Um povo crente - parte 2

Um povo crente - parte 2

Atualizado: Quarta-feira, 1 Dezembro de 2010 as 1:52

“Encontrei novo sentido”

Pedro Ivo de Souza Batista, 47 anos, voltou a ter fé há pouco tempo. Foi uma longa trajetória, que envolveu também suas escolhas políticas e intelectuais. “Deus usou a ciência. Na brecha que a gente dá, ele vem”, conta. Cearense, criado no catolicismo, no início da década de 80, sob influência da teologia da libertação, ele participou de movimentos políticos de contestação. Aos poucos, foi se bandeando até tornar-se um ateu convicto, aos 22 anos. “Não tinha sentido imaginar que Deus existia e que Jesus era seu Filho”, confessa.

Com anos e anos de um ateísmo já arraigado, algo começou a deixar o militante de esquerda inquieto. Primeiramente atraído pela causa da ecologia, passou a ver um sentido novo para as coisas. “Comecei a discutir o universo, a criação, a formação da Terra, os elementos que compõem a vida. O processo evolutivo é tão sutil, tão delicado, que passei a pensar na existência de algo transcendental, acima da gente – algum arquiteto disso tudo”, lembra Pedro Ivo, que coordenou a Agenda 21 Brasil, no Ministério do Meio Ambiente, e é assessor parlamentar da senadora Marina Silva (PT-AC), ex-titular da Pasta. “Passei a ler sobre os cientistas e descobri que muitos viam na ciência um caminho para Deus.”

Pois o caminho de Pedro Ivo não parou por aí. Ele parecia tomar um rumo mais esotérico, com interesse no budismo. A militância política, porém, o chamava para algo que unisse a idéia de transcendência com uma espiritualidade mais concreta. Incentivado pelos cristãos do gabinete de Marina Silva, ele resolveu ler a Bíblia e a aprender sobre Jesus Cristo. “Vi a forma como ele se relacionava com as pessoas, a natureza, a transcendência, todo o exemplo dele me tocou muito. A beleza do universo só seria possível com alguém muito amoroso e compassivo com todos. Cheguei à conclusão de que Jesus estava nesse processo todo”, afirma. “Voltei a Deus de uma forma muito racional. Não houve nada fantástico, não fui curado de nada. Mas na busca da esperança, encontrei esse amor incondicional”.

Pela formação de esquerda – o que é “contraditório, mas não excludente”, diz –, Pedro Ivo ficou mais próximo ao protestantismo. Interessou-se pela Reforma de Lutero e pela forma democrática de ser dos evangélicos. “Há muito preconceito contra os crentes, muitas tentativas de colocá-los num padrão”, diz Pedro Ivo, que hoje congrega na Igreja Anglicana, em Brasília; “Meus amigos todos, comunistas, revolucionários, socialistas, não compreenderam minha nova posição. Acharam que eu estava perdendo o rumo, que abdicaria de minhas opções políticas e sociais, com as características do que sou”, revela. “Depois que a gente encontra fé, as coisas vão se revelando. Coisas muito bonitas, o Reino de Deus, a possibilidade de uma vida nova, a importância da oração”, conta. “Estou muito feliz, mais humano, mais filho de Deus”, resume, convicto.

Fé sob ataque

Propaganda ateísta assume ares de batalha cultural

Não são poucos os que esperam que o cristianismo saia de cena de vez. Qualquer discurso que, entre suas argumentações, tangencie uma justificativa cristã, é repelido com veemência em artigos e editoriais na grande mídia. Quando o então Procurador-Geral da República Cláudio Fonteles, católico praticante, provocou, há dois anos, o Supremo Tribunal Federal a se manifestar sobre a legalidade ou não do uso de células-tronco embrionárias para pesquisa científica – tendo como argumento o direito à vida dos embriões congelados –, os principais articulistas do país o criticaram asperamente pela ousadia de tirar sua religião do foro íntimo para o debate no espaço público, no âmbito do Estado. Praticamente uma heresia.

Ao que parece, os evangélicos, em especial, estão fadados a ficar confinados em uma espécie de córner de extrema direita, acuados e taxados de intolerantes e responsabilizados por guerras e preconceitos. A grande mídia norte-americana não teve pudor em bater duro no então recém-eleito presidente Barack Obama pelo simples fato de ele ter convidado o pastor Rick Warren – tido como conservador, ou, pecado maior, “fundamentalista” – para ser um dos religiosos a fazer a oração da posse, em janeiro. A crítica se baseava no fato de Warren simplesmente continuar pregando a salvação em Jesus e não concordar com casamento entre homossexuais.

