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Me formei sem nunca ter trabalhado. E agora?

Me formei sem nunca ter trabalhado. E agora?

Atualizado: Quarta-feira, 24 Dezembro de 2008 as 12

Parece pouco provável imaginar que hoje em dia alguém se forme no Ensino Superior e não tenha nenhuma experiência profissional. Não apenas dentro de sua área, mas em qualquer outra. Só que isso não é tão raro, principalmente para os estudantes de cursos que exigem dedicação integral. Foi o caso da farmacêutica Cristiana Yamamoto, formada em 1999 pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Como o curso era em tempo integral, ela concluiu a faculdade sem nunca ter trabalhado.

"Procurei muito para conseguir um primeiro emprego. Não é todo mundo que está disposto a dar oportunidade para quem não tem experiência", conta Cristiana, que em 2006 concluiu sua segunda graduação. "Quando vim para a área de TI (tecnologia da informação), fiz um bom tempo de estágio, passei por várias empresas e foi muito mais tranqüilo", compara ela. A maioria das vagas exibidas em classificados de empregos pede experiência anterior, preferencialmente na área de atuação pretendida.

Mesmo vagas de estágio são exigentes com relação a conhecimento práticos ou qualificações que fogem do currículo universitário, como o domínio de um segundo idioma. Com base nesse contexto, é de se esperar que o recém-formado que procura emprego sem nenhuma experiência no mercado de trabalho terá dificuldades ao competir com profissionais dotados de currículos com maior quilometragem.

E o mercado confirma isso. "Buscamos sempre o candidato mais adequado à função, mas não deixa de ser uma comparação entre currículos", afirma João Paulo Soares, gerente-sênior de desenvolvimento organizacional da Racional Engenharia. Numa situação hipotética, ele conta que entre dois candidatos com formação semelhante, a experiência anterior tende a ser preferível na maioria dos casos.

A vantagem é natural, pois o profissional que trabalha desde a época da faculdade consolidou a aprendizagem por meio da vivência de situações características à profissão. "O estágio é o diálogo da prática com a teoria, por isso é essencial", salienta o professor Ronaldo Martins, supervisor da Coordenação Geral de Estágios da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica). "É uma questão que parece um tanto óbvia", observa. "Nem que seja apenas pela necessidade de obter renda, os estudantes, em geral, complementam a formação acadêmica com os estágios".

Segundo ele, a própria faculdade regulamenta a qualidade do estágio ao autorizar - e contar as horas para o histórico - apenas atividades relacionadas à formação e evita, dessa forma, que o interesse da empresa esteja apenas na mão-de-obra barata. Rosana Schwartz, coordenadora de estágios do Centro de Comunicação e Letras do Mackenzie, explica que para haver alinhamento do aprendizado, a atividade tem de ter acompanhamento. "Mesmo porque, quando a empresa investe na formação do profissional, tende a efetivá-lo, não mandá-lo para empresas concorrentes", observa. O CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) reforça com dados. Levantamento feito recentemente pela organização mostra que 64% dos estagiários são efetivados pelas empresas.

O que fazer

A menos que encontre uma empresa na contramão da tendência, que prefira profissionais sem experiências anteriores e, portanto, sem vícios, quem não procurou ou não conseguiu estagiar ou obter qualquer tipo de experiência prática durante o curso enfrenta dificuldades tanto para conseguir uma colocação quanto para se adaptar à rotina corporativa. Para compensar a experiência, é quase imprescindível ter outras qualificações na manga. Soares, da Racional, conta que para cargos de entrada como analista-júnior ou engenheiro-júnior, o único pré-requisito é o diploma, embora a experiência seja desejável. "No entanto, outros atributos podem ser atraentes, como uma segunda língua", explica ele. 

Além da defasagem com relação a conhecimentos técnicos da própria atividade, o profissional sem experiência apresenta outras carências, como problemas de relacionamento interpessoal, dificuldade de trabalhar em equipe, falta de conhecimento de hierarquia, regras e responsabilidades, insegurança e até mesmo arrogância. "O profissional pode achar que sua formação acadêmica o faz superior. Entrar no mercado de trabalho sem estágio é ruim para o profissional e para a empresa", afirma José Manoel Gonçalves Gandara, coordenador do curso de Turismo da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e conselheiro do CIEE-PR (Centro de Integração Empresa-Escola do Estado do Paraná).

"Os alunos tendem a acreditar que a universidade dá ferramentas suficientes para enfrentar o mercado, mas isso é uma ilusão", alerta Soares. A crítica dele, nesse caso, vai para algumas faculdades, incapazes de reproduzir situações reais de trabalho, sem atividades em equipe nem desafios para conquistar parcerias. "É uma carência que quem não fez estágio tem de suprir", declara. Com conhecimento de causa, Cristiana concorda. "Quando a gente sai de um meio acadêmico e vai para o mercado de trabalho, as coisas não são como a gente aprende nos livros. Tive que aprender muita coisa no dia-a-dia", lembra.

Mas da mesma forma que Cristiana encontrou um empregador disposto a apoiá-la e ensiná-la, nem tudo está perdido para quem perdeu o tempo do estágio simultâneo ao curso. Profissionais formados há até dois anos - geralmente é esse o período compreendido pelas empresas - podem concorrer a vagas de trainee. "Não é nada recomendável trancar matérias para cursar um ano ou semestre a mais de faculdade e, nesse período, procurar estágios, mas os programas de trainee são uma boa possibilidade", explica o supervisor da Coordenação Geral de Estágios da PUC-SP. "O profissional vai ganhar menos do que se estivesse contratado de fato, mas é uma forma de cumprir a etapa que pulou", analisa Rosana Schwartz, do Mackenzie.

Embora seja viável e atraente, essa alternativa não é garantida. "O mercado está saturado, então porque a empresa selecionaria para o programa de trainees um profissional sem experiência?", adverte Rosana. Segundo ela, uma das formas de aumentar as chances de ser selecionado é, mais uma vez, apresentar qualificações extras que, aos olhos do entrevistador, minimizem a desvantagem decorrente da falta de experiência. Até porque, por geralmente oferecerem muitos benefícios e boas condições de trabalho, esses programas são disputados por profissionais que, embora recém-formados, são capacitados e experientes. "Os programas de trainee são um último recurso, mas as regras dos processos seletivos são as mesmas. É competitivo", salienta Eduardo de Oliveira, superintendente operacional do CIEE-SP.

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