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Empresas juniores tornam-se alternativa à falta de estágios

Empresas juniores tornam-se alternativa à falta de estágios

Atualizado: Quarta-feira, 24 Dezembro de 2008 as 12

Nem sempre as horas em frente ao professor, na cadeira da universidade, são suficientes para a formação profissional. De um lado alguns cursos que exigem dos estudantes carga horária mínima de atividades práticas para a obtenção do diploma. Do outro, o mercado de trabalho, que costuma ser cruel com aqueles que se formam sem nenhuma experiência. Mas o estágio, opção mais procurada para complementar os conhecimentos da sala de aula, já não é mais acessível a todos. Segundo a Abres (Associação Brasileira de Estágio), no Brasil há atualmente 1,1 milhão de vagas, para uma demanda de 13 milhões de alunos a procura de estágio. Portanto, a solução para alguns é seguir caminhos alternativos.

A dificuldade de conseguir uma vaga como estagiário nos primeiros anos do curso de Engenharia Elétrica fez o estudante Patric Andrade Piton, 22 anos, buscar uma experiência que ainda é pouco convencional entre os universitários: trabalhar em empresas juniores. "O que me impulsionou nessa direção foi a percepção de que a oportunidade me traria capacitação ilimitada em diversas áreas do conhecimento. Além de praticar os conhecimentos teóricos da minha profissão, é possível obter uma visão global do mundo dos negócios", afirma ele.

Mas a vivência, que a princípio seria temporal, já dura dois anos e meio. Piton começou como consultor da EletroJr - Empresa Júnior de Engenharia Elétrica da UFBA (Universidade Federal da Bahia), passou pela presidência da instituição, pelo NEJ-UFBA (Núcleo de Empresas Juniores da Universidade Federal da Bahia) e atualmente dirige a UNIJr-BA (Confederação das Empresas Juniores do Estado da Bahia). "Minha experiência profissional se resume a minha participação no movimento. Caminho que tem contribuído não somente para a formação de engenheiro, mas, sobretudo, de profissional com perfil e visão diferenciada", acredita o estudante.

A opção pelo trabalho nas empresas juniores não é exclusiva de Píton. Segundo o Censo e Identidade 2008, realizado pela Brasil Júnior (Confederação Brasileira de Empresas Juniores), o movimento já integra mil instituições e há aproximadamente 23.200 empresários juniores no Brasil. A estimativa de empresas juniores brasileiras cresceu 33% em relação a 2005, quando o país mantinha cerca de 750 entidades.

Empresa júnior x estágio

A grande preocupação de quem ainda tem dúvida em ingressar ou não em uma empresa júnior está no reconhecimento da experiência no mercado de trabalho. Será que a vivência pode fazer a diferença em um processo seletivo? Ao menos ela tem representatividade no currículo? Questões que ainda se sobressaem às possibilidades de aprendizagem e crescimento profissional.

Segundo o gerente da Foco Talentos - empresa que organiza seleções de estágio e trainee - Rudney Pereira Júnior, o mundo dos negócios, há algum tempo, reconhece a passagem em empresas juniores como boa experiência. "Não como vivência profissional, mas como complemento da formação acadêmica e o primeiro pé no mercado de trabalho", diz. Ele confessa, no entanto, que o peso do estágio no currículo é muito maior. "Isso porque os vínculos são diferentes", explica.

Portanto, ainda que a experiência na empresa júnior seja produtiva para o desenvolvimento profissional dos estudantes, os especialistas não recomendam que a opção substitua o estágio. "São atividades distintas e fundamentais para a formação de qualquer profissional", ressalta o coordenador do curso de Design da UFPR (Universidade Federal do Paraná) - que mantém a Júnior Design - Ken Fonseca.

Ambas as opções, segundo Fonseca, podem ser sim métodos eficientes para o desenvolvimento dos chamados conhecimentos tácitos. "A formação acadêmica deve ter dosagem entre teoria e prática. Até porque há conhecimentos explícitos, ou seja, aqueles que podem ser adquiridos por meio de manuais, e outros tácitos - que só são assimilados a partir da vivência" explica. No entanto, o coordenador ressalta a diferença entre as alternativas e a complementaridade delas para a formação do estudante.

Enquanto numa empresa júnior os estudantes têm mais autonomia para desempenhar suas funções, no estágio é preciso seguir diretrizes pré-estabelecidas. O empresário júnior pode passar por diversos cargos e alcançar, inclusive, posição de gerência. Possibilidade que dificilmente acontece quando se é estagiário.