O clima nas universidades, na mídia e na política é de uma autêntica batalha cultural. “Minha experiência mostra que as universidades ocidentais não se preocupam com conhecimento e aprendizado, mas com ideologia”, disse no ano passado o teológo Rikk Watts, no seminário Cristianismo: Benção ou maldição?, promovido em Brasília (DF) pelo Centro Cristão de Estudos. “Se vamos salvar essas universidades, nós, cristãos, teremos que aprender a falar a verdade e conhecer a nossa história”, observou Watts, que é professor do seminário do Regent College, no Canadá, além de PhD em teologia em Cambridge e especialista em filosofia, história da arte e sociologia. “O problema é que a maior parte dos cristãos não sabe explicar diferentemente do que pregam pessoas como o cientista britânico Richard Dawkins, para quem todos os males do mundo vêm do cristianismo”, declarou. “Mas eu cheguei à conclusão, e não sou só eu, que não há nada que tenha feito tão bem ao mundo quanto o cristianismo”, ousa dizer o teólogo, que deve voltar ao Brasil em agosto, para novas conferências.

Recuo paradoxal

Na Inglaterra, a batalha em torno da fé chegou ao complicado trânsito londrino. Propaganda ateísta toma algumas dezenas daqueles tradicionais ônibus vermelhos, de dois andares, com a frase “Provavelmente não há Deus; agora pare de se preocupar e curta a vida”. O que pouco se noticiou é que o grupo que paga a propaganda, ligado a Dawkins, um pregador do ateísmo, resolveu agir para responder à criativa forma de evangelização encontrada pelo grupo interdenominacional Lamb of God (Cordeiro de Deus). Os crentes seguem colocando versículos bíblicos na lateral de vários ônibus londrinos. “Quando vier o Filho do homem, encontrará, porventura, fé na Terra?”, pergunta um dos anúncios, com o texto do Evangelho de Lucas (18.8).

Em recente palestra proferida na milenar catedral de Saint Paul, em Londres, o arcebispo da Igreja Anglicana, Rowan Williams, defendeu a relevância cultural da fé cristã numa Europa pluralista e multiétnica. Ele refutava a tese de que o cristianismo não cabe em ambiente democrático. Para chegar lá, o arcebispo precisou refrescar a memória com 20 séculos de história, argumentando que a religião se disseminou como força civilizatória e democratizante. Do outro lado do Atlântico, debates intensos cercam o uso de símbolos cristãos em prédios públicos norte-americanos, tidos como desrespeitosos aos que não professam a fé crist㠖 ainda que nada menos três em cada quatro cidadãos do país se declarem adeptos da crença, entre protestantes, católicos e evangélicos.

A posição de recuo do cristianismo, continuamente sob ataque, guarda pelo menos um paradoxo. Tida como página virada, a fé cristã ainda é professada pela maioria da população ocidental. Apesar de sofrer grandes revezes e estar sendo banido do espaço público – sendo desconsiderado como voz legítima no meio acadêmico, na mídia e na política –, a verdade é que as pesquisas sobre religião demonstram o enorme poder de influência do cristianismo. Na secularizada Europa, o número de pessoas que buscam a religião tem aumentado. Em 2005, pesquisa do Eurobarometter Poll mostrou, para surpresa de muitos, que 52% dos europeus afirmaram crer em um Deus pessoal, à maneira cristã, e outros 27% disseram acreditar que uma força espiritual e sobrenatural governa o universo.

Estado laico

No Brasil, o tom anti-religioso da mídia e dos meios acadêmicos também não deixa dúvidas de que o cristianismo, por aqui, já não parece ter a mesma força política e cultural. A ONG Brasil para Todos, que combate manifestações religiosas no âmbito do Estado, pediu ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que se pronunciasse sobre o uso de crucifixos em tribunais de todo o país. O grupo, que agrega de ateus e agnósticos a adeptos de várias religiões minoritárias (inclusive protestantes), defende o caráter laico do Estado brasileiro, consagrado pela Constituição – a mesma cujo preâmbulo evoca o nome de Deus. Eles dizem não haver espaço nos tribunais para o uso de crucifixos ou qualquer menção à fé cristã, atualmente confessada por quase 90% da população do país.

O CNJ, surpreendentemente, preferiu não mexer no vespeiro e manteve a tradição do uso desses símbolos nos espaços judiciários. O jurista Ives Gandra Martins tem ressaltado, em resposta a quem combate a influência crist㠖 especialmente católica – no âmbito da Justiça, que o laicismo não deve ser confundido com ateísmo oficial. “Estado laico, que reconhece o fator religioso como componente constitutivo das sociedades humanas, não se confunde com Estado ateu, que rejeita toda manifestação religiosa”, afirma.

Por Valter Gonçalves Jr.

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