À luz da Bíblia

À luz da Bíblia

Atualizado: Quarta-feira, 16 Junho de 2010 as 11:49

Uma das raízes da separação entre a Igreja de Roma e os protestantes, a Bíblia, que já era o livro mais vendido de todos os tempos, está ganhando a dianteira na lista de best-sellers. 'A proliferação das igrejas neopentecostais fez aumentar as vendas. E, entre os católicos, o interesse cresce desde o Concílio Vaticano II, que reforçou sua importância', diz o professor de bíblia da Universidade Metodista de São Paulo Tércio Machado Siqueira. 'Grupos de leitura popular atraem cada vez mais gente.' Só no ano passado, as duas maiores editoras de bíblias do país venderam juntas mais de 5 milhões de exemplares - quatro vezes a soma de todos os livros de Harry Potter publicados no Brasil desde o primeiro lançamento. A Bíblia só não entra na lista dos mais vendidos porque sua publicação é feita por várias editoras diferentes, e parte da vendagem acontece fora do circuito das livrarias.

A literatura paralela também se multiplica com títulos de apoio e livros apócrifos. Textos excluídos do cânone bíblico, os apócrifos continuam presentes na tradição religiosa, em detalhes como o nome dos três reis magos que adoraram Jesus na manjedoura ou nos relatos da infância do Salvador, ausentes dos evangelhos oficiais. 'Essa literatura, usada pelos estudiosos para análise comparada, se populariza entre o público leigo', diz o biblista José Bortolini, da editora Paulus.

Trechos dos Evangelhos podem ter sido acrescentados depois

Além de fundamentar os códigos das religiões, a Bíblia é considerada sagrada por ter sido inspirada por Deus. Muitos fiéis a lêem como se houvesse sido ditada, palavra por palavra, pelo Criador. Na verdade, o livro que hoje conhecemos é uma compilação de alguns entre centenas de textos sagrados do judaísmo e do período posterior à morte de Jesus, que circularam em manuscritos dos séculos X a.C. até II d.C. Como tantos outros livros, ela foi e continua sendo incessantemente reescrita pelos homens: mais de 3 mil versões distintas já foram feitas e outras continuam a sair das editoras.

Uma das traduções mais respeitadas pelos acadêmicos, a Bíblia de Jerusalém foi reeditada no ano passado com notas atualizadas. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil elaborou a própria versão, traduzida diretamente do hebraico e do grego. A Paulus lançou uma tradução idiomática que prefere expressões da cultura de hoje à transposição literal. Uma versão lançada em 2002 na França mistura poesia concreta e trechos que lembram letras de rap. As novas versões tendem a apresentar mudanças mínimas, corrigindo apenas uma ou outra palavra por se acreditar que tenha sido traduzida de maneira equivocada. Mas, ao longo da história, mudanças muito maiores já foram feitas.

MANUSCRITOS Os do Mar Morto mostram versões diferentes Nos primeiros anos do cristianismo, as comunidades religiosas utilizavam cânones diferentes, influenciados pela localização e pelos costumes. Assim, os escritos compostos em uma determinada região tendiam a ser mais populares em seu território de origem. Entre os cristãos do Egito, por exemplo, era bastante difundido o evangelho de Tomé, hoje considerado apócrifo por católicos e evangélicos por seu teor místico. Os próprios judeus só se preocuparam em definir quais eram e quais não eram as escrituras inspiradas por Deus com o advento do cristianismo. Após séculos transmitindo a história oralmente e através de textos esparsos, os rabinos reuniram-se no Sínodo de Jamnia, no ano 90 d.C., para selar uma lista oficial.

No caso dos cristãos, a seleção também foi feita aos poucos, eliminando-se versões que, por um motivo ou outro, não eram aceitas pela maioria das comunidades ou pareciam conflitar com o corpo dos ensinamentos. O evangelho de Maria Madalena afirmava que não existia pecado. Em seus relatos, as mulheres exerciam posições de liderança nas comunidades cristãs. No livro, Madalena não teria sido uma prostituta, como dizem os Evangelhos oficiais, mas uma seguidora do mestre. Livros com relatos da infância de Jesus também ficaram de fora, como os que descrevem a capacidade do Messias de transformar pássaros de barro em animais vivos com seu sopro. O cânon católico, com 73 escritos, só foi definido em 1546, durante o Concílio de Trento. No mesmo período os protestantes rejeitaram sete livros do Antigo Testamento não escritos em hebraico ou aramaico. Até hoje os evangélicos consideram apócrifos textos como Judite e Eclesiástico.

Mas mesmo nos textos aceitos por todas as vertentes cristãs há controvérsia quanto a trechos que teriam sido acrescidos posteriormente para estimular o comprometimento dos fiéis ou formatar a religião. O final do Evangelho de Marcos, que menciona a ascensão de Jesus, pode ter sido acrescentado para reforçar seu caráter divino e a missão que deixou aos discípulos. Outro possível acréscimo seria a história da pecadora prestes a ser apedrejada que foi salva por Jesus, relatada por João, talvez para consolidar uma imagem misericordiosa do mestre. Como tudo o que se refere ao livro sagrado, essas hipóteses dificilmente poderão ser esclarecidas em definitivo.

LIVRO POLÊMICO

Trechos da Bíblia que geram debate entre os estudiosos - 'SOBRE ESTA PEDRA EDIFICAREI A MINHA IGREJA' (Mt 16, 18) Para católicos, o trecho justifica a primazia de Pedro e fundação de uma religião. Estudiosos questionam se era essa a intenção de Jesus.

- 'FOI ASSUNTO AO CÉU' (Mc 16, 19) O trecho sobre a ascensão de Jesus em Marcos seria acréscimo posterior;

- APÓCRIFO A popular cena de Verônica limpando o rosto de Cristo, como outras da via-sacra, não está na Bíblia;

- PECADORA ARREPENDIDA (Lc 36) Visões libertárias da mulher, como as descritas no evangelho apócrifo de Maria Madalena, foram excluídas;

- PROFECIAS (Ap, 10) Linguagem alegórica quase deixou o Apocalipse, alvo de muitas leituras equivocadas, fora da Bíblia.

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