Na linha de frente, pastores foram os que mais morreram de Covid-19 em 2020

Líderes religiosos ficaram na frente dos profissionais de saúde e segurança, deixando igrejas e famílias em luto.

Fonte: Guiame, Cássia de OliveiraAtualizado: quinta-feira, 28 de outubro de 2021 19:48
 Líderes religiosos ficaram na frente dos profissionais de saúde e segurança. (Foto: IEAD Canoas).
Líderes religiosos ficaram na frente dos profissionais de saúde e segurança. (Foto: IEAD Canoas).

Os líderes religiosos foram os que mais morreram de Covid-19 entre as ocupações em 2020, segundo um estudo da Rede de Pesquisa Solidária. Entre as 29 profissões analisadas, com base em dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, a categoria foi a que apresentou maior percentual de óbitos causados pela pandemia.

Dos líderes religiosos que faleceram em 2020, 44% foram vítimas da Covid-19. A taxa ultrapassa até mesmo o número entre profissionais de Segurança (25,4%) e da Saúde (24%).

Nesses 44% estão incluídos pastores e líderes cristãos que acabaram sua carreira, guardaram a fé e partiram para a Eternidade. Durante os picos da pandemia em 2020, se tornou comum em todo o Brasil igrejas divulgarem notas de falecimento de líderes ministeriais com uma frequência cada vez maior. 

Homens e mulheres corajosos que não tiveram sua vida como preciosa e cumpriram seu pastorado até o fim, muitos sacrificando a própria vida para salvar outras.

Pastores na linha de frente


Pastor Miguel Florentin na AD Canoas. (Foto: IEAD Canoas).

O pastor Miguel Florentin, presidente da Igreja Assembleia de Deus de Canoas (RS), lembra que os pastores não pararam durante a pandemia, mas continuaram trabalhando e servindo sua igreja. 

“Nós não paramos e estamos muito expostos pelo contato com as pessoas. Eu trabalhei todos os dias, fizemos expediente normal, fora o tempo de quando também tive Covid-19”, relatou o líder ao Guiame, que perdeu um pastor e um evangelista de sua congregação, vítimas da doença.

Em meio aos desafios do isolamento social e das restrições de abertura das igrejas, os pastores permanecem na linha de frente durante a pandemia, ministrando a famílias enlutadas, enterrando vítimas do coronavírus e pregando a esperança vindoura para um mundo em desespero. 

Miguel Florentin, que possui mais de 20 anos de pastorado, destaca que quando uma igreja perde seu pastor, os fiéis sentem um impacto muito grande. “É sempre um baque para a comunidade, porque o pastor é aquele que os amava, alimentava e animava. A igreja fica abatida”, disse.

“Por outro lado, como Igreja, nossa fé e esperança é a vida eterna e o Senhor sempre nos consola por meio dessa verdade, que se morrermos, estaremos com Jesus”, pondera o pastor Florentin.

Doando suas vidas como mártires

Nesses quase dois anos de pandemia, muitos pastores foram promovidos aos Céus por terem se infectado pela Covid-19, morrendo como verdadeiros mártires pelo Evangelho. 

Foi o caso do Pastor José Miranda, que liderava a Igreja Assembleia de Deus de Osório, no Rio Grande do Sul. O líder exerceu o ministério pastoral por 22 anos, ao lado de sua esposa Marilice Miranda, que também atuaram como missionários na Bolívia por mais de 9 anos.

Marilice contou ao Guiame como foi passar pela perda do marido e pai dos seus dois filhos de forma tão repentina. Em setembro de 2020, toda a família foi contaminada com Covid, mas apenas o pastor José teve o quadro de saúde agravado.

A esposa lembra que certo dia ele passou muito mal em casa e foi preciso chamar a ambulância para levá-lo ao hospital. Então, Marilice, acompanhada de familiares e irmãos da igreja, ficaram em frente ao hospital, aguardando notícias do pastor José. Infelizmente, após duas horas de sua chegada, ele faleceu aos 51 anos.

“No dia em que ele passou mal em casa, em nenhum momento me passou pela cabeça que eu iria perdê-lo, pois ele saiu conversando”, contou Marilice.


Marilice com seu falecido esposo, Pastor José, e filhos. (Foto: Arquivo pessoal).

A cristã disse que quando o médico deu a notícia, todos ficaram atônitos e muito comovidos, um dos colegas de ministério do Pastor José chegou a desmaiar. “Até hoje a igreja chora a partida do meu amado esposo. O que nos conforta é a esperança de um reencontro”, revelou.

Diante da perda tão abrupta, a família de José desmoronou, disse Marilice. Sua filha estava grávida de sete meses e precisou lutar para manter o bebê saudável, pois era muito apegada ao pai. O filho, estava com o casamento marcado e também foi impactado com o falecimento do pai, que tocava ao seu lado na orquestra da AD Osório. 

“O luto é uma amputação, você precisa aprender a lidar com isso diuturnamente, porque o vazio, a sensação de abandono e de impotência são terríveis”, declarou a viúva.

Passando pelo luto, Marilice sofreu crises de ansiedade e dificuldade para dormir, e diversas vezes parou no hospital. A cristã começou a fazer acompanhamento psicológico e tratamento para a ansiedade. 

Certo dia, em meio a tanto sofrimento, a viúva desabafou com Deus e sentiu vontade de parar de servir ao ministério. “Eu me atirei no chão do meu quarto e comecei a falar com Deus, dizendo: ‘Deus não sobrou nada de mim, este negócio de ministrar era tudo coisa da minha cabeça, e também do meu marido que me incentivava, isto de fato não existe. Está tudo enterrado com meu marido”, clamou ela.

Naquele momento, Marilice teve uma experiência sobrenatural com Deus, que respondeu seu clamor, dizendo: “Marilice, tu tens duas escolhas: ficar sentada aí, olhando pra trás e chorando, ou levantar e ir em direção ao propósito que eu tenho pra você. Não te afastes do altar, porque é no altar que está a tua cura”.

A cristã conta que a voz de Deus a consolou e a encorajou a se levantar e continuar seu ministério. “O Senhor é um Deus de propósitos e isto me dá forças para seguir em frente. Tenho uma chamada, tenho um propósito a cumprir, e vou cumprir até o final”, testemunhou.

Para Marilice, o pastorado é um chamado para uma vida sacrificial. “O pastor está à disposição de Deus e à disposição para servir o povo. Você vive exposto”, refletiu. 

A cristã relatou que na mesma semana que seu esposo faleceu, os dois estavam trabalhando bastante no atendimento à igreja, auxiliando os irmãos com Covid-19 a conseguirem leitos na UTI, porque estavam morrendo no posto de saúde da cidade.

“Mas eu sei que naquele dia, vamos dizer: valeu a pena ser fiel, valeu a pena o sacrifício”, concluiu Marilice. 

 

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