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Opinião: Cega, Dorina Nowill viu as grandes possibilidades da vida

Opinião: Cega, Dorina Nowill viu as grandes possibilidades da vida

Atualizado: Quinta-feira, 2 Setembro de 2010 as 12:43

Os ditados populares são cheios de sabedoria. Um muito conhecido diz que o pior cego é aquele que não quer ver. Eu completaria: e que não pode ver.

Trocadilhos à parte, é claro que não estamos falando da pessoa que tem falta real de visão. Essa não pode mesmo ver o mundo concreto. O que não a impede de percebê-lo de outras maneiras: pelo tato, audição, olfato, paladar, imaginação e... emoção.

Penso que não enxergar é algo bastante trágico e que impõe grande restrição ao ser humano. Apesar disso, mesmo essas pessoas quebram recordes e nem sempre se limitam à sua condição. Fazem de seu estado algo que dê significado às suas vidas. E, invés de se tornarem reféns dela, são ativos na construção de sua história.

Em contrapartida, há aqueles que diante do menor problema se curvam e permitem (sim, permitem!) que comande sua vida. Às vezes, possuem alguma característica bastante limitante, como uma paralisia, por exemplo. Diante dela, engessam toda a vida, culpando sua situação por tudo aquilo que é. Passam a vida se lamentando e se limitando. Esquecem-se de que não se reduzem àquilo que não possuem. Isso não só no aspecto físico, mas no social e material também.

Exemplo

Se para alguns a vida não passa de um fardo, outros a veem de maneira diferente, mesmo não enxergando há mais de 70 anos: "É preciso encarar a vida como ela aparece. Não se pode disputar com a vida". Esse é o conselho dado por Dorina Nowill, cega desde os 17 anos, e que morreu nesta semana. Sua história é bem interessante. Na década de 30, Dorina ficou cega de repente. Em quatro meses, não enxergava mais o mundo físico, o que não a impediu de ver longe, muito longe. Não desistiu de viver.

Estudou, especializou-se no exterior e se casou. Sentindo na pele as dificuldades do deficiente visual, lutou incessantemente por ele. Expandiu a literatura em braille em nosso país e colaborou com mudanças de leis em relação ao deficiente, como tornar obrigatória sua educação no Brasil.

Comandou de 1946 até os dias de hoje a Fundação Dorina Nowill para cegos. Nem a idade avançada tirou-lhe o entusiasmo e a força. Isso tudo, criando uma família de cinco filhos.

Sem dúvida, ela é um exemplo de superação. Ela fez o que a maioria, tendo condições muito mais favoráveis, não é capaz de fazer. Provavelmente, ela tinha uma grande força de vida. Devia ser alguém muito especial.

Pessoas com limitações físicas devem sofrer muito. Além de lidarem com o preconceito que ainda existe em relação ao que é diferente, o mundo é todo organizado para aqueles que têm todas as suas funções a pleno vapor. Sem ir longe, é só lembrarmos das dificuldades que as pessoas canhotas enfrentam.

Mas as coisas podem e devem ser diferentes se essas pessoas não tiverem preconceito em relação a si mesmas e não acharem que são menos e que merecem menos. Como todos, elas têm que se fazer merecer e lutar pelo que lhes é devido.

Vamos fazer do exemplo de Dorina um exemplo para todos nós. Ela pode ver o que muitos ainda não conseguem, tendo cem por cento de visão: as grandes possibilidades que a vida nos oferece.

Postado por: Thatiane de Souza

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