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Alvos de bullying pedem ajuda via telefone

Alvos de bullying pedem ajuda via telefone

Atualizado: Sexta-feira, 13 Maio de 2011 as 3:16

Uma garota telefonou recentemente para o Disque Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde dizendo que planejava se matar porque ninguém gostava dela na escola. Esse tipo de sofrimento, causado pela agressão constante por parte dos colegas, física ou psicológica, é a motivação de 20% dos jovens que procuram o serviço de atendimento telefônico de São Paulo, que nem sequer foi criado com o objetivo específico de socorrer vítimas de bullying.

ROBSON FERNADJES/AE Em São Bernardo do Campo, estudantes que praticam bullying recebem atendimento psicológico “Quando eles procuram atendimento é porque se esgotaram os outros caminhos”, afirma Albertina Duarte, coordenadora do Programa Saúde do Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde. O levantamento levou em conta 1,7 mil telefonemas, recebidos entre janeiro de 2008 e dezembro do ano passado.

“Eles ligam chorando”, conta Albertina. Segundo ela, o principal motivo de chacota é a aparência. E isso não se restringe aos atributos físicos. “Fazem piada do colega que não usa roupa ou tênis de marca e também humilham os que usam produtos falsificados”, conta a coordenadora do programa. As vítimas, garante, são “principalmente os meninos”. O serviço é destinado a jovens de 10 a 20 anos.

Coordenadora do curso de Psicopedagogia do Instituto Sedes Sapientiae, Georgia Vassimon acredita que as escolas estão muito focadas no conteúdo e esquecem da convivência. “É preciso cuidar um pouco melhor do grupo”, afirma.

Definir o que é bullying e quais são os limites das brincadeiras ainda na infância é, na opinião da psicóloga Mara Push, do Ambulatório da Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), uma forma de incutir parâmetros de comportamentos aceitáveis ou recrimináveis entre os alunos desde cedo. “As crianças precisam saber logo o que é bullying e o que é esperado delas com relação ao comportamento na escola.”

Para a psicóloga, as instituições de ensino devem ampliar o diálogo sobre o tema com as turmas em sala de aula. “As escolas precisam repensar as formas com que vêm trabalhando a agressividade de seus alunos e as diferenças que existem entre eles”, aponta.

As reclamações feitas pelas meninas diferem das queixas dos garotos. No caso delas, as que têm entre 13 e 14 anos se tornam alvo de bullying se nunca beijaram um garoto na boca ou se ainda não têm formas femininas características, como seios e quadris largos, muito desenvolvidas. “As meninas que não menstruaram aos 14 anos mentem para as amigas para não virarem piada na escola”, revela Albertina.

Mas os garotos não estão livres da pressão relacionada às características sexuais: para fugirem das piadas, não querem parecer frágeis ou sem músculos, e também ficam em dúvida sobre o tamanho do pênis.

Na visão de Albertina Duarte, essas insatisfações motivam garotos e meninas na busca, via internet mesmo, por remédios que prometem solucionar seus problemas. “Essa é uma das nossas maiores preocupações”, diz ela. “Para evitarem o bullying e não se sentirem rejeitados, eles perguntam se podem tomar medicamentos. É preciso ter muito cuidado”, completa.

Em uma rápida pesquisa pela internet é possível encontrar, por exemplo, desde fóruns com respostas maliciosas à oferta de medicamentos online, sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que prometem aumentar os seios ou o pênis em algumas semanas.

Serviço

O atendimento do Disque Adolescente (telefone 11 3819-2022) funciona de segunda a sexta-feira, das 11h às 14h, por meio de uma equipe de médicos, psicólogos e assistentes sociais para lidar com os assuntos relacionados ao cotidiano do jovem. No levantamento da Secretaria, pedidos de ajuda para enfrentar o bullying foram mais frequentes que questões relacionadas à sexualidade, por exemplo, levantadas por 19,2% dos jovens.

Dúvidas ginecológicas e obstétricas representaram 21,2% dos atendimentos telefônicos e a maior procura foi motivada por questionamentos sobre anticoncepcionais e preservativos, com 33,2%.

Quase metade dos alunos de SP viram agressão na escola

Na segunda-feira passada o Jornal da Tarde mostrou que o Estado de São Paulo lidera o ranking de bullying no País, com base em uma Pesquisa da ONG Plan Brasil. De acordo com o estudo, 47% dos estudantes paulistas viram um colega ser humilhado em público, e várias vezes. O índice é o dobro daquele registrado na região Nordeste, onde a taxa cai para 23,7%, e supera a média nacional, que é de 40%.

Os dados são da pesquisa Bullying Escolar no Brasil. Foram ouvidos 5.168 estudantes, de 10 a 15 anos, em escolas públicas e privadas.

Em São Bernardo do Campo, no ABC, já existe até uma ONG, a Fundação Criança, para fazer a reabilitação de crianças que praticam bullying. Em geral, elas têm autoestima elevada, orgulham-se da violência e se veem como bem-sucedidas por agredirem um colega para uma plateia que até as aplaude.

“As escolas precisam de equipes multidisciplinares para detectar os conflitos e agir preventivamente”, analisa o presidente da ONG, Ariel de Castro.  

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