Evangélicos da Ucrânia buscam novos rumos para sua fé

Evangélicos da Ucrânia buscam novos rumos para sua fé

Atualizado: Quinta-feira, 9 Dezembro de 2010 as 11:27

Igor Stakhovskiy conta piadas e pisca nervosamente à medida que seu carro lotado segue com oito passageiros – todos de sua família, com exceção da repórter – ladeira acima, à velocidade de uma caminhada. O seu é um dos poucoscarros em Kiev, a capital da Ucrânia, que não é um dos enceradose brilhantes Toyota Jazz ou um dos novos Volkswagens negros. Na verdade, trata-se de um carro, digamos, “pastoral” Chegando ao topo da ladeira, inicia-se a descida em direção à sua residência. As crianças, incluindo as duas gêmeas adotadas depois do nascimento das três filhas naturais, os carrinhos de bebê e os equipamentos da igreja entulham o elevador que leva ao apartamento, de apenas um quarto, onde a família mora. Igor serve chá e pede desculpas pelo aperto provocado pelas camas, que se espalham pela sala.

Os Stakhovskiy têm uma trajetória interessante. A mulher de Igor, Raia, vem de uma família vinculada à Igreja Batista por gerações – inclusive, com vários mártiresque foram massacrados nos anos de chumbo do período comunista em sua linhagem. O pastor, por outro lado, faz parte da nova onda de crentes convertidos na época da queda da União Soviética. No seu caso, rendeu-se a Cristo em 1991, após terminar o serviço militar. “Gradualmente, aprendi sobre Deus”, conta. Igor obteve um diploma na Universidade Bíblica Vida Nova, em Moscou, a capital russa, e com a ajuda de uma família amiga montou a Igreja Fiofanyia (Epifania), que se reúne todo domingo à tarde nas dependências de uma fábrica. A congregação, com cerca de 40 membros, é animada – os fiéis cantam louvores no estilo do coro Hillsong e não se furtam a orar com imposição de mãos pelos necessitados.

A igreja do pastor Stakhovskiy representa muito bem o desafio que os evangélicos ucranianos enfrentam. Ainda não é fácil professar o Cristianismo depois de tanto tempo de restrições legais à fé, impostas pelo regime soviético. O pior é que a Ucrânia tenta firmar um compromisso com a democracia, mas ensaia um retorno ao totalitarismo, da mesma maneira como o vizinho gigante, a Rússia, além do Uzbequistão e outros antigosEstados soviéticos, estão fazendo. Evangelizar num contexto desses é um desafio. Por outro lado, é preciso incutir nos freqüentadores, submetidos a anos e anos de pregação ateísta, os valores e as práticas mais básicas dos ensinos de Jesus. Recentemente, por exemplo, foi necessário informar a algumas das jovens da igreja que não era correto morar junto com seus namorados, coisa que elas nunca ouviram dos pais. Elas ficaram bastante surpresas, mas atenderam a orientação do pastor.

Mas à medida que Igor fala, passa a impressão de que o evangelicalismo se espalhará em poucos anos pelo Leste Europeu e até mesmo pela Ásia Central, região de forte presença islâmica. A Ucrânia, uma nação influente sob o ponto de vista político e cultural e com uma localização estratégica, entre o Ocidente e o Oriente, introduziu previamente as ondas do Cristianismo entre as demais nações eslavas (ver quadro). Terra de férteis estepes, cuja extensão é cortada por rotas mercantes ancestrais; a Ucrânia não foi independente durante a maior parte de sua existência. No ano 800, os escandinavos fundaram o Principado de Kiev, um Estado predecessor do que hoje são a Ucrânia, a Rússia e a Bielo-Rússia. A Comunidade Polaco-Lituana tomou para si o que sobrou da nação depois do país ter sido saqueado durante séculos pelos mongóis. Já no século 19, a Ucrânia ocidental caiu sob o domínio da Áustria, enquanto o restante do país foi incorporado ao Império Russo. Durante a era comunista, a República Socialista Soviética da Ucrânia foi um dos lugares mais duramente atingidos pela política alimentícia do líder russo Stálin. Cerca de 10 milhões de ucranianos morreram de inanição durante a Grande Fome de 1932.

Abertura e crescimento

Com um passado assim, era natural que os ucranianos ansiassem por autonomia, inclusive em termos religiosos. Mas foi só no fim dos anos 1980, logo após o desastre da usina atômica de Chernobyl – o maior acidente nuclear da história – que os ucranianos começaram a respirar ares de liberdade, segundo Vasily Lopatin, vice-presidente do Seminário Teológico de Odessa. “Mesmo antes da União Soviética cair oficialmente, em 1991, muitos cristãos já se sentiam suficientemente seguros em praticar sua fé de uma maneira mais aberta”, comenta.

