Análise: Coral Resgte - 'Prontos para a batalha'

Análise: Coral Resgte - 'Prontos para a batalha'

Atualizado: Quarta-feira, 21 Março de 2012 as 11:26

Infelizmente, o 2º álbum do Coral Resgate para a Vida, pela Salluz, continua com o mesmo defeito do anterior: O Coral não vem junto!

É bom ouvir o disco do Coral da Igreja de Deus em Cristo, da Zona Leste de São Paulo, mas ouví-los e vê-los ao vivo é uma das maiores experiências que a música pode oferecer a alguém.

É a musicalidade sensível e poderosa dos cantores aliada a uma performance simplesmente incrível. Apesar do Coral não ir até sua sala pra você conferir isto que estou falando, o disco captura de forma ainda mais encorpada do que o primeiro disco o espírito do Coral. E a sonoridade está mais “coral”. Mais “timbrão” mesmo.

Do ponto de vista da produção musical, eu já me declarei admirador da dupla Jeziel Assunção e William Augusto pessoalmente. Esses dois são ninjas de primeira linha, jogando em diversas posições, sem que isso comprometa o resultado final do trabalho. Assinam instrumentos (destaque para o contra-baixo GORDO de sempre do William), arranjos e composições no álbum.

Se a influência do 1º álbum é “churchy” e apimentada com The Comissioned, neste a coisa se desenrola com sonoridades que remetem muito a concepções de arranjos de base à lá Fred Hammond (como nas duas primeiras faixas que abrem o disco prometendo verdadeiras pancadas na orelha do ouvinte) e sonoridades vocais mais trabalhadas no tempero do Kirk Franklin.

Até uns arranjos de cordas me lembraram muito o ótimo álbum "Hero", do Kirk, como o da lindíssima canção Comigo Está. O disco segue demonstrando um bela arquitetura com o melhor do Gospel moderno. Um Black Gospel cheio de guitarras e devidamente influenciado pelo Classic Rock (SIM, penso ser daí que essa meninada tipo Dietrick Haddon tem dado uma guinada na textura do Black Gospel, que andava meio cansado de suas fórmulas, mas de repente sou só eu que penso assim...).

Na sequência ouvimos “Me levantarei” que além de linda, belamente cantada pelo conjunto coral e tudo mais, tenta nos enganar com o uso incidental do chorus de “More than anything” do Lamar Campbel que o Coral canta bastante ao vivo, MAS declaro aqui: isso não basta, meninos! Gravem esta versão. Se vocês estão esperando para incluí-la no set list do DVD ao vivo (coisa obrigatória!) eu relevo a falha… Bela balada!

Não vamos desistir traz um dueto explosivo dos irmãos Gabriel e da Jéssica. Meninos e meninas, ouçam o que eles fazem e se um dia der pra ir a um culto ou evento Gospel com o Coral prestem atenção no que eles fazem. É prova de que o Black nacional superou finalmente aquela chatice de melismas descolocados pra entregar leads bem feitos, bem desenhados e bem riffados. É uma aula de canto concentrada numa faixa! O Coral canta o refrão com uma energia absurda e nesta hora, pensei que o tinha gente cantando dentro do carro, tão envolvente é o resultado da faixa finalizada.

A breve O céu é real é uma mensagem forte colocada com uma dose grande doçura vocal. Sem medo de errar, Melk Villar foi escalado pra abrir a canção. Olho nesse menino…

Escolhido, de Marcos Rodrigues, é uma daquelas canções que você vai querer ouvir repetidas vezes, e o Nando Vianna entra solando com uma maturidade vocal e musical simplesmente assustadora! Novamente o arranjo instrumental veste uma canção do Marcos com maestria (tem música dele no 1º disco do Coral). Quando Jéssica Augusto entra na brincadeira depois da modulação, o que já estava bom demais chega a um ápice maravilhoso.

