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Enem não pode ser tratado como se fosse um puxadinho

Enem não pode ser tratado como se fosse um puxadinho

Atualizado: Quinta-feira, 10 Novembro de 2011 as 10:56

Ilustração (Foto: Editoria de Arte/G1) Quando chega a época do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), as coisas viram de pernas para o ar. Sempre acontece de algo não dar certo. Já ocorreu a comercialização da prova por um funcionário do instituto responsável por ela. São comuns falhas no site do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), onde os estudantes devem se inscrever nas vagas das universidades.

Este ano, para não fugir à regra, houve vazamento de 14 questões. Apostilas de uma escola de Fortaleza traziam algumas que eram idênticas às do Enem.

Segundo o MEC, elas faziam parte de um pré-teste aplicado aos alunos da escola há cerca de um ano, sendo muito sigiloso. Somente os alunos tiveram acesso. Depois, foram todos devolvidos e incinerados. Portanto, seria impossível terem sido copiadas por professores ou alunos. Muito menos memorizadas por esses.

Se algum fantasma não andou rondando esse pré-teste e facilitando a vida dos estudantes, caímos no velho problema: a falha na organização do Enem.

Não se tem muitas notícias de fraudes graves nos principais vestibulares do país. Um ou outro problema ocorrem. Porém, eles são pontuais e rigorosamente resolvidos. Mas nada que se compare aos que ocorrem com esse exame.

Ele surgiu com um fim – conhecer a qualidade do ensino médio. Então, passou a funcionar como via de acesso para algumas universidades públicas. Com o objetivo de tornar o ensino superior acessível a todos (tem a pretensão de acabar com o vestibular). Além de possibilitar que alunos das particulares consigam bolsas de estudo. A impressão é que tudo é feito às pressas, como dá, sem rigor algum. Ao sabor do vento. Até porque, muitos querem mostrar serviço e serem tidos como alguém que mudou a educação no país. Só que o serviço é extenso. E educação não se muda de um mandato para outro.

Aplicar uma prova dessas, abrangendo todos os estados, exige muita organização e rigor. Só para se ter uma idéia, enquanto a Fuvest tem em torno de 146 mil inscritos, o Enem tem mais de 5 milhões. A diferença é bem grande.

E aí, diante dos problemas (graves), puxa daqui e dali. Pensou-se em anular o exame em todo o país. O que não é justo com quase 100% dos estudantes – num universo de 5 milhões apenas 639 alunos eram da escola em questão. Sem contar o gasto ao reaplicá-lo. A edição deste ano custou R$ 238,5 milhões. Não é uma brincadeira.

O dinheiro público tem que ser muito bem administrado. No setor educacional, mais ainda. Nosso país tem sérios problemas nessa área, principalmente na esfera pública.

Puxa mais um pouco e dá uma esticadinha – resolveu-se que só os estudantes do colégio do Ceará refariam a prova. Os demais não gostaram da idéia, pois seus colegas teriam mais tempo para estudar.

Entre uma confusão e outra, resolveu-se, até agora, que os alunos de Fortaleza terão anuladas as 14 questões e suas notas serão recalculadas.

Ora, não dá para brincarmos que o país tem uma educação de qualidade, que seu sistema de acesso ao ensino superior é o melhor e que o dinheiro está sobrando. Até estaria se fosse mais bem aplicado.

Mas ainda fica uma dúvida: como é que a escola teve acesso às questões e as publicou em suas apostilas?

Como nos grandes vestibulares, isso precisa ser rigorosamente investigado. E o Enem deve ser repensado e organizado.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)        

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