Nações muçulmanas abrigam acervo histórico do cristianismo

Nações muçulmanas abrigam acervo histórico do cristianismo

Atualizado: Quinta-feira, 9 Dezembro de 2010 as 11:45

No Ocidente, sempre que se pensa em turismo religioso, o primeiro lugar que vem à cabeça é Israel (leia-se Jerusalém). Nada contra e nada de errado. Afinal, a mítica cidade onde Jesus pregou suas idéias e exerceu seu ministério, enfurecendo os judeus que o crucificaram, é certamente o destino mais sagrado para os cristãos. Entretanto, aqueles mais interessados no cristianismo em termos de religião e de história terão de se desfazer dos muitos preconceitos relacionados aos países islâmicos e dar uma boa circulada na vizinhança de Israel para ver de perto as raízes de sua fé. Nações como a Jordânia, o Líbano e a Síria, embora não sejam exatamente simpáticos à religião fundada por Cristo – muito pelo contrário –, encerram lugares sagrados, relíquias e sítios arqueológicos capazes de montar o quebra-cabeça religioso que é o Oriente Médio.

A região que foi berço das três grandes crenças monoteístas do mundo, judaísmo, cristianismo e islamismo, hoje tem população majoritariamente muçulmana. Natural, já que foi ali, em meio a montes de pedra calcária, desertos e paisagens deslumbrantes, que Maomé, o profeta do Islã, começou a difundir sua fé, no século 7. Milênios antes, os patriarcas bíblicos Abraão, Isaque e Jacó também palmilharam aquela terra, onde conheceram Jeová e deram origem ao povo hebreu – o mesmo que viu Jesus Cristo vir ao mundo pelo ventre de Maria. Nos últimos anos, o incremento das pesquisas arqueológicas tem trazido novas e palpitantes informações acerca das origens da fé cristã, tirando do Estado de Israel – a única democracia plena da região, aliás – o papel de destino exclusivo para o turismo religioso.

“Jerusalém e Belém são importantíssimas para a cristandade. Como a viagem é longa e tem muito para mostrar, muitos preferem ficar apenas nestes locais”, comenta a doutora em arqueologia Fernanda de Camargo-Moro. Especialista em rotas – tem no currículo viagens e vários livros publicados a respeito –, ela diz que há muito para ver fora das terras israelenses. Ela conta sua experiência pelo caminho da Sagrada Família, que segundo a Bíblia teria fugido das ameaças do rei Herodes, com o pequeno Jesus a tiracolo, em direção ao Egito. A aventura, que foi realizada antes mesmo do governo egípcio oficializar a rota, ficou registrada no livro Nos passos da Sagrada Família: Uma viagem pelo Egito em busca da trilha de Jesus (Editora Record), escrito por Fernanda. Com uma ampla bagagem de viagens, ela deixa a dica: “Recomendo especialmente os mosteiros coptas do Vale do Natro, que ficam entre o Cairo e Alexandria, no Egito, além das igrejas do Velho Cairo”. O Museu Cóptico, que tem um riquíssimo acervo com peças dos primórdios do cristianismo, é outro ponto de parada obrigatório.

“Confins da Terra”

Para mim, o Oriente Médio é o que a Bíblia chama de confins da Terra, uma área absolutamente carente do Evangelho”, observa o pastor e cantor Asaph Borba. Desde 1997, ele já realizou mais de 20 viagens às nações que ocupam a região limitada pelo Mar Mediterrâneo, o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico. Ali, ele desenvolve um programa missionário que inclui louvor e adoração, pregação da Palavra e encorajamento da Igreja local, quase sempre submetida a perseguição. Na maioria das vezes, as viagens são cercadas de sigilo, para não comprometer os crentes árabes. “Comecei em função de um forte desejo de abençoar aqueles povos árabes e encontrar pessoas que gostariam de investir na vida de adoração da Igreja”. No entanto, durante suas viagens, Borba encontrou poucos turistas brasileiros. Segundo ele, uma das razões é a propaganda negativa da mídia ocidental. “O turismo no mundo árabe é muito pequeno”, constata.

