Marketing na Igreja: "Nosso produto é o Evangelho"

Marketing na Igreja: "Nosso produto é o Evangelho"

Atualizado: Quinta-feira, 19 Agosto de 2010 as 2:49

Têm logotipos, programas nas rádios e TV's, fazem reuniões temáticas especiais, atraem pessoas para ouvir sua mensagem e até seguem um modelo de liderança internacional.  Esse é o perfil de algumas igrejas evangélicas brasileiras, que usam estratégias de marketing.

Segundo o Dicionário Online Priberam da Língua Portuguesa, Marketing(MKT), "ou Mercadologia, são atividades comerciais que trabalham com a investigação dos desejos psicológicos dos consumidores, a fim de adaptar o produto as suas necessidades".  

Para Ricardo Gouvêa, ministro presbiteriano e professor de Teologia e Filosofia da Universidade Mackenzie, a prática desse conceito de "mkt" não está de acordo com a missão do Evangelho: "Uma igreja que utiliza estratégias de marketing, assim como outras estratégias comuns, advindas dos estudos de competitividade nas chamadas 'ciências organizacionais', está se comportando como qualquer outra organização que visa o sucesso e o lucro. Uma igreja, contudo, não é uma organização como qualquer outra. Sua singularidade impede que ela adote posturas culturais que vão contra sua natureza intrínseca de agência proclamadora do evangelho de Cristo"

Lázaro Carvalho, publicitário e Gestor de Comunicação da Primeira Igreja Batista em São José dos Campos (PIBSJCampos), entende que o marketing pode ser uma ferramenta eficiente para as igrejas, desde que seja utilizado com ética: "Sabemos que ainda há líderes denominacionais que torcem o nariz quando se fala em marketing, mas a maneira como é utilizado é que determina resultados positivos ou não. Se aplicado com ética e obedecendo aos princípios bíblicos, com certeza atenderá às necessidades e propósitos da igreja", afirmou. A PIB de São José dos Campos faz parte do ministério interdenominacional Igreja Com Propósitos, fundado pelo pastor americano Rick Warren.

A Igreja e a Linguagem

Um local de culto que foge ao convencional, uma linguagem que se distingue da formalidade podem ser encaradas como estratégias de MKT para atrair pessoas aos cultos. "Eu acredito que a igreja precisa falar a linguagem da geração que ela se propõe alcançar, sem comprometer a qualidade e a verdade da sua mensagem", opinou o pastor Junior Souza, líder da Igreja Vineyard Capital.

Conhecida por sua abordagem contemporânea do evangelho, a Vineyard Capital tem um padrão diferente de outras comunidades. No site, que leva o título "Proibido Pessoas Perfeitas", as apresentações da igreja deixam claro que ela não deseja ter a mesma imagem de outras, como na frase de introdução: "Quando pensamos na palavra igreja no Brasil, qual a imagem que nos vem à mente? Um tribunal, um banco, uma nova forma de ditadura, uma instituição não relevante nos dias de hoje?".

Em entrevista ao Guia-me, questionado se essa seria uma estratégia para atrair um público "anti-igreja", o pr. Souza responde que não: "Acredito que é mais um desabafo dos nossos corações diante das nossas próprias experiências anteriores com igrejas. Desde o início não sabíamos e honestamente ainda não sabemos como seremos, mas temos certeza do que não queremos ser, e baseados nesta convicção temos feitos estas afirmações", disse.

Para o professor de Teologia e Filosofia Gouvêa, as apresentações da mensagem do Evangelho não precisam ser adornadas: "O evangelho deve ser apresentado como ele é, sem penduricalhos. Ele não necessita de enfeites e atrativos, pois é a mensagem mais impactante que um ser humano pode ouvir ou proclamar, uma mensagem revolucionária não apenas para a vida do indivíduo, mas também para a vida da sociedade".

O pastor e Diretor Executivo da organização Lidere e da gravadora Canzion Brasil [ambas fundadas por Marcos Witt], Daniel Romero, acredita que as estratégias de MKT para evangelização estão de acordo com a passagem de Romanos 12:2 - "E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus"(tradução Almeida Revista e Atualizada).

"As pessoas que não conhecem a Cristo precisam tirar da cabeça o crente quadrado, sem criatividade. Durante anos nós cristãos tivemos muito preconceito. Eu creio no que diz Romanos 12:2 - Renovação da vossa mente", afirmou Romero.

A fé como mercadoria

A fé apresentada como solucionadora de problemas, garantia de bênção e obtenção de recursos financeiros, que tem o objetivo de tornar o Evangelho atraente, é vista por Gouvêa como mercantilização da religião: "É essa a principal faceta desta grande degeneração do protestantismo no Brasil que estamos assistindo. O aspecto moral da fé foi abandonado, e a alienação em relação aos aspectos sócio-políticos (necessários no âmbito de uma teologia contextual) foi exacerbada ainda mais", avaliou.

