Essênios - Elo com Jesus está perdido

Essênios - Elo com Jesus está perdido

Atualizado: Quarta-feira, 5 Maio de 2010 as 10:09

A história da origem do cristianismo jamais será a mesma. Essa era a expectativa de muitos aficionados pelas escrituras achadas acidentalmente em cavernas do Deserto da Judéia em 1947. Para muitos deles, a tradução final desses pergaminhos - que incluem as mais antigas versões hoje disponíveis de diversos livros da Bíblia - provaria que João Batista e o próprio Jesus pertenciam a uma seita de judeus celibatários, messiânicos e contrários à propriedade privada, que se isolaram no deserto à espera do Juízo Final. Nas últimas décadas, segredos, atrasos, controvérsias e acusações de conspiração cercaram as traduções e reforçaram as especulações sobre essa facção judaica contrária à religião praticada em Jerusalém.

A tradução integral dos Manuscritos do Mar Morto acaba de ser editada pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. Para aqueles que esperavam pelo menos alguma menção a Jesus ou aos primeiros cristãos, o resultado desse trabalho foi decepcionante. Para outros, no entanto, esses importantes documentos arqueológicos e históricos são mais uma forte evidência de que no período da dominação romana o judaísmo foi muito mais complexo e dividido em facções do que se acreditava.

Lotado de soldados israelenses armados de metralhadoras e fuzis automáticos, o ônibus sai de Jerusalém e segue na direção leste pela estrada que corta o deserto. Horas depois, ele pára em um entroncamento em Qumran, às margens do Mar Morto. O ar em qualquer época do ano é quente, pesado e opressivo nessa região, situada a quase 400 metros abaixo do nível do mar. Ao lado da parada de ônibus, uma trilha íngreme leva ao pequeno morro onde estão algumas ruínas, em frente ao leito pedregoso de um riacho seco, numa estreita garganta conhecida em árabe como wadi .

Em 1947, eram britânicos os soldados que guarneciam essa localidade no meio do nada, sem outra utilidade senão a de servir como esconderijo. Ninguém teria interesse em subir nas colinas a poucas centenas de metros além do wadi . Só mesmo um nômade, como o jovem pastor beduíno Muhammad edh-Dib, que em um final de tarde de primavera naquele ano procurava uma cabra desgarrada de seu rebanho.

Decidido a resgatar sua cabra, Muhammad seguiu colina acima e começou a vasculhar tudo, inclusive cavernas. Em uma delas, o jovem pastor descobriu alguns jarros de cerâmica, com os restos de sete antigos pergaminhos. Mal sabia ele que tinha nas mãos parte da mais importante descoberta arqueológica do século 20, nas palavras de estudiosos como Lawrence Schiffman, professor de estudos judaicos da Universidade de Nova York. Em meio ao conflito entre judeus e palestinos, os pergaminhos, divididos, foram parar em Jerusalém nas mãos de religiosos e estudiosos, como o arcebispo ortodoxo Mar Athanasius, o arqueólogo Eliezer Sukenik, da Universidade Hebraica, e os pesquisadores liderados por Millar Burrows, da Escola Americana de Pesquisa Oriental. Em 1948, com a criação do Estado de Israel, toda a cidade e a região de Qumran passaram a ser domínio jordaniano.

Quatro séculos de crise 332 a. C.

Invasão macedônica

Alexandre o Grande conquista a Palestina e dá início ao Período Helenístico, marcado por forte influência grega na política e religião judaicas. 197 a. C.

Domínio selêucida

A Judéia torna-se uma província do Império Selêucida, fundado por Selêuco I, um dos generais de Alexandre que o sucederam após sua morte.

167 a. C.

Proibição do judaísmo

A religião judaica é proibida oficialmente com pena de morte pelo Império Selêucida. O Templo de Jerusalém é transformado num santuário do deus grego Zeus. 166 a. C.

Revolta dos Macabeus

Com apoio de todos os partidos judeus tradicionais, Judas Macabeu lidera revolta vitoriosa contra os selêucidas.

150 a. C. (?)

