MENU

Indonésios estudam mandarim para se aproximar da China

Indonésios estudam mandarim para se aproximar da China

Atualizado: Sexta-feira, 28 Maio de 2010 as 9:15

Quando o regente desta região costeira e produtora de arroz na ilha indonésia de Java foi à China pela primeira vez, como parte de uma delegação oficial, seus olhos se arregalaram. Ali estava o futuro, ele pensou: arranha-céus, fábricas barulhentas e grandes estradas.

Agora, o regente Masfuk está tentando levar sua região indonésia na direção do futuro: ele ordenou que todas as escolas em Lamongan, com população de 1,5 milhões, ensinem chinês mandarim, a fim de preparar os jovens para negócios com a China.

Nas salas de aula, meninas usando véus brancos e garotos em camisas de botão recitam, com hesitação, livros chineses. Também rabiscam caracteres no quadro-negro. O governo local organizou concursos de chinês nos últimos dois anos.

''É como assistir a filmes de kung-fu'', disse Masfuk, referindo-se à maravilha de ouvir os alunos falando mandarim nos concursos. Como muitos indonésios, ele usa apenas um nome.

Essa política se opõe a décadas de hostilidade com os chineses na Indonésia, o país muçulmano mais populoso do mundo. Porém, as coisas estão mudando; o governo chinês está enviando centenas de professores para a Indonésia, incluindo um que já ensinou em Lamongan.

À medida que cresce o poder econômico da China, o estudo do mandarim está aumentando no mundo todo. Sua ascensão na Indonésia é um dos exemplos mais claros de como a influência da China está ultrapassando até as barreiras mais altas.

Os líderes daqui acusaram a China de apoiar um golpe comunista fracassado em 1965, e o presidente Suharto proibiu o ensino do chinês e todas as expressões da cultura chinesa durante seu domínio autoritário, de 1967 a 1998. Um javanês que agora ensina chinês em Lamongan teve de estudar o idioma em segredo, em um grupo de igreja em 1997.

As políticas de Suharto contribuíram para as tensões entre vários grupos étnicos indonésios e indonésios chineses, que formam menos de 4% da população, mas são uma presença poderosa na economia. Em 1998, revoltas populistas por descontentamento com a economia levaram à morte de cerca de mil chineses.

Os protestos resultaram na renúncia de Suharto, e a proibição da cultura chinesa foi revogada. O ensino do idioma ganhou força nos últimos anos. Um exemplo: a Universidade Estadual de Surabaya, segunda maior cidade da Indonésia, oferecerá pela primeira vez estudos de mandarim este ano.

Muitos estudantes indonésios de mandarim são de etnia chinesa, ansiosos para retomar sua ligação com sua cultura. Porém, também há estudantes de outras etnias, como os de Lamongan, que querem aproveitar os crescentes laços econômicos entre a Indonésia e a China. Os dois países alcançaram US$ 28,4 bilhões em intercâmbio comercial em 2009. Uma zona de livre comércio, que entrou em operação este ano entre a China e países do sul da Ásia, já levou a um grande aumento no intercâmbio comercial, de acordo com o ministério do Comércio chinês.

''Acho que é importante eu aprender chinês, pois ouvi falar sobre o livre comércio entre a China e a Indonésia', disse um estudante de Lamongan, Andresya Bargiyyatul, 16 anos. ''Assim, acredito que empresários chineses virão para a Indonésia, e quero me comunicar com eles''.

A atitude é exatamente o que a China tem buscado cultivar ao apoiar fortemente a expansão de programas de ensino de mandarim aqui e em muitos outros países. O presidente Hu Jintao pediu publicamente que a China exercitasse uma maior influência global através da disseminação da cultura e da diplomacia, ou ''soft power''. O ministério da Educação é um instrumento nessa campanha - no ano passado, 4.800 professores foram enviados para cerca de 110 países.

No último mês de dezembro, o ministério da Educação da China abriu um Instituo Confúcio para ensinar chinês em Jacarta, capital da Indonésia. O ministério opera 554 programas Confúcio - o que ele chama de institutos e salas de aula – em 90 países e regiões. Os Estados Unidos são o país que mais conta com esse tipo de instituto, com 68.

