
Uma pesquisa revelou que a violência doméstica é predominante entre mulheres evangélicas no Brasil.
O estudo “Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e pelo Instituto Datafolha, mostrou que a violência contra a mulher atingiu o maior índice desde quando a pesquisa iniciou em 2016.
O relatório, publicado na revista Le Monde Diplomatique Brasil, reuniu dados de 2025 sobre as diferentes formas de violência contra meninas e mulheres brasileiras.
Apesar do crescimento da violência de gênero, 47,4% das mulheres vítimas de violência grave não denunciaram a agressão sofrida. Porém, 6% das vítimas procuram ajuda na igreja, de acordo com o estudo.
A pesquisa revelou que uma em cada quatro brasileiras sofreu agressão física por parte de parceiro atual ou ex-parceiro.
Entre as entrevistadas, 42,7% das mulheres evangélicas sofreram violência doméstica ao longo da vida e 35% das católicas.
A maioria das vítimas são separadas ou divorciadas, possuem filhos e estão na faixa etária dos 25 a 34 anos.
Além disso, são pretas com ensino fundamental e moram em capitais ou regiões metropolitanas.
Os pesquisadores do relatório apontaram que a atitude passiva de líderes evangélicos pode ser uma barreira para quebrar ciclos de violência doméstica.
“A mulher é desestimulada a fazer a denúncia, a sair do relacionamento, justamente por causa da sacralidade do matrimônio. Ela é aconselhada a outras coisas, como a resignação e a oração para que o agressor mude seu comportamento. São conselhos que apenas fazem com que a mulher siga na situação de violência”, afirmou Isabella Matosinhos, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Igreja como agente no combate à violência
Para os estudiosos, a proximidade que existe entre os pastores com os fiéis na Igreja evangélica pode ser uma ferramenta no combate a violência contra a mulher.
“Enquanto na igreja católica existe uma hierarquia, o relacionamento é mais distante, entre as evangélicas o pastor é mais acessível, seja para pedir conselho, conversar ou desabafar”, observou Isabella.
“No Brasil, é comum encontrar centros de acolhimento, inclusive com assessoria jurídica, em estabelecimentos religiosos. Isso pode acontecer tanto no catolicismo quanto nas religiões evangélicas. Mas formulamos hipóteses no sentido de que as religiões são muito firmes na questão do matrimônio, bem como sobre o papel da mulher no casamento”, acrescentou.
O estudo também concluiu que políticos que normalizam discursos violentos ou discriminatórios “autorizam os agressores” e contribuem para o aumento da violência contra a mulher.
“O contexto de radicalização política, de maneira geral, influencia na violência, porque nessas gestões temos um desmonte de políticas de enfrentamento à violência de gênero. E isso repercute nas ações individuais”, explicou Isabella.
E acrescentou: “Outra hipótese é o efeito rebote: a cada direito conquistado, temos uma reação adversa de parte da sociedade que tenta barrar a consolidação desse direito. A gente viveu, na última década, uma explosão de conquistas feministas que se materializaram em forma de lei. Mas esse ganho de direito legislativo é contestado pelo discurso de formadores de opinião ou de tomadores de decisão que minimizam a pauta”.
Líderes desencorajam denúncia
A discussão sobre a violência doméstica contra mulheres evangélicas tomou as redes sociais nos últimos dias, após a pregação da pastora Helena Raquel no 41º Congresso dos Gideões 2026, em Camboriú, Santa Catarina.
Com base na passagem bíblica de Juízes 19, que narra a violência contra uma mulher, Helena refletiu que, para “evitar escândalos”, a Igreja ainda desencoraja vítimas a denunciarem seus agressores.
Na ministração, Helena Raquel sugeriu que as igrejas adotem medidas para acolher as fiéis que passarem por violência doméstica.
“A maioria dessas mulheres buscam a igreja como um primeiro socorro. Vamos criar secretarias de acolhimento dentro das nossas igrejas? Vamos disponibilizar psicólogos? Pastora, a gente não tem condição de contratar psicólogo, mas tem lá mães, mulheres de oração. Faz um cursinho com essas meninas que vão atender, para não mandar abafar, não mandar calar, para abraçar ela bem apertado e falar: nós acreditamos em você”, disse.
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