Igreja de Willow Creek investe em comunidades pobres da África

Igreja de Willow Creek investe em comunidades pobres da África

Atualizado: Sexta-feira, 3 Dezembro de 2010 as 2:38

No momento em que as igrejas ocidentais se debatem em busca de relevância para seus ministérios, parece cada vez mais difícil fazer o dever de casa – ou seja, sair da posição confortável de meramente satisfazer a alma e o gosto de seus membros para realmente impactar a sociedade com o Evangelho de Cristo. Há menos de dois anos, uma das principais representantes do que se convencionou chamar de megaigreja entrou em crise consigo mesma. A Igreja Comunitária de Willow Creek (WCCC, na sigla em inglês), sediada em Chicago, nos EUA, passou pelo dissabor de ver seus dirigentes questionando a própria razão de ser de uma enorme organização de alcance internacional, que envolve mais de 12 mil igrejas associadas em 35 diferentes países. “Parece que algumas atividades em que gastamos milhões de dólares simplesmente não provocaram mudanças na vida das pessoas”, escreveu Greg Hawkins, pastor-executivo da WCCC no livro Reveal: Where Are You? (“Revele: Onde você está?”), obra baseada em pesquisas que causou tremenda polêmica entre os 20 mil membros que se reúnem todos os domingos na majestosa sede da denominação.

Pois agora Willow Creek tem buscado cada vez mais essa tal de relevância na mutualidade do Corpo de Cristo. E o faz justamente onde sua ação pode representar a diferença entre a vida e a morte para milhares de pessoas – em uma das regiões mais carentes do planeta, bem longe do brilho da luminosa Chicago. A WCCC vem investindo em parcerias com igrejas africanas para levar a mensagem da salvação, o socorro e a dignidade a populações de países como Angola, Zâmbia, Malaui e África do Sul. Na verdade, o ministério da Igreja de Willow Creek é tão extensivo quanto extraordinário. É extensivo, irônica e precisamente, porque ignora ONGs multimilionárias para trabalhar com congregações locais. E extraordinário porque, ao invés de buscar suporte em recursos tecnológicos, baseia-se na realidade de igrejas pequenas e pobres, que nada mais têm a oferecer do que seu conhecimento e disposição. E isso tem sido tudo.

A mudança de filosofia é bem sintetizada por Warren Beach, diretor do ministério da Willow Conexões Globais: “Se, como diz o mantra da Willow, nós acreditamos que a igreja local é a esperança do mundo, temos que construir relacionamentos com nossos irmãos e irmãs que estão na linha de frente, lutando contra a pobreza, a Aids e ganhando suas comunidades para Cristo”. Ele cita o texto de II Crônicas 16.9: “Quanto ao Senhor, seus olhos passam por toda a terra, para fortalecer  aqueles cujos corações são completamente compromissados com ele”.  Enquanto a contribuição de Willow Creek para esses ministérios africanos é fundamental, o papel da megaigreja é quase invisível. Willow não é a primeira a praticar um modelo de ministério de igreja para igreja – mas monitora essa métrica do sucesso como ninguém. A ênfase da coisa é colaborar com as igrejas locais e permanecer nos bastidores. Simples assim. Mas é uma metodologia que tem sido bastante copiada.

Ajuda sem dependência – Willow começou procurando igrejas que estavam interessadas, independente se iria apoiá-las ou não. Descobriu uma coisa simples: a demanda não é simplesmente pela ajuda, mas pela conquista do desenvolvimento auto-sustentado. “Os crentes africanos não estão esperando o Ocidente mandar recursos”, continua Beach. “Eles estão olhando para dentro e dizendo: ‘O que Deus tem dado para nossa comunidade resolver?’”. O executivo diz que era isso que a WCCC estava procurando. “Vínhamos orando para encontrar lugares onde o Senhor estivesse trabalhando nas igrejas locais e andar ao lado desses irmãos, providenciando alguns recursos mas sem criar dependência”. A denominação começou fazendo isso na República Dominicana. Em 2004, Lynne Hybels, mulher do fundador de Willow Creek e hoje pastor aposentado, Bill Hybels, voltou de uma viagem à África sobrecarregada pelas necessidades que a pandemia de Aids agravou sensivelmente. “Por que nós não estamos fazendo nada?”, perguntou à liderança. “Se nós vamos ser Igreja, como poderíamos encarar Deus algum dia sem ter combatido o que está acontecendo na África Subsaariana?”

E assim começou o trabalho da Willow na África. Corrigindo – não é um trabalho da Willow, mas sim, o trabalho dos africanos. “E a marca é a igreja local”, emenda Beach. Pouco tempo depois, a WCCC encontrou ministérios sérios e comprometidos o bastante, e começou a investir US$ 2 milhões por ano na África. Um dos vetores do trabalho são as conferências que a igreja promove na África do Sul, e que reúnem por volta de 5 mil líderes e crentes locais. Daí, foi mais fácil formar uma rede de igrejas dispostas a entrar no programa. “Nós gostamos de trabalhar com pessoas primeiro, antes de providenciar qualquer forma de financiamento”, diz o líder da Associação Willow Creek na África do Sul, Gerry Couchman. “Buscamos conhecer os indivíduo e testemunhamos sua integridade. Temos visto o que eles estão tentando fazer por eles mesmos com recursos muito limitados”, destaca.

