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Londres: filhos de brasileiros sofrem para aprender português

Londres: filhos de brasileiros sofrem para aprender português

Atualizado: Quinta-feira, 14 Outubro de 2010 as 11:15

Caíque, 8 anos, vive às turras com a Língua Portuguesa. "Não gosto de falar português porque eu não sei falar. É ruim para conversar", explica o menino, que é filho de brasileiros, mas nasceu na Inglaterra, onde vive com a família.

Holly, 11 anos, não reclama tanto do idioma da mãe brasileira. Mas a relação com o português ainda não é das melhores. Quando Mayza Cooper pergunta em português, Holly responde em inglês. A mãe insiste, mas do lado de lá, não sai nada parecido com a língua românica, derivada do latim vulgar. Depois de tentativas frustradas, Mayza muda o tom: "Você tem que falar em português!".

Holly mora em Londres. É filha de pai inglês. Cresceu ouvindo o português da mãe, mas sempre esteve cercada pelo inglês do pai, dos amigos, dos professores e dos colegas da escola. Ao Brasil, já foi três vezes. Numa delas, passou por uma situção "difícil", na qual, quando a avó lhe fazia alguma pergunta, não sabia responder, lembrou Holly, expressando desapontamento consigo mesma.

O Ministério das Relações Exteriores estima que haja 180 mil brasileiros vivendo no Reino Unido, mas não sabe o número de crianças, filhas desses brasileiros. O fato é que existem muitos pais empenhados na tarefa de ajudar os filhos a aprender português e a compreender que, assim como a Inglaterra, o Brasil também faz parte da história deles.

Rumo à sala de aula

O brasileiro Graciano Soares mora em Brighton, cidade do sul da Inglaterra. Todos os sábados percorre 95 km para levar as duas filhas ao um curso de português em Londres. As aulas são dadas aos sábados, no Centro Cultural e Educacional Brasileiro (BrEACC, sigla em inglês). A instituição sem fins lucrativos foi criada em 1997 por pais que queriam fortalecer o vínculo dos filhos com a língua e a cultura brasileiras. "O centro ajuda a criança a entender a sua identidade e a se tornar capaz de interagir num ambiente em português", explica Graciano, mestre em Educação e voluntário do BrEACC, onde também trabalha como supervisor pedagógico.

O Centro tem três professores e pouco mais de 40 alunos, que passam por diferentes estágios. O "Cante e Brinque", por exemplo, é para crianças de 2 anos e meio a 5 anos. "Nós não alfabetizamos, porque as crianças já são alfabetizadas pelo sistema educacional britânico. O que fazemos, neste estágio, é introduzir o português por meio de cantigas e brincadeiras do folclore brasileiro", diz a professora Kátia Fonseca. Segundo ela, "as crianças chegam sem falar uma palavra em português. Depois de três semanas, já cantam. Cada palavrinha que elas aprendem é uma vitória".

Dependendo do nível de português, os alunos com idades entre 6 e 12 anos passam para as turmas avançadas, onde desenvolvem as habilidades de comunicação oral e escrita. De acordo com o doutor em Linguística, Ademar da Silva, que atua como leitor de português no Departamento de Estudos Brasileiros e Portugueses do King's College da Universidade de Londres, promover o ensino do português "é de extrema importância, uma vez que essa língua de herança está inserida em algum canto da memória da criança, do jovem. Ela, a língua, precisa simplesmente ser reativada. Para tanto, nada melhor que uma institução de ensino. Muitas crianças e jovens bilingues chegam a ter uma competência linguístico-comunicativa razoável em português, ou seja, falam a língua, mas não escrevem nessa língua, e essa deficiência só pode ser sanada através da escola, do ensino".

Desafios

Quando bem pequeno, Marcelo só se comunicava em português com a mãe. "Mas aos 5 anos, quando ingressou na vida escolar, ele perdeu o interesse pelo idioma", conta Roberta Bovill, a mãe de Marcelo. "Em lares bilingues ou monolingues, por mais que se fale o português em casa, a criança vai optar pelo inglês. Isso acontece porque a criança tende a falar a língua da comunidade, a língua dos seus pares na escola, da televisão", explica o doutor em Linguística.

Só que há cerca de quase doze meses, Marcelo, hoje com 9 anos, voltou a ter interesse pelo português. "Como nós gostaríamos de mudar para o Brasil, ele está bastante entusiasmado para aprender a língua", explica David Bovill, pai do garoto. David diz que quando vai ao Brasil de férias, o filho é o tradutor "e eu fico orgulhoso dele". Marcelo está empenhado em dominar o idioma da mãe e garante que não vai desistir enquanto não aprender a pronunciar a palavra que considera a mais difícil em português: "IN-CONS-TI-TU-CI-O-NA-LIS-SI-MA-MEN-TE", repete ele, com a ajuda da professora.

Laura tem 3 anos. A mãe é inglesa e o pai brasileiro. E foi pelos braços dele que Laura chegou ao BrEACC. O jornalista João Castelo Branco só fala em português com a filha. "Aos poucos ela vem respondendo em português". No entanto, na primeira hora de aula, Laura tapou os ouvidos e não quis saber de nada, muito menos de português. Uma hora mais tarde, começou a interagir com o grupo. "Eu quero muito que ela também fale português porque sou brasileiro e tenho orgulho da nossa cultura. Quem sabe um dia eu volto para o Brasil. Não quero fechar a janela para ela", explica o pai, que há 20 anos mora na Inglaterra.

Para pagar o salário de três professoras, três assistentes e ainda o aluguel das salas, o BrEACC cobra mensalidade dos alunos. Os iniciantes pagam 25 libras. Os demais, 35. "Gostaríamos de não precisar cobrar, mas precisamos pagar as contas", esclarece Carla Silveira, comissária de bordo e também voluntária do centro, onde trabalha como secretária e promotora de eventos e relacões públicas. Carla é casada com um também brasileiro e tem dois filhos frequentando as aulas de português. Para ela, o fato das crianças perceberem que os pais não falam inglês dentro de casa ou falam inglês mais outro idioma, pode fazer a criança pensar que é diferente das outras. "Por isso que foi tão bom encontrar o Centro, porque os meus filhos perceberam que há várias famílias como a nossa".

Luísa, filha de Carla, tem 10 anos e nasceu em Londres. Foi alfabetizada em inglês e fala português com sotaque. Mas se perguntam de onde ela é, não pensa duas vezes: "Sou brasilera", responde. "Quando entra num avião com destino às férias no Brasil, ela não fala uma palavra em inglês", garante a mãe. A palavra que ela mais gosta de pronunciar em português? "Chocolate", diz Luisa, tentando esconder o sorriso.

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