A questão da segurança, de fato, é a preocupação número um de quem pensa no mundo muçulmano como destino nas férias. Mas é um temor exagerado, na opinião do agente de viagens Alex Delgado. Há 15 anos, sua empresa, a Lexus, de São Paulo, foca o turismo religioso. “As viagens para o Oriente Médio podem ser mais seguras e baratas do que dentro do Brasil, pois por lá não há problemas graves de violência urbana, como é comum na América Latina”, defende. Ele confirma que pouco a pouco os turistas estão querendo ultrapassar outras fronteiras do Oriente Médio. Delgado trabalha geralmente com grupos personalizados, ou seja, aqueles formados por igrejas que têm um líder religioso próprio à frente da excursão. Segundo ele, os evangélicos são 90% do público que hoje procura a Terra Santa.

“Nem só de Israel vive o turismo religioso naquela região”, faz coro Daniel Cardoso, diretor da Karis Travel Viagens e Turismo, de Niterói (RJ). Sua agência também tem se especializado em roteiros alternativos no Oriente Médio, e ele acha que essa tendência veio para ficar. “Os territórios dos atuais Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Turquia guardam vestígios impressionantes de lugares ligados à narrativa bíblica”, observa. “Em todos esses lugares, a visitação é livre, franca e incentivada, com excelente infraestrutura para acolhimento dos turistas e crescente formação de guias locais em espanhol e português para atender à demanda”. Até o Iraque está nos planos da Karis: “Tão logo a estabilidade política seja plenamente restaurada, pretendemos incluir aquela região rica em fatos bíblicos em nossos roteiros”, garante.

O apóstolo e as sete igrejas

Quem deseja dar um mergulho nas raízes do cristianismo não pode excluir a Turquia do itinerário. O país, encravado entre a Europa e a Ásia, é fascinante por sua mistura entre a cultura muçulmana, as influências dos diversos povos que deixaram marcas em sua sociedade e um acelerado processo de ocidentalização – tanto, que os turcos sonham ser inseridos na União Européia (UE). No passado, seu território serviu de rota de diversas viagens missionárias do apóstolo Paulo. O maior pregador da Igreja primitiva teria nascido ali, na extinta cidade de Tarso, e semeado o Evangelho por dezenas de cidades de sua época.

Além disso, na Turquia atual ainda é possível testemunhar as várias mudanças pela qual a região passou graças a mudanças de dominação religiosa no local. A famosa cidade de Istambul, por exemplo, testemunhou o imperador Constantino I tornando o cristianismo como religião oficial do seu reino, após reconstruir a cidade grega de Bizâncio no ano de 330 e proibir os sacrifícios pagãos e cultos das imagens dos deuses. Renomeada, a cidade foi batizada de Constantinopla e tornou-se gradualmente a capital do Império Romano, além de uma cidade puramente cristã, dominada pela Igreja dos Santos Apóstolos.

O grande poder da cidade foi se deteriorando com o tempo e, em 1453, Constantinopla, também conhecida como a capital bizantina, foi conquistada pelo Império Otomano. Começava então a dominação muçulmana, sob o comando do sultão Maomé II. Essas duas fases da história da região são hoje visíveis em um dos pontos turísticos mais famosos de Istambul, a Basílica de Santa Sofia, também conhecida como Hagia Sophia, (que significa “sagrada sabedoria” em grego). O imponente edifício, construído entre 532 e 537 pelo Império Bizantino para se tornar a catedral cristã de Constantinopla, foi então transformado em mesquita. Suas paredes originais, forradas de lindos mosaicos, colunas e esculturas em mármore, foram cobertas por camadas de emplastro e usadas para o culto muçulmano até 1453. Por 500 anos, foi impossível imaginar que um dia o idealizador da catedral, Justiniano I, teria se espantado com o nível artístico e a abóboda central, de 55 metros de altura, a ponto de exclamar: “Salomão, eu te superei!

Somente em 1935, Kemal Atatürk, fundador da modera República da Turquia e criador de um projeto ocidentalizador, ordenou que a basílica fosse transformada em museu, entre outras mudanças culturais, extinguindo costumes árabes como o uso de turbante e barba pelos homens e cabeça coberta por um lenço pelas mulheres. Hoje, a Turquia é o único país muçulmano laico do mundo, um atrativo a mais para os cristãos, que ainda podem conhecer os locais onde existiam as sete igrejas da Ásia citados por João no Apocalipse: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. Agências brasileiras oferecem tours expecíficos pelas sete cidades, que podem somar ainda outros pontos interessantes do território turco.