O ministério enviou cerca de 380 professores para a Indonésia entre 2004 e 2009, a maioria com contratos de três anos. Mas, talvez devido ao histórico recente de hostilidade com os chineses, a China prefere subestimar qualquer influência de ''soft power''. Em Jacarta, o Instituto Confúcio fez pouco para sua divulgação, e se recusou a conceder entrevista para este repórter.

Entre autoridades indonésias, as atitudes em relação ao crescimento da China são complicadas. A Indonésia tem tido um déficit comercial com a China nos últimos anos, e algumas autoridades temem a força econômica colossal da China. Mas há também otimistas, como Masfuk.

''Estou de olho no comércio e nos investimentos entre Lamongan e a China, com perspectivas fantásticas para o futuro'', disse Masfuk, com um grande sorriso, em seu escritório.

Masfuk começou a ordenar o ensino do chinês em 2007, dois anos depois de sua viagem à China. Essa medida ficou muito mais estabelecida neste ano escolar, que começou em julho de 2009. Autoridades da área de educação dizem que cerca de metade das centenas das escolas em Lamongan hoje oferecem pelo menos aulas extracurriculares de chinês. Muitas das 148 escolas do ensino fundamental e médio, públicas e privadas, têm aulas obrigatórias do idioma. A principal limitação é a falta de professores qualificados e livros didáticos chineses, dizem as autoridades.

Essa medida trouxe a Masfuk fama nacional – ele foi entrevistado por uma rede de televisão indonésia bastante popular e falou com o ministério da Educação.

''É uma política corajosa'', disse Mu'ad, funcionário público local de educação. ''Nenhuma outra regência tem essa política. É novidade na Indonésia."

''Esperamos que, em 5 ou 10 anos, tenhamos estudantes em idade laboral capazes de falar chinês'', acrescentou. ''Se os empresários ou investidores chineses vierem a Lamongan, esperamos que nossos alunos possam explicar a cidade para eles''.

A economia de Lamongan cresceu 5,8% no ano passado. Lamongan é uma das principais fontes de arroz, peixe, tabaco e soja no leste de Java. Alguns desses produtos poderiam ser exportados para a China, dizem autoridades locais, e Lamongan poderia construir fábricas para empresas chinesas.

''Desde implementamos essa medida, há mais investidores chineses vindo até aqui para falar comigo'', disse Masfuk. Ele se recusou a fornecer mais detalhes.

Na Negeri 2, escola do ensino médio com mais de mil alunos, o ensino do idioma chinês se tornou obrigatório para todas as três series que começam neste ano escolar. Recentemente, 30 estudantes de uniforme repetiam a frase citada pelo professor em mandarim: ''Todos os dias, de segunda a sexta-feira, eu vou à escola''.

O professor, Achmad Tontowi, possui um bom domínio da gramática e do chinês escrito, mas tem dificuldades com a pronúncia. Ele se mudou para cá há três anos, quando Masfuk convocou professores de chinês pela primeira vez. Tontowi começou a estudar o idioma em 1997, depois de aprender japonês na faculdade. O ensino do chinês ainda proibido naquela época, então Tontowi participava de aulas secretas em uma igreja em Surabaya, cuja congregação era, em sua maioria, de etnia chinesa.

''Havia uns 30, 40 alunos'', ele disse. ''Apenas quatro eram de etnia javanesa; o resto eram chineses da segunda ou terceira geração''.

Um sinal de até aonde vai o governo indonésio é sua disposição de alocar professores de chinês por toda a Indonésia. Autoridades em Lamongan pediram que o governo central em Jacarta enviasse falantes nativos do idioma e, em novembro de 2008, Wang Kairui chegou, vindo da China. Ele permaneceu aqui por oito meses antes de se mudar para a província Aceh. Ele tem um contrato de três anos com o ministério da Educação da China para ensinar na Indonésia.

''Acredito que este é um ótimo decreto'', disse Wang, referindo-se à política de Masfuk, em entrevista por telefone. ''Mas eles certamente têm algumas dificuldades para enfrentar. Eles simplesmente não têm professores o suficiente. Eles não têm livros didáticos em quantidade suficiente. Tudo isso são problemas. Realmente, vai depender do quanto eles levarão isso a sério''.

Sarah Sayekti contribuiu com a reportagem de Lamongan. Xiyun Yang contribuiu de Pequim.

Por Edward Wong

Tradução: Gabriela d'Ávila

veja também