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Entre ânimo e medo, bolsistas brasileiros partem ao Japão

Entre ânimo e medo, bolsistas brasileiros partem ao Japão

Atualizado: Terça-feira, 29 Março de 2011 as 9:36

Mesmo após a tragédia que abateu o Japão, com terremoto, tsunami e contaminação nuclear, nove bolsistas brasileiros se preparam para viajar ao país em mais duas semanas, dia 8 de abril. Mas vários outros aguardam confirmação para embarcar nos próximas meses.

São descendentes de japoneses que vão fazer a viagem bancados pela Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica). O órgão organizou neste sábado (26), na Liberdade, em São Paulo (SP), evento que reuniu cerca de 70 pessoas, entre seus bolsistas e ex-bolsistas. O clima geral era festivo, mas não deixou de considerar as preocupações com o pós-tragédia e o perigo radioativo.

A professora de música Margareth Hitomi Umehara, 44, uma dos nove bolsistas, é veterana em terremotos. "Fui também bolsista na província de Niigata em 2004, bem quando houve grande terremoto lá", conta ela. "Tinha que tomar banho frio no inverno por não poder usar gás, e não conseguia ficar de pé pelas várias réplicas ao longo de um mês."

Margareth, que vai para Yokohama por 10 meses, província vizinha de Tóquio, afirma que a experiência anterior deu mais segurança para ir agora. "E minha orientadora [de pedagogia musical na Universidade Nacional de Yokohama] disse que está seguro lá, tanto para alimentação como quanto à radiação", explica ela. "E eu acredito nela, né? Claro que eu tenho muito medo, e minha família todo dia questiona, mas não quero perder a oportunidade de realizar esse sonho."

A estatística Aurora Kyoko Nakati, 33, é outra que parte em 8 de abril. "Fico mais tranquila de ir para Okinawa [ponta sul do Japão], principalmente por meus pais, mas eu iria independente da região", declarou ela, que afirma saber também de bolsistas do Mombusho (Ministério de Ciência e Cultura do Japão) que vão para Tóquio já neste sábado (2).

Outra que não hesita é Harumi Adachi, 22, formada em moda pela USP Leste, e que tem viagem pré-confirmada. Espera ficar por 10 meses para curso em Sapporo, na ilha e província de Hokkaido, extremo norte do Japão. "Não me preocupo, tenho parentes lá e dizem que está tudo bem na região", diz ela. "Também acompanho detalhes em japonês pela NHK [TV estatal japonesa]".

Já a psicóloga Eliane Taminato Hara, 26, por outro lado, mostra preocupação. Ela se inscreveu no fim do ano passado para um curso de seis meses na província de Gunma, que fica mais próxima de Fukushima, onde é a usina nuclear de Fukushima Daiichi, danificada pelo terremoto e tsunami e que mostra sinais de vazamento de radiação.

"Se eu tivesse que decidir ir ou não agora, realmente não teria resposta", diz ela. Sua viagem seria apenas em junho, e aguarda confirmação, mas ainda assim recebeu e-mail semana passada da universidade japonesa. Buscavam tranquilizá-la, dizendo a Eliane que a região está segura e a rotina não mudou.

FUKUSHIMA

O diretor de projetos da Jica em São Paulo, Vicente Murakami, afirmou que, de modo geral, só os pais dos bolsistas estão preocupados. De qualquer maneira, não há unidades da Jica --onde os estudantes se hospedam-- em zonas tão afetadas. A mais próxima, no entanto, é a Jica Tsukuba, na província de Ibaraki -vizinha de Fukushima.

Ainda assim, esteve presente no evento uma ex-bolsista que estagiou anos atrás em uma fábrica na capital da província de Fukushima, a 80 quilômetros da usina nuclear. Márcia Oura, 37, engenheira de alimentos, entrou em contato com a fábrica onde foi trainee na semana do terremoto, e disseram apenas que, na prática, apenas tiveram que parar as atividades por conta da falta de energia. Mas ela se preocupa com os efeitos da radiação sobre eles, que são de longo prazo.

A japonesa Kitaura Minami, 28, que trabalhou na recepção da unidade Jica Tsukuba, conta que 20 pessoas morreram em toda a província, por conta dos terremotos iniciais -relativamente pouco, perto dos milhares de mortos no país. "Na cidade e arredores, ao sul de Ibaraki, o problema não é tão grave, mas sinto pelos fazendeiros que não podem mais vender o que plantaram", diz ela. "Meu maior problema é que o escritório onde trabalho atualmente, numa empresa de semicondutores, foi destruído por terremoto, e fui dispensada por tempo indeterminado. Também tivemos falta de gasolina por alguns dias, mas isso está resolvido agora".

RECÉM-CHEGADOS

Durante o evento do sábado, considerando as preocupações dos futuros bolsistas, dois dos que acabaram de voltar ao Brasil deram depoimentos. Erica Lie Habiro, que estava em Sapporo, norte do país, não foi muito afetada: apenas teve que esperar por mais quatro dias para seu voo de volta ao Brasil -seu retorno estava marcado para dia 12 (dia seguinte ao terremoto inicial), mas só pôde viajar no dia 16.

O dentista Koji Nishisaka, 26, ex-bolsista que voltou do Japão segunda-feira passada (21), contou em particular à Folha que sentiu medo de que o vento levasse a radiação para a província de Tottori, onde morou, mais a sudoeste do Japão. Mas isso não ocorreu, apenas presenciou a forte mobilização dos japoneses da região para enviar ajuda às áreas atingidas pela tragédia. "E percebi que, apesar do desespero dos estrangeiros e sua vontade de ir embora, os japoneses mantiveram a calma", conta ele.

Ao lado de Érica, também deu depoimento público Wiison Siguemasa Iramina, 41, professor de engenharia da USP, que foi bolsista por dois meses em Yokohama e voltou semana passada. Bem no dia do primeiro terremoto, estava de passagem na vizinha Tóquio. Só conseguiu voltar no dia seguinte, e com dificuldade. "Minha última semana no país foi estranha, com tremores ao longo de toda a semana", disse ele.

E, apesar de reconhecer os riscos radioativos, ele encorajou a todos: "A Jica se preocupa muito com os bolsistas, e não mandaria ninguém ao Japão se não julgasse seguro", disse ele, até citando pequenas cautelas que os funcionários da agência japonesa tinham com ele, como "ter que avisar hora de voltar ao alojamento e não deixarem usar bicicleta para ir à universidade, por acidente com bolsista anterior".

"De todo modo, se o Japão reservou verba para vocês, aproveitem", ressaltou ele. "E consumam no Japão, o país precisa de seu apoio".

O diretor da Jica Vicente Murakami assegurou ainda que, mesmo neste momento de dificuldade pelo qual o país passa, não há indicativo de corte de verba para treinamento de bolsistas estrangeiros. "Na verdade, esta boa relação que o Japão tem estabelecido com diversos países, por exemplo por meio dos treinamentos oferecidos a seus profissionais, hoje é recompensada, com grande ajuda internacional para as vítimas".

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