A glasnost e a perestroika introduzidas pelo ex-líder Michail Gorbotchov na então União Soviética pegou muita gente de surpresa, mas foram as senhas que os religiosos ucranianos esperavam para dar asas à própria fé. Igor Agapoff, da Christian Broadcasting Network (Rede Cristã de Televisão), descreve a metade dos anos 90 no leste europeu e na Rússia como uma época em que o crescimento do evangelismo era inacreditável. “Aquele processo surpreendia a todos. O tempo da colheita havia chegado; naqueles dias era possível duplicar o tamanho de uma igreja em apenas um mês”, lembra. Isso aconteceu, de acordo com o patriarca da Igreja Ortodoxa de Moscou, Archimandrite Hovorun, porque as pessoas, sedentas por algo que lhes desse confiança, inundaram as igrejas existentes: “A Igreja tornou-sea única autoridade, a única instituição digna de confiança nesta sociedade após o colapso do regime e do Partido Comunista”.

Konstantin Goncharov, presidente do Seminário Teológico de Kiev (KTS), explica que a Ucrânia tornou-se, de certa forma, uma espécie de centro do cristianismo na região. “Nós temos o maior número de igrejas e a maior porcentagem de cristãos entre todos os ex-países soviéticos”, aponta. Anatoly Prokopchuk, presidente do KTS, emenda que muitas nações do Leste encaram a Ucrânia com um exemplo de restauração, tanto em direitos políticos quanto em liberdade religiosa. “Eles acreditam que, se os ucranianos obtiverem sucesso nessa retomada, isso trará esperança até para a Rússia fazer o mesmo. Somos um país com um padrão experimental”, define.

Mas em um país onde 82 por cento da população declaram-se cristãos, os evangélicos ainda são considerados uma raridade. Diretor executivo da Associação Euro-Asiática para Credenciamento de Escolas Evangélicas,Serguei Sannyakov declara que provavelmente eles constituem apenas um ou dois por cento da população total, estimando um número em torno de 460.mil a 900 mil adeptos de denominações protestantes – aí incluídos os freqüentadores de novas igrejas que surgiram no contexto pós-soviético, e que são consideradas como seitas pela dominante Igreja Ortodoxa.

Os crentes ucranianos ganharam destaque durante a Revolução Laranja, levante popular ocorrido em 2004 pelo reconhecimento da vitória eleitoral do líder da oposição, Viktor Yushchenko na campanha presidencial, após claras evidências de fraudes nos resultados. O caso atraiu atenção internacional e envolveu até uma tentativa de assassinato do candidato, que foi envenenado com dioxina. Para prestigiar o segmento, Yushchenko, uma vez no poder, escolheu o ex-pastor batista Olexander Turchinov como chefe da Segurança Pública. No entender de analistas, esta aproximação foi, em parte, responsável pela visão distorcida a respeito dos evangélicos. Um dos deveres do pastores do país é deixar claro quem eles são e como se encaixam dentro de uma nação cristianizada.

“Fora do underground”

Hoje, os líderes da Igreja ucraniana expressam, unânimes, sua gratidão pelas pessoas, donativos e recursos financeiros e ministeriais vindos do exterior, sobretudo dos Estados Unidos. Entretanto, algumas vezes parecem desapontados, como se a presença missionária reforçasse uma visão do evangelicalismo como uma imposição cultural americana. A influência dos cristãos da América tem uma frágil representação para os evangélicos ucranianos. Contudo, algumas organizações como a SEND Internacionale a Cruzada Universitária estão presentes no país desde os tempos em que ser missionário era ilegal, o que lhes dá certa legitimidade para continuar atuando no país, inclusive como trampolim para acesso às nações vizinhas, mais fechadas que a Ucrânia.

O problema é que os crentes locais rejeitam a subcultura do Protestantismo tradicional e ainda estão à procura de uma identidade cristã própria, compatível com a relativa autonomia dos novos tempos. Alguns abraçam tradições ortodoxas a fim de encarnar um evangelicalismo que seja compatível com a fé eslava nacional. Outros grupos mais avivados, como a pequena igreja de Stakhovskiy, admitem que as pessoas possam nascer de novo tanto dentro da Igreja Católica quanto na Igreja Ortodoxa; e tentam lembrar a cada um acerca de seu contexto étnico.

Sergei Tereschenko, deão acadêmico do KTS, tem uma análise mais precisa: “Nós adotamos o estilo ocidental de adoração, com música alta, mas estamos em um país ortodoxo”, lembra. Ambas as lideranças, evangélicas e ortodoxas, reconhecem as tensões existentes, mas expressam um grande desejo de união – demonstrado, principalmente, na colaboração interdenominacional em ministérios sociais e na tolerância mútua. Uma vez, Tereschenko ajudou a pagar o funeral de um parente ortodoxo, mesmo sabendo que um dos pontos principais do sermão da cerimônia seria sobre a desesperança da salvação fora da Igreja Ortodoxa e a inutilidade do evangelicalismo. Além disso, estimula seus alunos a respeitar as tradições religiosas eslavas e a demonstrar amor, e não retaliação – mesmo quando são hostilizados. “É uma questão de obediência a Cristo”, resume.

