"Internet motiva nova espiritualidade", diz jesuíta

"Internet motiva nova espiritualidade", diz jesuíta

Atualizado: Terça-feira, 30 Março de 2010 as 12

'' Igrejas não estão preparadas para a cultura da internet, que cria uma nova ambiência e, portanto, uma nova espiritualidade, um novo modo de fazer religião. Elas precisam mudar a ambiência ou, pelo menos, se questionar a respeito disso''. O alerta é do padre Pedro Gilberto Gomes, pró-reitor acadêmico da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), na reflexão que faz sobre ''Espiritualidade na internet: o surgimento de uma nova religião?''.

As igrejas entendem que esses meios são apenas dispositivos tecnológicos e, portanto, devem chegar às pessoas e trazê-las para a ambiência eclesial. Mas a ambiência que a internet está criando é outra e não a passada, explica.

O pesquisador e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos recorre ao filósofo e educador canadense Herbert Marshall McLuhan para explicar essa mudança de chave na ambiência.

McLuhan dizia que a história da humanidade pode ser dividida a partir da evolução dos meios de comunicação. No início, as pessoas se uniam em tribos, período em que faziam a transmissão oral da história. Com a escrita, começou a destribalização, porque as pessoas não dependiam mais dos anciãos para contar estórias.

Com os meios eletrônicos surge uma comunidade verbo-oral que criou uma retribalização. ''Só que esse processo, essa aldeia global, se dá num nível diferente do passado, ou seja, não significa retomar o que já existiu'', assinala o jesuíta.

Hoje, com a internet, ''essa rede em que as pessoas estão interconectadas está criando novos espaços de relacionamentos, novos espaços de espiritualidade'', frisa Pedro Gilberto em entrevista ao Instituto Humanitas da Unisinos. A pergunta que se faz é ''que tipo de espiritualidade surge de um portal?''.

Mais uma vez recorrendo a McLuhan, o professor de Comunicação lembra que não é o conteúdo da televisão que muda o comportamento das pessoas, mas o simples fato de assistir televisão. ''Na vivência das espiritualidades, é essa realidade que as instituições religiosas não estão percebendo'', aponta.

E emenda: ''O simples fato da pessoa se relacionar via portal já está criando uma forma de espiritualidade ou uma forma de ver religião diferente. Isto é o que deve ser questionado!''.

Pedro Gilberto arrola, ainda, o risco de as igrejas usarem a internet com uma intenção, como o desejo de incentivar a solidariedade e de levar as pessoas a rezarem, e, ao invés disso, fazer com que elas criem um deus à sua imagem e semelhança, incentivem o individualismo e constituam a sua própria religião.

O pesquisador em Comunicação menciona o portal da Canção Nova, que permite ao internauta escolher, na oferta da missa, apenas parte dela. ''O conteúdo está fragmentado e o internauta pode montar a sua própria missa'', afirma, para acrescentar:

''A Canção Nova, quando em seu site divide a missa, está iniciando uma consequência que não pode ser mensurada. A missa tem uma dinâmica, uma lógica e um movimento que forma um conjunto. A partir do momento em que, num portal, é feita uma partição dessa missa, a pergunta é que tipo de missa é essa?''.

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