Caminhando pela Rua Direita

A Síria também tem peso na história da fé. Damasco, sua capital e uma das cidades mais antigas do mundo, era o destino de Saulo (mais tarde, Paulo) quando, a meio caminho, deu de cara com o Senhor, caiu do cavalo e acabou crendo em Jesus, a cujos seguidores perseguia. É interessante saber também que alguns dos lugares mais sagrados ao cristianismo primitivo resistiram à ação do tempo e do islamismo, e hoje são tombados como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. O mais incrível será perceber que as raízes desses cristãos do passado resistem em pleno século 21: não é necessário procurar muito para encontrar gente que ainda fala aramaico, a língua de Jesus. Isso, sem falar na emoção de caminhar pela Rua Direita, aquela mesma onde, segundo o Novo Testamento, Paulo, o apóstolo, encontrou-se com Ananias.

A rua original ainda existe a alguns metros abaixo da atual. E, segundo guias da região, o governo está trabalhando para que os turistas religiosos possam descer até o subsolo e pisar onde o apóstolo pisou. O visitante também pode entrar no local tido como a casa de Ananias, o único local de culto cristão do primeiro século que sobreviveu na cidade, ainda utilizado para este fim pelos cristãos de Damasco. São apenas duas salas, uma delas decorada com simplicidade por pequenos quadros que contam a história da conversão de Paulo. Outro ponto muito visitado pelos turistas religiosos é o local por onde, segundo a tradição cristã, ele foi descido em um cesto, ao longo da muralha, para escapar de seus perseguidores. Exatamente ali fica a bela Igreja Católica-Ortodoxa de Damasco, a única que une as duas correntes religiosas, divididas por um cisma desde o século 12, no mundo. A Síria preserva ainda alguns dos mais significativos registros da presença otomana no Oriente Médio. Uma visita à cidade de Palmira, um oásis no meio do deserto, revelará uma das mais fantásticas ruínas romanas do mundo.

Para quem tem ímpeto aventureiro, há ainda muito mais a se conhecer na região – e sempre seguindo os passos de Paulo. O apóstolo esteve pregando pelo que hoje é a Síria, os territórios palestinos (inatingíveis no momento) e o Líbano, na época conhecido como Fenícia. A ilha mediterrânea de Chipre, república integrada à UE, foi pisada pelo pregador no ano 45 da Era Cristã. Além de aproveitar o ótimo clima e a culinária típica de influência grega e turca, o turista pode ver o pilar de Paphos, onde ele foi torturado por sua fé, conforme contou em sua Epístola aos Coríntios. “O Chipre reúne uma quantidade enorme de monumentos em pouco espaço”, diz Vakis Loizides, da Organização de Turismo cipriota. “A relação da ilha com personagens importantes da Bíblia, como Lázaro e Paulo, a tornam muito atraente.” Quem visitar o local contará com rotas recém implantadas pelo governo local, que quer incrementar as peregrinações ao país.

Visão do alto

O Antigo Testamento também pode ser revivido no Oriente Médio. Qual o crente que nunca sonhou em conhecer o Monte Nebo, de onde Moisés avistou a Terra Prometida depois de peregrinar 40 anos pelo deserto? A montanha, hoje em território jordaniano, é controlada por monges franciscanos e tornou-se um importante ponto de peregrinações religiosas. Lá de cima, tem-se uma visão privilegiada das redondezas, com destaque para o Mar Morto, que marca a fronteira entre os outrora inimigos Jordânia e Israel.

Outro lugar mítico é o Monte Sinai, localizado na península do mesmo nome, sob soberania egípcia. O pico de granito, com 2.228 metros de altura, é o local onde, segundo a tradição, Moisés recebeu das mãos do próprio Deus as Tábuas da Lei. O Sinai, incluído em boa parte dos roteiros, é venerado não apenas por judeus e cristãos, mas também por muçulmanos, já que acredita-se que o profeta Maomé esteve no monte.

Por Renata Sturm

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