A seita no deserto

Os essênios se fixam em Qumran, às margens do Mar Morto. Liderados pelo Mestre da Virtude, rejeitam as autoridades de Jerusalém, que eram complacentes com a helenização.

63 a. C.

A vez de Roma

Jerusalém é conquistada pelo general romano Pompeu, e a Judéia torna-se província do Império Romano. Crescem os grupos judaicos rebeldes.

6 a. C. (?)

Nasce Jesus

Nascimento de Jesus durante o reinado de Herodes na Judéia, que exercia um governo violento e corrupto com apoio de Roma.

30 d.C. (?)

Execuções

Crucifixão de Jesus por ordem de Pôncio Pilatos, procurador romano e feroz repressor

das rebeliões.

66 d. C.

A grande rebelião

Início da Guerra Judaica, com sucessivas revoltas armadas, desencadeadas principalmente pelos zelotas contra as tropas romanas.

68 d. C.

Apocalipse essênio

Destruição do monastério de Qumran por tropas romanas. Os Manuscritos

são escondidos nas cavernas das proximidades, às margens do Mar Morto.

70 d. C.

Massacre de Jerusalém

Destruição e incêndio do Templo de Jerusalém pelo general Tito, filho do imperador Vespasiano. Roma mata milhares de judeus de várias seitas, inclusive a maioria dos

seguidores de Jesus.

73 d. C.

Aniquilação final

Conquista da fortaleza judaica de Masada por tropas romanas.

Esconderijo eficaz

Os escritos encontrados por Muhammad edh-Dib continham as mais antigas versões conhecidas de três livros bíblicos – Isaías, Habacuc e Gênesis. Havia outros escritos mais recentes, entre eles o que viria a ser traduzido como Manual da Disciplina , mais tarde como Preceito da Comunidade . Esse era um dos textos religiosos dos essênios, uma das principais seitas ou partidos religiosos hebraicos que, segundo o historiador judeu Flávio Josefo (37-101 d. C) existiram do século 2 a. C. ao ano 70 d. C.

Até 1956 foram descobertas em outras dez cavernas de Qumran mais rolos de pergaminho e papiro, envoltos em tecidos de linho e selados com betume. Também foi achado um rolo de cobre, no qual, ao que parece, foi gravada uma lista de esconderijos de tesouros, nunca encontrados, retirados do Templo em Jerusalém para que não caíssem nas mãos dos invasores romanos (veja cronologia ).

Vários pergaminhos foram reduzidos a milhares de fragmentos pouco maiores que uma unha. Em bom estado havia 12, correspondentes a 813 documentos, a maioria em hebraico, alguns em aramaico e em grego. Estudiosos os dividiram em três categorias: os bíblicos, com versões de todos os livros da Bíblia judaica, exceto o de Ester, muito mais antigas que as conhecidas; os apócrifos, com textos excluídos de várias versões bíblicas; e os sectários, que são comentários bíblicos, trabalhos litúrgicos e regras da comunidade essênia.

O santuário dos Manuscritos Apesar de escritos em materiais pouco duráveis, como pergaminho e papiro, os Manuscritos do Mar Morto resistiram por 19 séculos graças às condições de pouca umidade no interior das cavernas de Qumran. Para preservar os fragmentos, foi inaugurado em 20 de abril de 1965 o Museu do Livro, no campus da Universidade Hebraica de Jerusalém. Dois terços da construção ficam embaixo da terra, e o domo que a recobre foi desenhado de maneira a lembrar a forma da tampa dos jarros dentro dos quais os pergaminhos foram encontrados. A estrutura também tem um significado simbólico: o contraste entre o domo branco e as paredes de basalto negro que o circundam representa a tensão espiritual entre os "Filhos da Luz", como os habitantes de Qumran chamavam a si próprios, e os "Filhos da Treva", ou seja, os inimigos da seita. O corredor que conduz os visitantes ao salão principal do museu foi desenhado de maneira a lembrar uma caverna. As vitrines são iluminadas com fibras óticas, e diversos outros cuidados foram tomados para impedir que a exposição à luz provoque a deterioração do material. Depois de ficar exposto por um período que varia de três a seis meses, cada fragmento é levado para um armazém especialmente preparado, onde fica "descansando".

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