Molda-me, de Alexandre Malaquias (ninja da composição, poeta, músico excelente e alguém com quem se pode aprender muito sobre como construir boas canções) é uma canção especial demais. Chego a ter certo temor em escrever sobre ela… Trata-se de uma canção que sintetiza alguns ideais que tenho pra minhas próprias composições: simplicidade, profundidade e poesia de alta qualidade aliada a conteúdo bíblico. O arranjo, a interpretação do Coral, a sutilieza das cordas, tudo orna e seria suficiente, mas como o disco sempre dá um passo a diante, podemos ouvir o solo da Ellis Negress e aquela sessão coral aos 2:35 da faixa que é cavernosa. Uma faixa incrível e, para mim, o auge do disco!

I just need you é um problema! Eu explico: sempre tem alguém que me fala: “Ai, Jonas… Pra que essa mania desses Corais de cantar em inglês?” Em primeiro lugar, o Coral Resgate não é desses Corais… Em segundo lugar, a igreja de origem do Coral Resgate para a Vida é a Igreja de Deus em Cristo, em Itaquera, identificada com a sigla COGIC3 (Church of God in Christ - e o número 3 tem a ver com a divisão distrital da Igreja aqui no Brasil segundo o que me explicou o Elder da Igreja e meu amigo Wellington Primo). Enfim, trata-se de uma Igreja jovem aqui no Brasil, mas uma das primeiras Igrejas Pentcostais estadunidenses sob a influência do avivamento da Rua Azuza. A presença de pastores e cantores da gringa na Igreja é grande e pelo que pude observar, lá se cresce sob esta influência musical e até cultural, MAS eles são brasileiros sim! Não é uma questão de “pagação de pedágio” para a cultura estadunidense, mas sim uma demontração pra lá de genuína de como são influenciados pelo Black Gospel e até de como reconhecem de onde vem e qual é sua principal influência estilística.

Ufa… Dadas as devidas explicações, sigo: I just need you é uma bela canção do produtor William Augusto, que conta com os vocais de Michael Santiago arriscando-se a gravar um lead tão característico de momentos espontâneos, em Igrejas pentecostais negras americanas, em inglês que não é sua língua mãe. Ele dá conta do recado com estilo e muita precisão! Já dei aula de inglês pra defender uns trocados lá pelos meus 18 anos e se fosse prova oral eu dava 9,25!
Justificado pela graça conta com um solo belíssimo da minha amiga (e colega de tempos de ULM, mas pelo amor de Deus, esconda aquelas fotos!) Dyani Primo e sua voz única cheia de sensibilidade e precisão! A canção é um belo 6/8 super Gospel, com uma sessão com cara de ministração ao vivo da Denise Mariano, com o apoio da banda, do Coral e do Hammond com sabor de Igreja pentecostal de verdade!

Medley fecha o disco com a voz espetacular do Melk Villar. É um timbre característico, um fraseado brilhante e uma voz inteira e totalmente dominada pelo seu dono no grave, no médio, no agudo e naquela região que nem deve ter nome ainda que ele atinge… Uma falta de senso de noção vocal! Vai indo, vai indo, vai indo e quando você ouve, pensa “Não… Ele não vai fazer isso… Ops! Ele fez…” - Melk é um jovem mestre de sua arte.

A finalização do disco é ótima. Mix do Luciano Marcian, clara com tudo aparecendo e dando lugar para as dinâmicas pensadas pelos produtores e aquela Masterização já elogiada aqui em diversas ocasiões assinada pelo “pai da matéria” Luciano Vassão.

A arte do disco parece ter sofrido um pouco com a impressão do encarte… Não vi a imagem divulgada pelos canais da Salluz reproduzida com justiça no encarte físico quando peguei o disco na mão, mas nada que desabone a concepção e nem te impeça de adquirir este belo álbum do Coral Resgate para a Vida, e se não for pedir muito: Que venha o Ao Vivo!

 

Por: Jonas Paulo Ferreira da Silva

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