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Detento aprovado no Enem diz que há preconceito no meio universitário

Detento aprovado no Enem diz que há preconceito no meio universitário

Atualizado: Quinta-feira, 17 Novembro de 2011 as 1

Jovem diz que falta incentivo dentro dos presídios (Foto: Bibiana Dionísio G1 PR) No Paraná, 861 pessoas que cumprem pena no sistema prisional vão fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste ano. O Enem como via de acesso ao Ensino Superior é a maneira mais adequada de buscar a ressocialização de quem passou pelo sistema prisional, segundo detento ouvido pelo G1 . Ainda que o reingresso deles na sociedade seja desacreditado.

"Todos falam em ressocialização, mas quem acredita que um preso pode voltar a ser cidadão?", questiona o jovem de 29 anos que cumpre pena no regime semiaberto na Colônia Penal Agrícola de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, por assalto a mão armada. O presidiário está no segundo período do curso de Educação Física em uma faculdade particular da capital. Ele fez o Enem para concluir o Ensino Médio e conseguiu uma bolsa de estudos pelo Programa Universidade para Todos (Prouni) do governo federal. Na faculdade, apenas o coordenador do curso sabe que ele cumpre pena no sistema prisional. Por medo de retaliação e do preconceito ele prefere manter em sigilo o passado e o presente. A cautela restringe ainda mais a vida dele. Relacionamentos amorosos são impossíveis. "As mulheres são muito curiosas", explicou.

O preconceito, segundo o jovem, é visível nas conversas informais da faculdade. Ele contou que as pessoas deixam claro o medo, inclusive, pelo alto índice de presidiários reincidentes.

Na avaliação dele, todos os presidiários deveriam estudar, mas ele afirma que a informação não chega ao sistema penitenciário. "Se as pessoas soubessem como funciona o processo ajudaria, mas também falta incentivo. Se não for algo seu, não vai conseguir porque ninguém te dá força. Os únicos que fazem o com que você estude e que te apoiam são os professores do colégio Mário Faraco", relatou. O colégio fica dentro da Colônia Penal.

“Eu concordo que podemos pensar em aprimorar esta informação com cartazes e foldes”, afirmou Sônia Monclaro Virmond que é diretora da Escola de Educação em Direitos Humanos (Esedh) da Secretaria Estadual de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos.

Ela destacou, por outro lado, que os 300 profissionais da educação que trabalham dentro das unidades prisionais do estado fazem um bom trabalho de divulgação e de incentivo. De acordo com a diretora, não são todos que frequentam a escola, mas através daqueles que estão nas salas de aula, a informação é propagada por toda a unidade. O número 861 inscritos para o Enem deste ano é considerado recorde pelo governo estadual, que segundo Virmond, prioriza a escolarização e a profissionalização dos presidiários.

Estar no sistema prisional é como vegetar, na opinião do jovem preso "Se fosse só o tempo, mas você perde um todo. Você perde crescimento, documento... Você deixa uma vida produtiva, uma vida boa para ficar isolado, preso", desabafou. E foi esta percepção do sistema prisional que fez com que ele optasse pelo curso Educação Física.

"Eu queria trabalhar com a liberdade. O que mais me impressiona é a vontade de viver das pessoas. Elas querem fazer atividades físicas, buscam a saúde, querem estar sempre bem, dando risada. Isso que é legal", afirmou o presidiário. Ele disse também que pretende trabalhar com crianças para apresentar a atividade física e assim evitar que elas se tornem usuárias de entorpecentes.

A universidade e outras atividades ajudam na

remissão da pena (Foto: Bibiana Dionísio G1 PR) O jovem foi preso, segundo ele, no único assalto que cometeu e quando questionado sobre a motivação do crime ele respondeu, primeiramente, que não sabia explicar. "É uma boa pergunta", disse. Depois afirmou que acredita que assaltou para se inserir no mundo que não era dele.

"É complicado você responder o que faz você assalta. Muitos assaltam por necessidade, muitos por prazer, outros por assaltar, outros para alcançar o que não consegue trabalhando. No meu caso, não foi necessidade, eu nunca precisei roubar (...). Mas eu acho que talvez tenha sido por causa das amizades ou por querer fazer parte de um mundo que não me pertencia."

O rapaz cumpriu oito anos no regime fechado, está há um ano e quatro meses no semiaberto e deve pagar mais um anos e dois meses para conseguir a liberdade. Além da faculdade de Educação Física, ele faz curso de computação e trabalha no Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná. As atividades contribuem para a remissão da pena. A expectativa é que ele consiga reduzi-la cerca de quatro meses.          

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