Deus tem filho caçula?

Deus tem filho caçula?

Atualizado: Quarta-feira, 28 Julho de 2010 as 10:44

Vaga em estacionamento, peças de roupas em liquidação, aviões, carros 0Km, apartamentos, casas, fazem parte da lista de pedidos da oração de muitos cristãos. Ter mais tempo em comunhão, por meio da oração, pode não garantir que todos os pedidos sejam realizados. Afinal, Deus tem filhos caçulas?

Para o Rev. Lucas Guimarães, da Igreja Presbiteriana de São Vicente (SP), os pedidos de oração pessoal podem ser divido em dois tipos: os desejos pessoais, que são necessidades básicas ou carência momentânea; e os egoístas, que revelam um descontrole emocional ou até mesmo uma patologia.

Guimarães entende que pedir uma vaga no estacionamento, por exemplo, pode ser legítimo, desde que dentro de uma situação na qual a pessoa não tenha outro horário para realizar a tarefa e que o fato de não conseguir possa prejudicá-la. "Essa experiência torna-se angustiante. Deus é o socorro bem presente na angústia. É Deus que lida com as circunstâncias pertinentes das pessoas e que se conecta à dinâmica de suas vidas. Pedir seu favor nesse momento não significa nada de anormal para a pessoa de fé. Não existe nada em nossa vida que seja banal quando ela adquire pertinência existencial. O egoísmo banaliza até mesmo as boas razões", exemplificou o pastor.

O analista de sistemas, André Stutz, acredita que o fato de ter sua vida inteiramente diante de Deus faz com que todos os seus afazeres sejam colocados em oração: "Já que coloco todas as coisas na minha vida submissas à vontade do Senhor, e quando estou com a cabeça focada para qualquer coisa inclusive as de meu próprio interesse, oro pra que Deus me ajude, dando sucesso se assim for a vontade dele. Acho que isso é o mais importante".

Mas, ser cristão pode ser considerado um argumento diante do Senhor para que uma pessoa tenha vantagem sobre outra?

"Deus não faz as coisas por merecimento: ele manda chuva e sol sobre bons e maus! Nenhum evangélico será mais merecedor do sol ou da chuva do que um ímpio. Essa bondade de Deus é o que o torna diferente de nós e causa do ser humano ser indesculpável perante ele. Imagine se um ímpio tiver razão ao acusar Deus de favorecimento indevido", respondeu o pastor Guimarães.

Para E.C., ser cristão também não indica estar em um patamar de vantagem perante Deus: "Se você é cristão devia ter consciência de que você é um 'saco de estrume amado'. O ponto mais formal e teológico é que pecado não é uma coisa que você fez. Pelo menos não é só isso. É um estado, não é. Um estado que ofende a Deus profundamente, e um estado pelo qual ele mandou uma violência enorme sobre o filho dele. É óbvio que ninguém merece favores de Deus. Ele já fez mais do que deveria, amou o inamável".

O engenheiro José Carlos de Castro Junior acredita que o fato de se sentir mais merecedor do que outra pessoa quebra um principio bíblico: "Crendo que Deus é soberano, não devo ou posso me colocar desta forma, pois estaria quebrando um princípio Bíblico: Temor ao Senhor! Por mais injusto que pareça alguém receber algo que desejo tanto, não tenho este direito. Sou filho pela Sua Misericórdia".

A intimidade com Deus e a garantia das respostas

Segundo o Rev. Lucas Guimarães é perigoso embarcar na idéia de intimidade com Deus e acabar por tratá-lo como um homem. É importante saber que "Deus é Pai", porém não o como o "pai da terra", mas o "Pai que está no céu e que é sinônimo de uma proximidade reverente".

"Deus já demonstrou seu amor para conosco e já provou que está conosco sempre através de Seu Filho Jesus. Isto é suficiente para lançarmos fora toda crise de afetividade e presença. Deus não é homem. Deus é Deus! Ao nos dirigirmos a Ele, estamos nos dirigido ao Deus Pai. Por isso, todo amor é devido - ele é nosso pai; toda reverência é devida - ele é nosso Deus! Não se assuste. Reverência não é sinônimo de orações com palavras contadas, buscadas em dicionários e enciclopédias, mas da correta disposição de falar sinceramente e amorosamente a Deus os anseios de nosso coração, as nossas falhas e o nosso reconhecimento de seu senhorio sobre nós", explicou Guimarães.

O pastor evidenciou que oração não representa intimidade com Deus e espiritualidade, mas sim uma comunhão entre o ser humano e Deus. Para ele, não se deve usar a palavra intimidade ao se falar de comunhão: "Creio que esse termo 'intimidade' para a comunhão que temos com Deus é indevido. Deus jamais será íntimo de ninguém. O que existe da parte de Deus é uma resposta de amor para a vida dependente dele. Dependência não é o mesmo que intimidade. Dependência é mais do que intimidade. Intimidade é mania emocional. Dependência é envolvimento seguro; é firmeza emocional; é certeza de ser amado, mesmo que nenhuma palavra seja pronunciada".

Quando Deus diz sim às orações

O jovem E.C. costumava fazer tudo de acordo com os mandamentos bíblicos, entretanto, sempre reclamava que as coisas não aconteciam como queria. Depois de se aconselhar com um casal amigo, percebeu que era essencial que estivesse feliz com Deus, pois só assim conseguiria deleitar-se em Deus e assim ter realizado os desejos de seu coração (Salmo 37:4).

Em sua viagem para Europa levou essa questão em mente: "Depois de um tempo orando sobre isso, pedindo ajuda para entender e para ser feliz, a resposta martelou minha cabeça numa quinta à noite, quarto escuro e três graus negativos lá fora. No fim não é que Deus vai fazer o que eu quero, mas ele é o que eu quero. E de repente muita coisa fez sentido pra mim. Hoje eu sei que a luta não é agüentar a vida, mas desfrutar do que ela me dá, sabendo que foi Deus que deu e que ele tem o controle, que ele sabe o que faz, e que Ele me conduz para a eternidade são e salvo".

O estudante Renê Soares não passou em nenhum dos vestibulares que prestou pela primeira vez, mesmo se preparando. Então, no ano seguinte fez as provas em outras cinco faculdades e passou em quatro, porém, a sua primeira opção foi a que não conseguiu entrar. Hoje ele estuda na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) e compõe a Aliança Bíblica Universitária de Itajubá (ABUI), evangelizando a outros estudantes. "Acho que estudando lá não teria a oportunidade de fazer o trabalho que faço aqui com a ABU, que conheci aqui. Sei que Deus tem um propósito para mim e agradeço muito a Ele por  estar aqui hoje", afirma Soares.

Stutz passava por um momento difícil em seu emprego no ano de 2003, prestava concursos públicos, entretanto, não passava em nenhum. Então, no fim do ano, recebeu um telegrama do Tribunal Regional da 3ª Região o chamando para os exames pré-admissionais. Stutz verificou e percebeu que havia feito a prova do concurso no qual passara em 2002. "Este concurso, especialmente difícil por ser um cargo federal e de concorrência alta, prestei sem preparo algum, sequer uma apostila - foi de fato para mostrar que Ele é quem estava me dando o emprego público, não por meu merecimento. Não passei em nenhum dos outros concursos que havia prestado, preparando-me com apostilas etc. Deus ainda providenciou que o prazo de vigência do concurso fosse prorrogado, pois ele perderia validade (dois anos) em fevereiro de 2004, mas houve a prorrogação e eu fui nomeado em 10 de agosto de 2004", testemunhou Stutz.

Por Nany de Castro

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