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Brasileiros não recorrem a novas tecnologias de leitura

Brasileiros não recorrem a novas tecnologias de leitura

Atualizado: Quarta-feira, 2 Setembro de 2009 as 12

Leitores brasileiros - 95,6 milhões

Não leitores - 77,1 milhões

Porcentagem de leitores que usam novas tecnologias:

Livros digitais - 1%

Textos na internet - 9%

Áudio livros - 1%

Tempo médio gasto com leitura:

Livros digitais - 1h30

Textos na internet - 2h10

Áudio livros - 2h20

Donwloads no site Domínio Público - 22 milhões, sendo:

Textos - 15 milhões

Imagens - 3 milhões

Sons - 2 milhões

Vídeos - 2 milhões

* Dados da pesquisa "Retratos da leitura no Brasil", do Instituto Pró-Livro e do site Domínio Público

Apesar das novas tecnologias já serem realidade no mercado literário mundial, elas ainda não são tão procuradas por brasileiros. É o que comprova a pesquisa "Retratos da leitura no Brasil", realizada pelo Instituto Pró-Livro. Segundo o estudo, dos 95,6 milhões de leitores do País, apenas 1% recorre aos livros digitais, conhecidos como e-books. Há ainda uma pequena parcela - 1% dessa população - que se dedica aos áudio-livros. A internet atrai um número maior de brasileiros que estão em busca de leitura: 8,6 milhões de pessoas, que representa 9% da população leitora.

O secretário executivo do PNLL (Plano Nacional do Livro e Leitura), projeto interministerial do MEC e MinC (Ministério da Cultura), José Castilho Marques Neto, considera baixo o número de adeptos às novas tecnologias. "Isso porque tais novidades começaram a ser introduzidas no Brasil recentemente", afirma. Mesmo com a oportunidade de ler no celular e levar o livro a qualquer lugar, a maioria dos leitores prefere o computador. "Cerca de 85% dos downloads de livros no País são de formatos compatíveis com a leitura no computador. Já o restante representa os diferentes formatos, adaptáveis aos celulares", comenta Eduardo Melo, editor geral da Editora Plus, que disponibiliza gratuitamente livros de autores novos.

A opção pelo áudio-livro, de acordo com a vice-presidente da ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias), Flávia Rosa, tem conquistado adeptos, principalmente entre deficientes visuais. "O público-alvo desse tipo de produto também é composto por quem não têm tempo para ler, pois é possível escutar o livro em qualquer lugar. Essa prática, porém, não forma novos leitores", diz.

Formação de leitores

O pouco interesse dos brasileiros pelas novas tecnologias pode ser explicado pela deficiência no processo de formação de leitores no País. É o que diz a vice-presidente da ABEU. "Se ainda não conseguimos impulsionar o costume da ida à biblioteca, não é possível querer que as novas tecnologias tenham sucesso imediato. Não podemos pular etapas. Primeiro, é preciso que haja familiaridade com a prática da leitura", argumenta Flávia.

Além do problema de formação de leitores, para o coordenador da comissão de livro digital da CBL (Câmara Brasileiro do Livro), Henrique Farinha, o desenvolvimento da Internet no Brasil também atrapalha a receptividade das novas tecnologias. "Nosso estágio de evolução no mundo virtual ainda é muito inferior ao de países desenvolvidos", afirma ele que também enfatiza o pequeno número de pessoas que desfrutam da rede em casa. Em 2005, segundo o estudo Mapa das Desigualdades Digitais no Brasil, desenvolvido pelo MEC, apenas 17% da população brasileira tinha acesso à Internet.

A difusão de novas formas de leitura também esbarra nos preços. "Comprar um livro digital ainda é caro. Isso porque é preciso ter também o equipamento para a leitura. O uso será mais intenso quando o preço cair", enfatiza Flávia que aponta a existência de alternativas gratuitas, como o Domínio Público. "Elas, no entanto, ainda são minorias. Mas importantes para a expansão do processo", acrescenta.

A receptividade às novas alternativas, para Flávia, será maior junto às novas gerações, que já cresceram com computador em casa. "Eles têm mais facilidade com as novas tecnologias, bem como com as novas formas de leitura. Sem contar o gosto natural pelos meios eletrônicos", opina. Esse, segundo ela, é o público consumidor potencial para as novas tecnologias de leitura.

Não foi o que aconteceu, no entanto, com a estudante de Direito, Janaina Alves Oliveira, 21 anos. "Tentei ler uma obra sugerida pela faculdade, mas não consegui terminar. Percebi que, no computador, perco a concentração facilmente e não fixo o que acabei de ver", comenta a estudante. Ela reconhece que a tecnologia facilita os estudos, mas não se sente confortável. Para ela, o papel é mais prático. "Assim, posso grifar e fazer anotações", explica. A estudante ressalta que a tentativa não foi única. "Várias vezes recorri ao computador, mas sempre acabo me desconcentrando. O incômodo na vista também dificulta a leitura".

Apesar dos empecilhos, a expectativa de crescimento do uso das tecnologias é grande. "Esses recursos vêm acompanhados de facilidades, como a oferta imediata de conteúdo e a mobilidade", comenta Marques Neto. Farinha, por sua vez, aposta na aproximação com o leitor para que o mercado de novas tecnologias cresça. "Quando os formatos de leitura oferecidos por esses meios forem aperfeiçoados e tiverem interatividade com outras mídias, provavelmente haverá um aumento significativo no público", conta.

O otimismo de Farinha e Marques Neto também é compartilhado pelo editor da Plus. "Assim que os leitores tecnológicos forem lançados no País, haverá a possibilidade de ter o livro em um dispositivo portátil, com menor preço em comparação aos modelos vendidos no exterior e que poderá armazenar muitas obras de uma única vez", ressalta Melo. "Outra vantagem dos livros on-line é que eles tendem a ser barateados. Em longo prazo, chegaremos aos padrões americanos, em que o livro digital tem preço mais baixo que o de papel", completa..

Caso de sucesso

O potencial do mundo virtual também pode ser observado a partir da quantidade de acessos ao Domínio Público, site do Governo Federal que disponibiliza obras gratuitamente. O portal contabiliza mais de 22 milhões de downloads desde seu lançamento, em novembro de 2004, o que resulta em média de 400 mil obras baixadas por mês.

Para o diretor de infra-estrutura em tecnologia educacional da SEED/MEC (Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação), José Guilherme Moreira Ribeiro, esse dado mostra o sucesso da ferramenta. "O Domínio Público nasceu para suprir necessidades das escolas públicas, pois principalmente as que ficam distantes de grandes centros não dispõem de boas bibliotecas. Com projetos que levam Internet às escolas rurais, o site foi implantado para que os estudantes tivessem acesso ao material", enfatiza.

Hoje, de acordo com Ribeiro, o site tem 600 mil acessos por mês. "Esse número mostra que acertamos na estratégia de deixar obras disponíveis para serem baixadas gratuitamente", opina. O diretor de infra-estrutura acredita que ter arquivos à disposição para download é um movimento mundial. "Há editoras e gravadoras que já perceberam essa nova forma de distribuir conteúdo", acredita.

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