Já para Carvalho, uma comunicação que respeita princípios bíblicos evita o tratamento da fé como mercadoria. Para ele, Jesus aplicou ensinamentos de MKT: "Podemos entender que houve a aplicação do famoso 'mix' ou composto de marketing, ou seja: Jesus nos falou em praça, dizendo que a abrangência de seu reino é universal; falou em preço, este é de graça, está disponível a todos que O buscam, basta crer Nele; falou em promoção, esta deve ser feita e divulgada a todos os moradores da terra; e falou em produto, nosso produto é o evangelho, a palavra de Deus e o relacionamento pessoal com Jesus Cristo e da igreja com as pessoas", explicou.

O pr. Souza, líder da Vineyard, acredita que a Igreja deve disponibilizar a oportunidade de conversão de vida: "Em primeiro lugar não estamos 'vendendo' uma mensagem, muito menos qualquer produto. Estamos oferecendo a oportunidade de pessoas experimentarem uma mudança radical em suas vidas, baseada na esperança e no amor de Deus por elas. Se mantivermos este foco e este coração, pela graça do Pai, não correremos o risco de ver a fé como um produto", observou.

Promessas esquecidas

Tentando atrair com promessas de saúde, prosperidade e sucesso, Ricardo Gouvêa acredita que a Igreja não cumprirá muitas esperanças dadas aos fiéis: "A igreja passa a ser uma tenda de bênção e milagres, uma loja de amuletos, sem propor uma revolução espiritual na vida pessoal e na vida social da nação. Não é o evangelho descrito no Novo Testamento. As igrejas deveriam ensinar os crentes a se perguntar o que podem fazer pelo Reino de Deus, e não o que Deus pode fazer por eles. Há aqui uma inversão. Em vez de nos fazermos servos de Deus, queremos ter a Deus como nosso servo, nosso gênio da lâmpada".

Segundo o pr. da Vineyard, promessas não cumpridas pelas igrejas não estão ligadas somente as que são propostas pelas estratégias de MKT: "Se formos honestos vamos perceber que com ou sem marketing, as igrejas em geral já prometem muitas coisas que não estão dispostas a cumprir. Por exemplo, dizemos que todos serão bem vindos e amados em nossos cultos, mas morremos de medo de uma prostituta ou um travesti realmente aparecer por lá", expressou.

Como solução para as promessas não cumpridas, o gestor de Comunicação da PIB SJCampos acredita que vale a pena até suspender os projetos: "Não realizar por completo aquilo que se promete é pior que não realizar. O resultado será muito mais positivo se até cancelarmos atividades propostas de que não atender com plenitude o que se promete", disse.

Divulgando a denominação ou o Reino?

Ao divulgar eventos; preocupar-se com um ambiente agradável para a recepção dos membros e convidados; estabelecer um controle de receita, despesas e investimentos; e gerir ministérios como uma equipe, a igreja pode ser interpretada como uma organização empresarial, que pode destacar-se em detrimento do Reino.

Carvalho lembra os ensinamentos de Paulo e acredita que essas estratégias de MKT podem ser utilizadas para a divulgação do Reino, e não de uma de uma determinada igreja: "O apóstolo Paulo nos ensina que a divulgação do Reino e da palavra deve ser feita a qualquer modo e a qualquer tempo. À igreja cabe divulgar e achar a melhor forma. O marketing está aqui também para isto. É questão de aplicação, da forma que se utiliza. A igreja que se preocupa em primeiro lugar na divulgação do Reino de forma correta, transparente e bíblica, jamais será confundida como realizadora de uma autopromoção".

Já o pr. Junior Souza acredita que o relacionamento entre as igrejas pode dar fim a confusão entre a promoção do Reino e de uma instituição em particular: "Mantendo o coração certo, parcerias afinadas, prestação de contas com outras pessoas e ministérios. Assim não vamos nos esquecer de que somos parte de algo muito maior. Isto é o Reino, disso queremos fazer parte".

Na percepção de Gouvêa, a igreja deve trabalhar para divulgação e inserção de valores do Reino de Deus na sociedade e cultura do Brasil: "Sua preocupação não pode ser seu sucesso e crescimento enquanto organização, pois isso seria abandonar os interesses do Reino para abraçar os seus próprios interesses de crescimento em poder, em prestígio e finanças. Esse tipo de evangelho não é mais de Cristo, mas uma falsificação de Cristo. É uma apostasia. Quando isso acontece, a igreja de Cristo se transforma em igreja do anticristo".

Por Nany de Castro

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