MENU

Ensino nos presídios tem de exigir mais que frequência

Ensino nos presídios tem de exigir mais que frequência

Atualizado: Quinta-feira, 7 Julho de 2011 as 10:26

Estudar e aprender não são coisas fáceis. Exige do aluno um empenho grande de energia, tempo, paciência e saber lidar com a frustração. No entanto, o ganho é bastante precioso. Aquele que estuda conhece as coisas, desenvolve-se e tem mais chances profissionais na vida. Sem contar o prazer que simplesmente o saber propicia.

Por vezes, seu ganho intrínseco não é percebido. E estudar se reduz apenas a uma obrigação. Essa ideia se perpetua e vemos estudantes de nível superior encarando uma faculdade apenas como um dever – o fato de estarem aprendendo e se especializando perde o sentido de crescimento.

Com essa ideia, vemos muitos pais presenteando seus filhos com coisas materiais por terem tido notas boas no colégio. De antemão, alguns negociam: se conseguirem bons resultados, ganharão aquele videogame ou determinada viagem; caso não consigam, podem esquecer essas coisas. Aprende-se na base da troca e não pelo que o estudo proporciona.

Isso é mais comum do que se imagina. Se o pai acha que o filho merece um presente, inclusive por ter se dedicado à escola, não tem problema. Porém, isso não deve ser o principal para uma criança se dedicar a essa atividade. Que em última instância é sim uma obrigação. Mas uma obrigação para o bem próprio. E quantos não poderiam ter tido uma vida diferente se tivessem estudado? Muitos não se empenharam, outros nem oportunidade tiveram.

Mas nossos governantes estão de olho nisso. Pretendem que os detentos do nosso país estudem. Hoje, apenas 9% deles têm algum tipo de atividade educacional. Por isso, vão fortalecer a oferta de estudos dentro dos presídios. O objetivo é ampliar as condições de reintegração dessa população à sociedade depois de cumprir sua pena.     Essa ação é muito importante. O que fazer depois de anos confinados, alheios a muitas coisas, num mundo que se transforma a passos largos? Parabéns a essa iniciativa.

  Há uma questão, no entanto, que deve ser olhada. Como atrativo para que participem dessas atividades, fizeram uma alteração na Lei de Execução Penal – a cada 12 horas de frequência escolar, o preso terá um dia de sua pena reduzido. Quando concluir um ciclo de estudos – ensino fundamental, médio ou superior – terá uma redução maior ainda.

Desta forma, presenteia-se novamente o estudo com algo que é alheio a ele. Com certeza a escolaridade pode facilitar as coisas para a pessoa quando ela sair da prisão, desde que realmente levado a sério. Seja pelo aluno, que deverá não só ser assíduo às aulas, mas se empenhar para realmente aprender e fazer da experiência algo diferente. Seja por aqueles que conduzirão esse processo – tendo um projeto sólido, com atividades envolventes, que objetivem a escolarização do aluno, e comandadas por professores competentes.

A educação formal do indivíduo preso é fundamental. Com o cuidado que não seja mais um projeto apenas para ser “politicamente” correto. Não basta dizer que tem escola para os detentos. Essa escola tem que realmente ser um diferencial em sua vida. Bonificá-los pelo envolvimento nessas atividades não pode se restringir ao mero comparecimento as aulas. Tem que realmente haver um crescimento da pessoa na parte escolar.

Se amanhã ele voltará para a vida do crime, ninguém poderá prever. Ser criminoso não é e nunca foi privilégio de quem não estudou. Ao menos, alguma condição diferente de quando entrou ele terá. Dependerá dele aproveitá-la ou não. O que não dá é para ter mais um projeto em que uns brincam que ensinam e outros brincam que aprendem. Só para ter a visita do Papai Noel no final do ano. Ou redução de sua pena.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)          

veja também