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Lista de livros da Fuvest e Unicamp ficou mais 'complexa', diz professor

Lista de livros da Fuvest e Unicamp ficou mais 'complexa

Atualizado: Sexta-feira, 20 Janeiro de 2012 as 10:16

A lista de livros obrigatórios dos vestibulares da Fuvest e da Unicamp ficou muito mais “densa e complexa” com a substituição de quatro obras anunciada nesta quinta-feira (19) pelas instituições. Esta é a opinião do professor de literatura Marcílio Gomes Júnior, do cursinho Oficina do Estudante, de Campinas. Segundo ele, a entrada dos livros Viagens na minha terra", de Almeida Garrett; "Til", de José de Alencar; "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis; e "Sentimento do mundo", de Carlos Drummond de Andrade, vai exigir um estudo muito maior dos vestibulandos. As obras serão exigidas nos vestibulares do final deste ano (Fuvest 2013 e Unicamp 2013).

Da lista anterior, saíram “Auto da barca do inferno”, “Iracema”, “Dom Casmurro” e “Antologia Poética”. Para o professor, com exceção do romance “Til”, os três outros novos livros trazem tensões internas muito densas e vai exigir do estudante uma capacidade perceptiva muito maior para analisar a elaboração estética e cultural da obra e sua conexão com o contexto histórico.
A pedido do G1, o professor Júnior elaborou a comparação entre as obras que entraram com as que saíram. Confira abaixo:

Sai 'Auto da Barca do Inferno' e entra 'Viagens na minha terra'
“De Gil Vicente para Almeida Garrett, damos um salto do humanismo para o romantismo na literatura portuguesa. Gil Vicente é um produto muito mais visível desse período de transição da idade média para a idade moderna. Já “Viagens na minha terra” é uma obra muito mais complexa que “Auto da barca do inferno” do ponto de vista contextual e estrutural.
“Viagens da minha terra”, de 1846, é uma obra que mistura um relato de viagens com diário e a história da literatura portuguesa. Quando D. Pedro I volta a Portugal e assume o trono cria-se um período progressista de liberdade, Garrett volta do exílio e escreve a obra. Ele vai defender o governo e insere dentro do livro uma noveleta “A menina dos rouxinóis”, tragédia que mistura ficção e realidade. A obra vai gerar a referência histórica para o início de “A cidade e as serras”, de Eça de Queiroz, que continua na lista dos vestibulares.

Para o aluno, a dica para quem vai prestar vestibular no final do ano é já começar a ler o livro e buscar aulas sobre a obra. Somente a leitura pode não ser suficiente para compreender tudo o que está envolvido. É muita coisa para se absorver porque tem muita relação com o momento histórico de Portugal."


Sai 'Iracema' e entra 'Til'
"O livro “Til”, de 1872, é um romance regionalista, de fazenda. Ele desdobra dramas do interior do Brasil com uma trama, uma das especialidades de José de Alencar. O autor faz um retrato da cultura do interior do estado do Rio de Janeiro e suas conexões com a cultura urbana da capital. É um romance inferior à importância de “Iracema”, e em se tratando dessa referência de cultura urbana.
Na minha opinião, seria melhor que Fuvest e Unicamp tivesse escolhido uma obra como “Senhora”, que é muito mais contundente e complexo do que “Til”. O livro vai exigir do vestibulando analisar o choque entre as culturas urbanas e rural e perceber como Alencar é bom para caracterizar tipos, costumes e contextos."

Sai 'Dom Camurro' e entra 'Memórias Póstumas de Brás Cubas'
"A obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas” contém a síntese da obra madura e pessimista de Machado de Assise destaca a sua visão de mundo de maneira mais contundente e aberta.
Não dá para dizer, em comparação a “Dom Casmurro”, qual das duas obras é a melhor. Em “Brás Cubas”, de 1881, inaugura o realismo no Brasil ao lado de “O mulato”, de Aluísio Azevedo. Na obra, Machado está mais próximo às linhas do realismo do que em “Dom Casmurro”, que já é quase século XX (1899).


O autor faz no livro o retrato do contexto cultural do Brasil. Machado de Assis dá a sustentação em duas linhas filosóficas: o pessimismo de Arthur Schopenhauer e o niilismo, de Friedrich Nietzsche, com mais uma carga de ironia e crítica social. O livro mostra as angústias humanas, jogo das relações de interesses e vícios sociais. A obra rompe com todas as propostas anteriores do romantismo.
O vestibulando deve se atentar que “Brás Cubas” tem como base “Viagem da minha terra”. O processo de construção metalinguístico de Garrett é uma referência de Machado de Assis."

Sai 'Antologia poética' e entra 'Sentimento do mundo'
"De ponto de vista mais intelectual, Carlos Drummond de Andrade transcende Vinicius de Morais. Drummond é considerado o maior poeta da literatura brasileira ao lado de Manoel Bandeira. Este livro “Sentimento do mundo” foi publicado em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial. É uma visão universal dos dramas humanos que estava se passando em termos de inquietude, fragilidade e insegurança diante da guerra, não só o Brasil, mas todo o mundo. Os desdobramentos desse derramamento de sangue diante da guerra devastadora, aquilo encerra a cultura moderna.
Drummond projeta no livro este momento fulgurante com poemas magníficos que correspondem a um segundo momento de sua produção literária, no qual ele se preocupa com o Estado Novo de Getúlio Vargas e os horrores da Segunda Guerra. Tem um poema chamado “Eligia 1938” que fala sobre a explosão da ilha de Manhattan. Sem querer, Drummond relata o que viria a ser os ataques de 11 de Setembro (2001). Diz o verso final: “Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”."



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