Foram essas características que aproximaram o estudante de economia da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), Luiz da Silva Veiga Filho, 19 anos, do movimento de empresas juniores. "Nos estágios nem sempre se faz o que se aprende em sala de aula. A intenção era seguir uma direção que realmente pudesse fazer a diferença na minha formação", conta. Possibilidade que ganhou consistência durante a semana do calouro, quando ele conheceu a Fácil Consultoria, empresa júnior da qual é o atual presidente.

Nesses dois anos de empresa, Veiga Filho acredita ter aprendido muito mais do que em qualquer estágio. "O aprendizado não se limita aos conhecimentos técnicos da minha carreira, como na maioria dos estágios. Pude ter visão mais ampla de uma empresa. Aprendi a montar um plano de negócios, de marketing, a gerenciar uma equipe", argumenta o estudante.

Esses fatores, na opinião de Sales, justificam a importância da empresa júnior para a educação de negócios. "Por maior que seja a carga horária da graduação, é impossível visualizar o espectro global do mercado do qual o estudante fará parte depois de formado. E o movimento vem suprir essa defasagem", alerta o presidente da Brasil Júnior. Para ele, essa visão também é importante para que os futuros profissionais encontrem a direção de suas carreiras. "A mobilidade e autonomia permite que os alunos passem por diversas funções e encontrem aquela que tem mais a ver com as suas expectativas", declara ele.

O espírito empreendedor é outra prática impulsionada pelo movimento. Sales, Veiga Filho e Piton comprovam a afirmativa com a própria experiência. Os três pretendem sair da faculdade e abrir o próprio negócio.

A empresa júnior, para o professor de administração geral e recursos humanos da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Antonio Gelis Filho, representa o microcosmo do que o estudante irá encontrar futuramente em sua carreira. "Desde o processo de seleção - que geralmente costuma ser bem concorrido - até os problemas operacionais e gerenciais do mercado, que começam com a prospecção de clientes e passam pela negociação à produção do projeto", descreve.

Para a primeira experiência profissional, Gelis Filho acredita que seja válida. "O ambiente é protegido. Além de contar com o apoio dos colegas mais experientes, recebe a supervisão dos professores e dos alunos", diz. Mas, na opinião dele, é importante que os estudantes tenham uma vivência extra ao mundo acadêmico. "O ideal é conhecer como as coisas funcionam lá fora, quando não se tem o suporte de uma universidade, tampouco dos professores", acrescenta ele.

Pereira Júnior partilha da mesma idéia de Gelis e afirma que a empresa júnior é um grande laboratório para a 'vida adulta'. "O empresário júnior tem convivência organizacional, aprende a trabalhar com poucos recursos, faz várias atividades ao mesmo tempo e assume posições de direção. Isso, geralmente, lhe propicia o desenvolvimento de características pessoais bastante valorizadas pelo mercado, tais como pró-atividade, dinamismo, responsabilidade e espírito inovador", destaca o gerente da Foco Talentos. Segundo ele, os estudantes que vivenciam o dia-a-dia da empresa júnior, geralmente, se sobressaem na avaliação comportamental. "Quem não viveu acaba tendo comportamento menos seguro."

Unir a experiência na empresa júnior à do estágio pode ser mais enriquecedor para qualquer profissional. Isso é o que comprova o administrador público, Rafael de Simone Martines, 21 anos. "Ao entrar na universidade percebi o tamanho da concorrência que teria que enfrentar no mercado de trabalho. Portanto, precisava me diferenciar e buscar uma formação mais ampla. E encontrei na empresa júnior essa oportunidade", conta o estudante que alcançou a presidência da Brasil Júnior.

Mas apesar de reconhecer a riqueza da oportunidade Martines decidiu dar um passo a mais e ampliar seus conhecimentos com a realização do estágio. "A minha experiência no movimento me abriu essa porta, principalmente por causa da rede de relacionamento estabelecida", revela. Martines acha que a vivência na empresa júnior foi fundamental para a aprovação no processo seletivo da Bain&Company. "Para os profissionais juniores não é a experiência que conta e sim a atitude e o comportamento na seleção", enfatiza ele. Esse, na opinião Martines, foi o diferencial que lhe garantiu a vaga de estágio e, posteriormente, a efetivação.

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