Mendigos, prostitutas e drogados são alvos do 242

Mendigos, prostitutas e drogados são alvos do 242

Atualizado: Quarta-feira, 21 Julho de 2010 as 3:06

O maior desafio da igreja atual é alcançar uma diversidade de pessoas, nela devem conter todas as nacionalidades, estilos e classe social, porém cada indivíduo deve sentir-se como parte desse corpo para que cumpra a função para qual foi chamado por Deus. Nesse contexto surge o Projeto 242, uma igreja que há mais de dez anos trabalha com pessoas da cultura alternativa.

O nome 242 refere-se à passagem do livro de Atos dos Apóstolos 2:42, "E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações".

A igreja foi matéria de capa da "Revista Folha", no dia 11 de janeiro de 2009, por ser diferente das instituições brasileiras. Ao invés de bancos ou cadeiras justapostas, os membros se acomodam em sofás ou em mesas distribuídas por um salão localizado na Rua da Glória, 900, Liberdade, em São Paulo. Eles são, em sua maioria, jovens de classes média e alta, com tatuagens e piercings pelo corpo. A liturgia do culto não é como nas igrejas evangélicas tradicionais.

O Portal Guia-me participou de um de seus cultos e fez uma entrevista exclusiva com o Reverendo Sandro Baggio, que trabalha como pastor integral da igreja.

Guia-me: Quando e como surgiu o Projeto  242 ?

Rev. Baggio:  O Projeto 242 surgiu numa época que eu era pastor numa igreja no bairro do Ipiranga e trabalhava com um ministério voltado para jovens da cultura underground, alternativa, roqueiros, chamava-se "Refúgio do Rock". Depois de anos de trabalho na comunidade, veio um desafio, da própria liderança, para que começássemos algo novo, uma nova igreja em São Paulo. Eu não tinha desejo nenhum em fazer isso, estava feliz em trabalhar com uma igreja local, considerava que havia muitas igrejas na cidade. Então, coloquei uma condição, se fosse para fazer isso, deveria ser para alcançar pessoas que não estavam sendo alcançadas pelas demais, não fazia sentido criar alguma coisa igual ao que todo mundo estava fazendo. Isso cresceu no meu coração, da minha esposa, de alguns amigos, nos reuníamos durante meses para orar e refletir sobre isso. Em janeiro de 1998, começamos aquilo que hoje é o Projeto 242, passamos por várias fases, transformações e localidades diferentes.

Guia-me: Qual é a sua avaliação sobre o estado atual da igreja brasileira?

Rev. Baggio: Eu acredito que a Igreja brasileira enveredou-se por um evangelho conhecido como o da saúde e da prosperidade, isso fez com que perdesse a essência do Evangelho, que é ser como Jesus. Não quero ser um juiz duro em relação à Igreja, faço parte dela. Mas quando vemos um crescimento tão grande da igreja evangélica e não vemos a transformação da sociedade, eu me questiono sobre o tipo de evangelho que está sendo gerado no coração das pessoas, não me parece que elas estão mais semelhantes a Cristo, e isso é lamentável.

Guia-me: Vocês já sofreram algum tipo de preconceito por parte de igrejas mais conservadoras?

Rev. Baggio: Preconceito existe, porque é muito mais fácil julgar pela aparência do que sentar e dialogar para entender o que está no coração das pessoas. Pelo fato de sermos ou fazermos as coisas um pouco diferentes, as pessoas assumem, imediatamente, que nós sejamos liberais em relação à doutrina, ou que não levamos a Bíblia a sério, basta nos acompanhar e  verão que isso não é verdade. Nós somos conservadores em relação a doutrina, levamos a Bíblia a sério como Palavra de Deus. A minha formação é de uma Teologia Reformada, temos o compromisso de dar todo o conselho de Deus para as pessoas. A nossa metodologia, nosso relacionamento com a cultura é flexível, pois ela passa por transformações e vivemos no meio dela, cremos que Cristo é o grande redentor da cultura.

Guia-me: O projeto "Toque" trabalha com os menos favorecidos da sociedade, como ele surgiu?

Rev.Baggio:  O projeto "Toque" é um ministério que nasceu da nossa visão no início da igreja, queríamos uma igreja comprometida com os pobres e marginalizados, por isso queríamos colocar missionários para trabalhar na "Cracolândia", centro de São Paulo, então nasceu uma comunidade de missionários que tem atuado há oito anos. Temos visto vidas sendo, literalmente, salvas por Deus, elas viviam nos prostíbulos, estavam completamente destruídas, estão sendo resgatadas e tendo uma nova vida com Deus hoje.

Guia-me: Como é feita a aproximação e abordagem das pessoas no Toque?

Rev.Baggio:  Nossa equipe de missionários, de tempo integral, e voluntários saem todos os dias para se relacionarem com as pessoas. Por exemplo, na segunda-feira, os missionários vãos aos prostíbulos da cidade e abordam as prostitutas, conversam e oferecem oração por elas, demonstram só o amor de Deus, que Ele está interessado nelas e as ama. Isso acontece seja nos prostíbulos, com as crianças na rua, no Vale do Anhagabaú, na Cracolândia, muitas vezes dando o primeiros-socorros e visitando travestis. Na verdade, eu classifico isso como "Semeando sementes de amor", na esperança que algumas delas vão frutificar.

Guia-me: Notamos que no culto não houve um momento para o recolhimento dos dízimos e ofertas. Como vocês trabalham esse assunto?

Rev.Baggio:  Percebemos que muitas pessoas não vão às igrejas e não querem saber nada do evangelho porque encaram que a Igreja está interessada em seu dinheiro, que é um grande mercado religioso, então, desde o primeiro dia dessa comunidade de fé decidimos que não iríamos fazer apelos por contribuição e tirarmos ofertas públicas. Nós temos envelopes de contribuição, gasofiláceo, comunicamos de diferentes maneiras o compromisso com Deus, a mordomia cristã e como que devolvemos aquilo que tem nos dado financeiramente também, porém não fazemos disso um grande tema. Deus tem provido de maneira sobrenatural sem que haja de fazer qualquer tipo de apelação.

Guia-me: Como é composta a liderança do Projeto 242?

Rev.Baggio: Temos um grupo de pessoas, diretoria e um presbitério, que se reúne comigo semanalmente para orar e buscar orientação de Deus, para sabermos o que compartilhar. Temos pastores e líderes que transmitem as Palavra periodicamente.

Por Nany de Castro

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