Teens de visão

Teens de visão

Atualizado: Sexta-feira, 3 Dezembro de 2010 as 3:19

O que podem ter em comum um adolescente americano de classe média, instruído e próspero, com uma criança miserável de Zâmbia, na África, cuja única perspectiva é a morte pela fome ou pelos efeitos do vírus da Aids? Nada, na maioria das vezes – ou tudo, no caso um jovem dotado de um incomum espírito de solidariedade cristã. Fundador do ministério Hoops of Hope (“Gritos de esperança”), Austin Gutwein aos nove anos de idade resolveu sair da acomodação do american way of life para fazer algo de concreto em favor de uma multidão de pessoas cujos nomes não é capaz de declinar. Capitão do time de basquete da escola, ele é um jogador mediano, daqueles que só acertam a metade de seus arremessos livres. Mas a cada lance, acertando ou não a cesta, ele levanta fortunas em doações para crianças zambianas órfãs da Aids.

O Hoops of Hope foi fundado há 5 anos e usa a linguagem universal do esporte a paixão americana pelo basquete para levantar fundos. Nos últimos quatro anos, o ministério arrecadou e enviou à África nada menos que meio milhão de dólares. O sistema é simples – uma rede de mantenedores, pessoas físicas ou empresas, pagavam cada vez que o rapaz lançava bolas ao cesto. Em um único dia, ele fez nada menos que 2.057 lances livres, todos devidamente remunerados. Levantou US$ 3 mil e apadrinhou oito órfãos africanos através da Visão Mundial. Esta agência de ajuda começou a anunciar a Hoops of Hope e pessoas ao redor do mundo começaram a apoiar seus eventos.

Gutwein resolveu entrar pelo caminho do amor prático aos nove anos de idade, após assistir a um filme da Visão Mundial sobre a Aids na África. O vídeo mostrava uma garotinha da Zâmbia que havia perdido seus pais para a epidemia. “Ela estava sozinha vivendo dentro de uma cabana de barro, encolhida sob uma lona, na chuva”, lembra. Ele assistiu ao programa na companhia dos pais e da irmã Brittany, de 13 anos, em sua casa em Mesa, no Arizona. “Era incrivelmente triste. Eu comecei a pensar em como seria a minha vida se eu perdesse os meus pais, e eu nem conseguia imaginar isso. Senti-me como se Deus estivesse me dizendo para fazer alguma coisa.”

Rede social

Só para comparar, o número de arremessos praticados por Austin Gutwein é bem inferior à quantidade de crianças que, a cada dia, ficam órfãs em consequ ência da Aids, estimadas pelas Nações Unidas em 6 mil. Parte do dinheiro arrecadado foi utilizada para construir escolas em Zâmbia. O idealizador do projeto esteve lá ano passado, quando líderes de uma aldeia beneficiada lhe agradeceram diante de uma multidão de mais de mil pessoas. “Eu estava sem fôlego”, admite o rapaz.

Em 2007, com mais de 5 mil colaboradores em todo o mundo, Hoops of Hope angariou mais de 200 mil dólares para a construção de um laboratório médico e um centro de aconselhamento no país africano. Neste ano, a organização almeja levantar dinheiro suficiente para construir uma outra clínica em Zâmbia, com foco na prevenção da transmissão do vírus da Aids de mãe para filho, uma das principais causas de mortalidade infantil. “A prevenção é parte importante de nossa missão”, continua Gutwein. “Em primeiro lugar, queremos prevenir que crianças fiquem órfãs. Queremos também que os soropositivos recebam tratamento adequado. E queremos que eles aprendam sobre o amor de Cristo”.

Milhares de outros adolescentes e jovens estão se inscrevendo para participar do Hoops of Hope. Quando é convidado para conferências, Austin Gutwein diz às meninas: “Vocês não têm que mudar o mundo. Você só muda o mundo através de uma pessoa”. Ele faz questão de não criticar as questões políticas ou morais envolvidas na disseminação do vírus HIV. “Enquanto crianças, nós não nos preocupamos a respeito do porquê e como uma pessoa contrai a doença”, ele diz. “Tudo o que nós, crianças, queremos fazer é ajudar outras crianças”, enfatiza.

Famosa para servir

Ao contrário do que se possa imaginar, a alienação e o individualismo não são a característica principal dos adolescentes americanos. De acordo com um estudo feito em 2005 pela Corporation for National and Community Service, aproximadamente 15,5 milhões de teens – 55% do total – participam de atividades voluntárias. O número de pessoas nesta faixa etária que aderem ao voluntariado é quase duas vezes maior, por exemplo, do que o de adultos envolvidos em ações sociais.

Os jovens voluntários somam mais de 1,3 bilhões de horas de serviços comunitários a cada ano. Muitos dos serviços são prestados em igrejas, levantando dinheiro para os mais necessitados. Grupos de jovens que se esforçam para levantar fundos de maneiras criativas, como torneios esportivos ou maratonas, são matérias de capa dos jornais locais. Mas, às vezes o empenho da juventude cristã é tão extraordinário que se torna notícia nacional. É o caso de Kendall Ciesemier, uma estudante de quarta série que, como tantas de sua idade, acreditava que cresceria para ser famosa, embora não soubesse exatamente para quê.

