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Internos da Fundação Casa assistem às aulas vigiados por funcionários

Internos da Fundação Casa assistem às aulas vigiados por funcionários

Atualizado: Sexta-feira, 15 Abril de 2011 as 9:30

Seria uma aula comum se os alunos não fossem monitorados por funcionários de plantão nas portas das salas. Os estudantes são adolescentes que cumprem medidas socioeducativas nas 132 unidades da Fundação Casa, no Estado de São Paulo. Estudar faz parte da obrigação diária deles que têm de fazer lição e passar por avaliações assim como ocorre no sistema regular de ensino, do lado de fora das unidades. Os professores são da rede estadual de ensino.

As turmas do ensino médio são sempre as menores, conforme foi constatado pela reportagem do G1 na visita às unidades da Mooca e Vila Maria. A maior concentração é de estudantes nas 5ª e 6ª séries. A unidade masculina Ouro Preto, na Vila Maria, atualmente tem sua maior turma de estudantes no ensino médio: são oito, no total de 49 internos.

Como a maioria tem defasagem no ensino, todos os adolescentes que chegam no regime de internação passam por um diagnóstico para identificar em qual série serão matriculados. As salas são montadas por ciclos: um (da 1ª até a 4ª série); ciclo dois (da 5ª até a 8ª série) e ciclo três (do 1º ao 3º ano do ensino médio), de acordo com a demanda.

"Embora cheguem por bastante defasagem, conseguimos perceber a evolução dos internos dentro da unidade. Eles chegam com a crença de que não conseguem aprender, depois que começam a aprender veem que podem e isso por si só faz a evolução", afirma Neuza Flores, gerente escolar da Fundação Casa.

Os internos têm carga horária de 27h/aula semanal para o ensino fundamental e 30h/aula para o ensino médio. A grade é a mesma da escola em que a unidade da Fundação está vinculada. A documentação e histórico do interno são emitidos em nome desta instituição de ensino e nenhum momento é citada a Fundação Casa.

As aulas dentro das unidades seguem o modelo das escolas em que estão vinculadas. Quando há feriado, os internos não têm aulas assim como os estudantes do sistema regular. Os alunos têm entre cinco a seis aulas por dia de diferentes disciplinas, inclusive educação física, com duração de 50 minutos cada. Há intervalos de 15 a 20 minutos para o lanche. São dispensados quando possuem compromissos no Fórum, têm atestado médico, grávidas a partir da 38ª semana de gestação e durante os quatro primeiros meses do bebê.

"O sistema é igual ao da rede estadual. Nosso objetivo é fazer com que os internos, ao saírem da Fundação, retornem à escola, por isso tentamos aproximá-lo da rede", diz Neuza.

Segundo a gerente escolar, os funcionários, chamados de agentes socioeducativos, são mantidos nas portas das salas para preservar a integridade física dos meninos e dos professores. Em caso de brigas ou discussões, a intervenção é rápida.

'Não dá para mandar chamar os pais'

Para lecionar nas unidades da Fundação Casa, o docente tem de manifestar interesse na Secretaria da Educação e passar por entrevistas. Jorge Muller, professor de matemática e física, que atua há quatro anos na unidade da Mooca, garante que a função exige paciência. "Temos de ser professores e psicólogos ao mesmo tempo. Temos de ajudar a resgatar a autoestima e saber ganhar o aluno."

Muller diz que já teve alunas arredias, indisciplinadas e respondonas, mas que na maioria das vezes é respeitado. "Tem de ter limite. Aqui não dá para mandar para diretoria ou chamar os pais. Eu gosto de dar aulas e hoje em dia só trabalho onde gosto. Não me interessa saber qual o delito delas, ficamos gratificados quando as meninas vão embora."

Segundo o professor, que também atua na rede regular de ensino, as alunas da Fundação têm mais dificuldade em aprender e principalmente de assimilar as informações - "talvez por reflexo do consumo de drogas". "Na hora da prova, elas pedem para "dar a linha" (dica) e ficam bravas quando tiram notas baixas."

Internação provisória

Durante a internação provisória, onde os jovens aguardam decisão judicial, que pode durar até 45 dias, também há aulas. Neste período, os adolescentes participam do Programa de Educação e Cidadania (PEC) que prevê atividades e dinâmicas sobre saúde, trabalho, educação, família e justiça e cidadania.

As atividades começam e terminam no mesmo em  dia, levando-se em conta que o participante de hoje pode não ser o mesmo de amanhã.

Em regime privado, além da educação formal o adolescente tem acesso à qualificação profissional com cursos que vão de de colocação de pisos e azulejos, passando por telemarketing e pintura, até beleza e estética. Os jovens também participam de atividades culturais como coral, dança, capoeira, violão e ensino religioso. A escolha é feita de acordo com o interesse.

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