Apesar de todos os desafios que os evangélicos enfrentam na Ucrânia, eles permanecem fortemente evangelísticos. Richard Strahm, que é professor no KTS através da SEND Internacional, está impressionado com a rapidez com a qual os crentes ucranianos saíram do underground direto para missões. “Assim que a liberdade chegou, eles já estavam prontos para sair, plantar igrejas e evangelizar”.elogia. Catherine Wanner, uma americana que é professora associada àPenn State University, da Pensilvânia, estudou os evangélicos ucranianos por mais de uma década. Segundo ela, essa liberdade tem muito a ver com o governo ucraniano. “Para começar, a lei e a burocracia na Ucrânia criaram circunstâncias muito favoráveis às ações missionárias; eles estão mais receptivos à chegada de evangelistas e líderes religiosos de qualquer lugar, bem como de ajuda humanitária; permitindo que organizações religiosas locais participem da distribuição desses recursos. É possível que esta liberdade continue”, anima-se.

“Para quem nunca observou as igrejas da Rússia, de todas as denominações, mais de 50% delas são lideradas por ucranianos”, aponta Steve Weber, diretor regional da CBN WorldReach (CBN Alcance Mundial), em Kiev. Agapoff acrescenta que, nas novas igrejas da Rússia, esta estatística pode subir para 80 por cento. Segundo ele, líderes locais já têm trabalhos de plantação de igrejas em lugares tão distintos como Turcomenistão e Indonésia, além de países da Europa Ocidental e até mesmo na China e na Tailândia.

Pertencendo à quarta geração de membros de uma das igrejas mais tradicionais do país, Michael Cherenkov ainda mantém o hábito de usar calças escuras e um comportamento bastante austero. Com dois títulos de PhD em sua formação, ele está conseguindo reconhecimento pelo seu trabalho com Ministério Associação para Renovação Espiritual. Para Cherenkov, os evangélicos ucranianos precisam de uma nova teologia: “Não uma teologia de repetiçãoou de tradições antigas, mas de mudanças”, defende. Ele argumenta que a comunidade protestante de seu país precisa de um “evangelismo social, e não de espiritualidade interna,” especialmente para alcançar a juventude ucraniana. “Podemos combinar as tradições da Igreja na Ucrânia com a nova situação da sociedade. Pode-se encontrar um equilíbrio entre passado e futuro”, prega.

O aumento dos ministérios de trabalho social, como os da centenária Primeira Igreja Batista de Odessa, talvez seja o tipo de modelo que Cherenkov tenha emmente. Ações como essa é que estão criando uma ponte para a lacuna entre o passado e o futuro. Mas tudo teve que ser adaptado antes. “A transição entre o modelo nacional e o estrangeiro precisa ser menos direta”, afirma o crente batista. “Nós precisamos de modelos de ministério novos, dentro da legalidade, que sejam apropriados para a nova situação: não um evangelismo direto, mas ajuda humanitária e trabalho com grupos de alto risco”. É bem possível que a chave para o futuro da Igreja cristã na Ucrânia seja uma alquimia disso tudo.

Muitos cristãos, poucos evangélicos

Conta-se que André, o apóstolo, possuía terras perto da costa do Mar Negro, na Ucrânia, e teria espalhado o Evangelho até o norte, por volta de 55 A.D. Mas a região ainda permaneceu oficialmente pagã até o século 10, quando Vladimir, o Grande, converteu-se ao cristianismo e forçou os cidadãos de Kiev a serem batizados no Rio Dniepro. A Ortodoxia oriental tornou-se rapidamente a religião principal daquela região. A partir dali, os religiosos ucranianos sofreram a influência cristã da Roma Católica, da Contra-Reforma Polonesa e do protestantismo alemão – e, após uma lacuna de alguns séculos, de missionários dos Estados Unidos e de outras nações ocidentais.

Hoje, a Igreja Ortodoxa Orientalestá dividida em mais de três grupos na Ucrânia, e conta com algo em torno de 80 por cento dos cristãos da nação. Os demais são praticantes do rito católico oriental, batistas, pentecostais e outros grupos menores, sobre cuja presença não há números precisos, mas seriam algo entre 500 mil e 900 mil. Após o fim do período soviético, igrejas neocarismáticas e as suas conexões internacionais, como o Hillsong de Kiev e a Embaixada de Deus – considerada como a maior igreja evangélica da Europa, com cerca de 25 mil pessoas em freqüência semanal –, ganharam força.

Por Susan Wünderink

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