Nos últimos quatro anos, a associação encontrou 28 projetos para acompanhar. Na Cidade do Cabo, por exemplo, Lerato’Hope é uma organização sem fins lucrativos da Igreja Batista de Pineland. Faz parceria com organizações populares já existentes que cuidam, tratam e dão suporte para famílias pobres afetadas pela Aids nos municípios de Gugulethu, Nyanga, Crossroads e Philippi. Essas áreas são lar para meio milhão de pessoas, cujas estatísticas incluem um quadro deprimente de pobreza: o desemprego atinge 60% da população e mais da metade das pessoas vive em cabanas, sem água encanada, energia elétrica ou qualquer infraestrutura. Certa de trinta por cento das mortes são causadas pelo vírus da Aids.

O nome Lerato’s Hope (“A esperança de Lerato”) foi escolhido em homenagem a uma menina da localidade. Há oito anos, ela era um frágil bebê de 18 meses que foi trazido a um orfanato chamado Beautiful Gate. Algumas famílias da Igreja Batista de Pineland estavam abrindo uma escola dominical lá. Eles se envolveram profundamente com a comunidade e perceberam que a pequena Lerato não estava bem. Abatida pelo vírus HIV, já não conseguia falar ou andar. O prognóstico dos médicos davam conta de uma morte iminente. Mas a família se recusou a aceitar isso. “Se ela irá morrer”, eles diziam, “vai partir sendo cuidada e amada”. Eles continuaram uma amorosa vigília na cabeceira da cama, e milagrosamente a criança começou a se recuperar. Hoje, Lerato é uma garota forte, de dez anos de idade.  Sua história não somente eletrificou a igreja, mas também a comunidade local.

Pontas do iceberg – Tudo que se possa fazer em termos de promoção social diante da dura realidade africana será apenas a ponta de um iceberg de gigantescas demandas. A epidemia de Aids, embora ostente números desastrosos – dos 33 milhões de doentes registrados no mundo, 28 milhões vivem ali –, é apenas uma delas. Mas trabalhos pontuais como Lerato’s Hope tem a mágica capacidade de se capilarizar. Dirigindo pela Klipfontein Road, atravessa-se uma das áreas mais ricas da África do Sul. Shopping centers, ruas bem pavimentadas e escolas particulares compõem a paisagem, mas bastam alguns quilômetros para se chegar a um prédio pintado de verde, sem decoração e com janelas e portas cobertas por grades. Ali funciona o projeto Izandla Zethemba. Organização sem fins lucrativos fundada pela Igreja Comunidade Khanyisa, que trabalha com 40 órfãos e crianças vulneráveis e mais de 80 famílias que vivem no entorno da sede. Além da distribuição de suprimentos, a entidade oferece programas de prevenção da doença e grupos de suporte aos infectados e suas famílias.

Em um grande quarto, são visíveis os sinais da presença constante de crianças. Há desenhos nas paredes e objetos de artesanato feitos por elas mesmas. Xolile e Unathi são dois estudantes que deixaram a universidade por um ano para trabalhar na Izandla. Apesar da consciência de que faz o que está a seu alcance, Xolile anda frustrada. “Quando você descobre que existe tanta necessidade, somente deseja poder tirar o sofrimento dessas pessoas”, resume. Unathi faz coro com a colega: “Algumas vezes você encontra uma criança que precisa de mais ajuda do que você pode dar. Eu me sinto perdido, porque a situação é dura demais”. Mas eles estão no jogo, de acordo com o diretor executivo Rowan Haarhoff: “Encontrar pessoas nessas comunidades que darão tanto tempo e esforço como esses dois é muito difícil”, ele diz. “Eles estão tirando um ano de suas vidas, sem salário. É formidável”, elogia.  

Com este tipo de atores no jogo, a ajuda prestada pela WCCC a estes empreendimentos sociais resume-se a suprir as necessidades na medida em que vão aparecendo. Na localidade pomposamente chamada de Barcelona – na verdade, um subúrbio miserável da Cidade do Cabo onde mais de dois mil barracos feitos de madeira, telhas de estanho ondulado e qualquer outro material que possa ser empilhado –, o cheiro de lixo podre não respeita as precárias janelas de vidros quebrados. Por aquelas vielas, uma van financiada pela Willow Creek transporta pessoas, comida, móveis e remédios para atender uma população formada por 230 mil pessoas, das quais 63 mil são soropositivas. No meio de Barcelona foi construído um prédio de concreto que abriga o ministério Ubuntu, liderado pela holandesa Cobi De Bonte e pela sul-africana apelidada de Mama Beauty, que é uma verdadeira mãe para a comunidade.

O edifício ferve todos os dias com as diversas atividades que envolvem crianças e jovens, como clube de café da manh㠖 sem o qual eles iriam com fome para a escola –, companhia de teatro, coral gospel e time de futebol, todos organizados pelos membros da comunidade. Se não fossem essas atividades, as crianças estariam vagando sem rumo pela ruelas de terra batida, sujeitas a negligência e abuso. “Isso é um município, e um município é caos. Um dia você tem um emprego, no outro, não. Um dia você está bem, e no outro, doente”, descreve Cobi. A única maneira de sobreviver a isso, o que todos ali sabem muito bem, é a solidariedade e uma rede sólida de parcerias. Os africanos já perceberam isso há muito tempo – a igrejas ocidentais como a WCCC parecem cada vez mais dispostas a caminhar lado a lado com os protagonistas dessa revolução.

Por Mark Galli

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