Um belo dia, a garotinha anunciou aos pais, Mike e Ellery, que seria famosa por ajudar as pessoas. Mas, que pessoas? Ela encontrou a resposta um ano mais tarde enquanto assistia a um programa especial da famosa apresentadora Oprah Winfrey sobre os órfãos da Aids na  África. Kendall, então com 11 anos, foi movida pela história de uma menina um ano mais velha que havia perdido seus pais e cuidava como podia dos três irmãos mais novos. “Eu pensei como alguém conseguia fazer aquilo?”, lembra Kendall, agora com 15 anos.

Enquanto a mãe debulhava-se em lágrimas no sofá, ela resolveu fazer alguma coisa. Foi para o seu quarto, fez uma pesquisa na internet sobre o tema “Órfãos da Aids na África” e encontrou o site da Visão Mundial, onde descobriu que poderia apadrinhar uma criança com 360 dólares anuais. Então ela juntou o dinheiro reservado para sua festa de aniversário, para o Natal e mais alguns trocados, pôs num envelope e pediu um selo a seus pais. “Estou apadrinhando uma criança”, anunciou a menina. “E não me façam muitas perguntas, porque eu quero fazer isto por mim mesma”.

Seis meses depois, Kendall precisou de um transplante de fígado. Nascida com uma rara doença chamada atresia biliar, ela viveu uma infância relativamente normal, embora sob frequentes cuidados médicos. Passou a maior parte do verão de 2004 internada. Mandou avisar aos parentes e amigos que o dinheiro que seria gasto com flores e ursos de pelúcia para alegrá-la deveria ser revertido em donativos para as crianças da África, muitas das quais jamais teriam acesso a um quarto de hospital. Estabeleceu um alvo: juntaria US$ 60 mil para apadrinhar uma comunidade africana inteira. E com isso, às vésperas de uma cirurgia à qual ela poderia não sobreviver, nasceu a Kids Caring 4 Kids (KC4K).

Amiga de Clinton

O primeiro transplante a que Kendall foi submetida falhou devido a complicações, mas o segundo foi um sucesso. Uma vez fora do hospital, ela recrutou amigos e assou pães para vender, montou uma barraca de limonada e vendeu camisetas do KC4K. Em outubro de 2006 ela alcançou os 60 mil dólares. Kendall também se associou ao ministério para Aids da Wheaton Bible Church, uma congregação no bairro suburbano de Chicago, que sua família estava frequentando naquela época. Através dos parceiros e missionários da igreja, Kendall e o KC4K a sustentar o Hope for Life, um ministério para órfãos no Quênia.

Logo, informações sobre o KC4K começaram a se espalhar. A rede CBS fez uma chamada para o The Early Show. Ainda em 2007, Kendall foi nomeada uma das “Dez Mais Jovens Voluntárias” da nação. Ela nem desconfiava, mas a equipe do programa de Oprah entrou em contato com seus pais e organizou uma reunião surpresa na Escola Secundária de Wheaton. O ex-presidente Bill Clinton, na época promovendo seu novo livro Ofertando, estava lá como convidado especial. Enquanto ouvia um discurso de Clinton, Kendall, sentada no meio da multidão, surpreendeu-se ao ser chamada pelo nome. Clinton disse que ela era a convidada especial de Oprah. Kendall, seus pais e seu irmão mais velho se amontoaram dentro de uma caravan com o ex-presidente. Duas horas mais tarde ela estava no estúdio, sentada entre a apresentadora e Clinton, falando sobre o trabalho da KC4K para os telespectadores. “Achei que estava sonhando”, conta.

Durante o programa, Bill Clinton anunciou que um amigo anônimo estava doando um cheque para a organização, no valor de 500 mil dólares. “Eu simplesmente comecei a chorar”, diz Kendall. “Não poderia ser melhor”. Agora, completamente saudável, ela foi liberada pelos médicos para fazer sua primeira viagem à África. Com US$ 700 mil em caixa, a KC4K implantou dois novos projetos, em parceria com outras entidades, que incluem a construção de um dormitório num orfanato queniano e um programa alimentar para 600 viúvas, órfãos e pacientes com Aids em Zâmbia

O pai de Kendall supervisiona as negociações finais das coisas, mas nenhum cheque é preenchido sem a aprovação da menina. “Eu tenho que checar tudo por ser a pessoa que toma a decisão final”, diz ela, cheia de responsabilidade. “Funciona como uma espécie de compra – eu tenho que ir ao shopping com o dinheiro todo para escolher projetos que eu possa apoiar para mudar a vida de pessoas”. Ela resume sua experiência falando da importância espiritual do trabalho: “Quando você se entrega totalmente como instrumento nas mãos de Deus e deixa que ele trabalhe através de você, ele ouve. E trabalha conosco.”

Por Mark Moring

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