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Enem: sobre lápis, relógio, cartão e gabarito

Enem: sobre lápis, relógio, cartão e gabarito

Atualizado: Quinta-feira, 4 Novembro de 2010 as 11:44

Nos últimos dias tenho conversado, em palestras e no twitter, com candidatos que farão a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no próximo fim de semana e também com professores do ensino médio. Apesar de muita gente ainda não conhecer bem a prova e explicá-la ser o maior parte do meu trabalho, temas como a proibição do uso de lápis e porte de relógio na hora da prova, a obrigação de apresentar o cartão de inscrição e o anúncio de que o gabarito oficial só será divulgado dois dias depois da prova se destacam entre as principais dúvidas ou críticas de alunos e demais envolvidos.

A proibição do uso de lápis, borracha e apontador é um dos maiores absurdos entre as novas medidas. O Ministério da Educação diz que faz isso para garantir a segurança da prova. Já pensei muito e não consigo encontrar situações, a não ser possíveis "teorias de conspiração", em que esses materiais escolares possam atentar contra o exame.

O aluno será prejudicado. Mesmo sendo simples, é muito melhor fazer os cálculos exigidos no Enem a lápis e poder apagá-los e refazê-los, se preciso. Muitos professores indicam que, nas questões que não exigem fórmulas, o aluno comece eliminando as alternativas improváveis antes de escolher sua opção. Quem faz redação de forma organizada, costuma primeiro planejá-la, organizando argumentos em algum espaço em branco para desenvolver a estratégia da dissertação. Há espaço no caderno de prova para rascunhar a redação. Sem o lápis, há prejuízo para o direito do aluno. O mais grave é que os alunos que usam essas estratégias costumam ser os mais dedicados, acostumados a fazer isso durante toda a trajetória escolar.

A caneta (e não precisava ser preta) só poderia dar segurança para o aluno no caso de ele querer uma revisão de prova. Com o gabarito preenchido a tinta, e também a redação, ficaria difícil que alguém apagasse os apontamentos do aluno e colocasse outro conteúdo. Mas como até hoje o Enem não divulgou o relatório pedagógico da última prova, ninguém sabe quanto valeu cada questão e ou a média nacional de rendimento em cada prova. Se os alunos, os educadores, os profissionais de educação e a sociedade não sabem o que significam as notas, como alguém pedirá revisão de provas?

Já a proibição do uso de relógio digital, assim como celular, mp3, calculadora e outros equipamentos eletrônicos, tem lógica. Além de possuírem funções que poderiam facilitar a resolução da prova, ainda permitem a troca de informações que tiram a igualdade de condições de disputa entre os concorrentes. Agora, proibir o uso de relógio analógico (mecânico) não faz sentido. Cada pessoa deveria ter o direito de planejar o uso do tempo durante a prova. Sem o relógio, fica impossível.

Mesmo que os fiscais informem, durante a prova, o tempo que o candidato ainda possui, acredito que isso será feito de forma diferente em todo o País. A concentração dos alunos ainda pode ser atrapalhada. Essa determinação aumenta as desigualdades naturais ao processo com essas dimensões – já que infraestrutura e clima não serão os mesmos em todo o País – sobretudo se imaginarmos que, certamente, haverá lugares em que o lápis e o relógio serão tolerados.

Para mim, a necessidade de apresentação do cartão de inscrição é uma contradição em relação às políticas públicas brasileiras. Em recente decisão, o Superior Tribunal Federal decidiu não ser necessária a apresentação do título de eleitor para votar, porque a carteira de identidade e alguns outros documentos com foto servem oficialmente para identificação no País.

Quem sabe onde será sua prova e se apresenta no local, em horário que consta no edital, não deveria ser impedido de fazer o Enem se não estiver com o carão. Alem de ser uma medida inconstitucional, o MEC não conseguiu enviar os cartões às casas de todos os candidatos. Querer que todos os estudantes tenham condições, em um País que só possui 20 milhões de pontos de acesso à internet, de acessar o site de inscrições e imprimir o documento é pedir demais.

Por fim, é simbólica a decisão de o gabarito do Enem ser divulgado somente dois dias após a prova. No último ano, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, apresentou o gabarito antes desse prazo e houve muitos erros. O Inep levou mais de 12 horas para corrigi-lo e apresentá-lo de novo. Agora, o MEC deve guardar o gabarito e ficar atento à correção que sites, jornais e cursinhos farão. Os técnicos deverão avaliar as contradições entre os gabaritos não-oficiais e os oficiais para evitar polêmicas.

Mateus Prado - Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

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