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Idosos voltam às salas de aula para aprender e resgatar a autoestima

Idosos voltam às salas de aula para aprender e resgatar a autoestima

Atualizado: Sexta-feira, 18 Fevereiro de 2011 as 9:02

Nesta faculdade não há vestibular, lista de chamadas, provas ou boletim. Mas há vontade de aprender. Este é o principal requisito das faculdades da terceira idade, também chamadas de maturidade, para receber pessoas com mais de 40 anos interessadas em voltar à vida escolar mesmo sem ter nenhum diploma.

Cada instituição segue um modelo de trabalho. Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por exemplo, o curso é anual, na Universidade São Judas, a grade é semestral. Há aquelas que cobram mensalidades e outras onde as atividades são gratuitas, como na Universidade de São Paulo (USP).

A maioria das instituições exige que o interessado tenha, no mínimo, 40 anos. Não há provas de seleção ou avaliações. No entanto, mesmo os cursos vinculados às instituições de ensino renomadas, não são credenciados pelo Ministério da Educação, por isso não são válidos como graduação.

O G1 acompanhou um dia de aula na turma "madura" da Universidade São Judas, em São Paulo, e conheceu alunos que viram nesta volta à sala de aula novos sentidos para a vida.

'Comecei a ser mais respeitada'

Para a ex-professora Janette Apparecida Evangelista, de 73 anos, que frequenta as aulas na São Judas há 15 anos, o curso trouxe o resgate da autoestima e uma nova família. Seu marido morreu aos 54 anos, vítima de infarto, e ela nunca mais se casou. "No curso encontrei um novo sentido para a vida. Fiz verdadeiros amigos. Viajamos juntos, comemoramos aniversários. Formei uma nova família", afirma.

Janette é a representante da turma. É ela quem organiza passeios, excursões e dá boas-vindas aos novos estudantes. Para ela, o curso traz um aprendizado contínuo. “Comecei a ser mais respeitada. Falo de igual para igual com meus filhos e netos. A faculdade me deu mais autoconfiança e os horizontes se alargaram”.

Foi na faculdade que Janette também aprendeu a navegar pela internet. Ela gosta de pesquisar, atualmente buscou informações sobre a China, além de trocar e-mails.

Gilda Schmidt, de 68 anos, também está na faculdade há 16 anos. Ela trabalhou como secretária por 34 anos e depois que se aposentou procurou o curso para se reciclar. “Gosto muito das disciplinas de geografia, história e geopolítica. Além do mais, aqui encontrei pessoas que se transformaram em grandes amigos.”

'Nunca falto às aulas'

Aposentado há 15 anos, o ex-militar Sinésio Ferreira, de 63 anos, diz que o curso o complementou. Ele começou a frequentar faculdades da maturidade quando morava em Santos, no litoral de São Paulo. “Não queria só nadar e caminhar na praia. Precisava me ocupar.”

Morando em São Paulo desde 2007, Ferreira afirma que não se intimida com a pequena quantidade de homens na sala de aula – na turma atual são apenas três. “Os homens estão mais retraídos. Não estão a fim de encarar a vida. Mas eles não sabem o que estão perdendo. Venho com tanto prazer às aulas, nunca falto, e sempre volto para casa bem.”

Alunos dão trabalho, diz professora

Para Maria Esmeralda Mineu Zamlutti, coordenadora da Universidade da Maturidade São Judas, quem procura o curso está em busca de conhecimento, não de um passatempo. "Eles queremr aprender alguma coisa nova ou reciclar o que já sabe."

Esmeralda também dá aulas no curso de graduação e pós da São Judas. Ela diz que na sala de aula, alunos dão o mesmo trabalho independente da idade. "Na classe da maturidade eles também reclamam, reivindicam e são falantes. Tenho sempre de chamar a atenção."

As aulas na São Judas ocorrem duas vezes por semana: às terças e quintas-feiras. Às quartas-feiras, há aulas de informática opcionais. Neste primeiro semestre do ano os alunos terão aulas de memória, sobre os países do leste europeu, história política e sociedade, economia chinesa e história dos partidos políticos brasileiros.

O curso é semestral e as matrículas podem ser renovadas pois a grade de matérias muda. Há alunos que estão há mais de dez anos na faculdade. O curso já ofereceu disciplinas de biologia, economia, meio ambiente, artes, psicologia, filosofia, cinema, televisão, entre outros temas.

Nova cabeça

Na Universidade Aberta da Terceira Idade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o objetivo do curso é proporcionar qualidade de vida física e mental aos idosos, segundo a coordenadoraNadir Aparecida de Matos Nogueira.

O curso da Unifesp, criado há 12 anos, tem um ano de duração e intercala disciplinas de saúde ministradas pelos professores da graduação com conhecimentos gerais e aulas de direito, história da arte, geografia, entre outras. Anualmente são abertas 180 vagas que são preenchidas em pouco tempo.

"Muitos alunos chegam por indicação médica, com depressão e outras doenças. Em pouco tempo notamos eles diferentes, mais participativos, navegando pela internet", afirma Nadir Aparecida. "A cabeça muda."

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