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Pais devem tratar os filhos gêmeos como pessoas distintas

Pais devem tratar os filhos gêmeos como pessoas distintas

Atualizado: Quinta-feira, 8 Dezembro de 2011 as 10:51

Desde quando um casal pensa em ter filhos, começa a enfrentar desafios: a angústia de engravidar ou não; as transformações no organismo da mulher no período da gestação (época de desconfortos físicos); a chegada do bebê, ao mesmo tempo que esperada e encantadora, trabalhosa e exaustiva.As tantas mudanças que ocorrem quando existe um terceiro podem abalar o casamento. Prova de fogo para os casais. Mas nada disso desanima e supera a alegria de se ter um filho. E outro logo é desejado. Nada do que se passou deixa grandes marcas ou traumas. Tudo recomeça – onde havia um, agora são dois. Outros desafios surgem. Talvez o maior deles seja o de conseguir que cada um dos filhos se sinta amado e compreendido em sua singularidade.

A tendência é a de os pais buscarem fazer tudo igual para eles. Mesmo assim, vem a queixa de que o outro recebeu mais ou foi privilegiado. Cada um deles tem desejos, necessidades e características próprias – são apenas irmãos, não a mesma pessoa. No fundo, querem ser únicos para seus pais. Simplesmente por serem únicos.

As coisas parecem se complicar mais diante de filhos gêmeos. Em tudo. Se é trabalhoso ter um, dobrar o número de bebês faz o trabalho também aumentar. O desafio para o casamento é ainda maior.

O mais difícil é perceberem os filhos como pessoas distintas, inclusive porque alguns deles são idênticos fisicamente. Com ações corriqueiras, a tendência dos pais é mantê-los nessa condição: usam roupas iguais, mesmo corte de cabelo, brinquedos, livros, mochilas, lancheiras...

Em algumas famílias isso é tão intenso que os irmãos não conseguem ficar longe um do outro. Às vezes, quando um adoece, o outro também cai de cama. Parecem ser a mesma pessoa. Mas não são.

É interessante notar como os pais estimulam isso e não conseguem agir de outro modo. Parecem não poderem se dar conta de que são pessoas distintas – não precisam e não devem ser iguais.

No fundo, eles têm consciência disso. Fazer tudo igual é uma forma de mostrarem que os amam da mesma maneira, até porque são muito parecidos (o que ocorre em qualquer família e mais intensamente na de gêmeos). No entanto, os sentimentos que os pais nutrem pelos filhos não são iguais – o que não quer dizer que não os amem. Amam sim, só que de maneiras únicas e próprias.

Os filhos gêmeos têm que ser ajudados a construírem seu próprio modo de ser, sua identidade. A visão que os outros têm deles é muito importante, principalmente a dos pais. Uma pessoa não pode ser vista como que misturada com a outra, isso só vai trazer-lhe confusão: Quem é ela e quem é o outro? O que é dela e o que é do outro?

É muito necessária essa discriminação (eu/outro) para que possamos nos desenvolver de maneira a nos tornarmos autônomos, sentindo que somos um só. Únicos.

Penso que isso não seja tarefa fácil para os pais. Mas eles podem começar com atitudes simples, como vestir os irmãos de maneira diferente. Caso insistam em comprar o mesmo modelo, lembrá-los de que eles não precisam ser iguais em tudo, ajudando-os a perceberem do que realmente gostam. Presenteie-os com roupas diferentes.

Um bom exercício pode ser agora no Natal. Pesquisem em separado com seus filhos aquilo que querem ganhar, escrevendo cartinhas para Papai Noel. Arrisquem-se em dar-lhes presentes diferentes. Se surgir um sentimento invejoso do que o outro ganhou, sem problema. É nos conflitos que as aprendizagens e o crescimento acontecem. Bom momento, inclusive, para exercitarem a solidariedade e aprenderem a dividir suas coisas com o irmão.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)

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