jesus é o centro, podemos encontrar maneiras de trabalharmos juntos. Aprendo muito com meus irmãos do Brasil e irmãos da América Latina. Nos EUA ou mesmo em Hong Kong celebramos a carreira, nós não amamos um ao outro da mesma maneira como se faz aqui. Vocês têm essa característica, de pessoas que amam. Em outra parte do mundo não tem isso. A igreja brasileira tem muito a ensinar para a igreja ao redor do mundo. Espero que as igrejas brasileiras continuem nesse caminho.

Que mensagem o Sr. deixa para a igreja brasileira?

(Depois de pensar por alguns segundos, ele responde citando João 3.16) Deus amou o mundo e ele deu seu filho unigênito para todo aquele que nele crê. Vocês já são muito bons nisso [em amor], mas o que quero enfatizar é que ‘quem quer que seja’ significa todo mundo e não existe exclusão no reino de Deus, mesmo quando nós tomamos posições políticas e não concordamos com certas decisões. Mas nossa esperança é que as pessoas possam se apaixonar por Cristo porque assim terão a vida eterna. Espero que possamos liderar o nosso povo com esse entendimento. Como nos podemos amar todas as pessoas que Deus traz em nosso caminho? Podemos discordar, mas não nos impede de amar um ao outro em todas as esferas: na escola, artes, educação, música, medicina em todas as áreas. Nós podemos aprender como amar um ao outro bem e não amarmos as pessoas nos nossos termos; devemos de ensinar as pessoas a amarem umas às outras nos termos do outro.

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