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Redução da carga de trabalho pode melhorar rendimento?

Redução da carga de trabalho pode melhorar rendimento?

Atualizado: Segunda-feira, 31 Março de 2008 as 12

Um levantamento feito pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) feito em novembro de 2007 aponta que a redução da jornada de trabalho das atuais 44 para 40 horas semanais pode gerar aproximadamente 2,5 milhões de postos de trabalho no Brasil. Essa redução representa queda de 9,09% das horas trabalhadas. Com esse propósito, existem diversas iniciativas no Congresso, entre projetos de lei e propostas de emenda à Constituição. Uma dessas ações é o Projeto de Lei do deputado federal, Daniel Almeida (PCdoB), que visa alterar leis trabalhistas para reduzir a carga horária de trabalho sem redução salarial.

Na opinião de Almeida, a redução na carga horária elevará oportunidades de emprego no país. "Com quatro horas a menos, algumas atividades que são de fluxo contínuo precisarão contratar mais turnos", aposta o deputado. Outro benefício da jornada reduzida, segundo o parlamentar, são as atividades de lazer que poderão ser mais exploradas. "A população poderá usufruir com mais tempo do esporte, cultura e família. Com isso, outros setores serão potencializados e desenvolvidos", acredita ele.

Ao encontro da tese de Almeida vai um estudo feito pela USP (Universidade de São Paulo) e Instituto Paulista de Stress nas regiões Sul e Sudeste do Brasil com 3 mil pessoas. O levantamento indica que 83% dos participantes do estudo que eram profissionalmente ativas registravam altos índices de estresse. Para Ésdreas Guerreiro Vasconcellos, diretor científico do Instituto Paulista de Stress, Psicossomática e Psiconeuroimunologia e professor de pós-graduação da USP, o problema está em atribuir ao trabalho a principal função da vida. "Essa característica é firmada desde a era industrial, o que as pessoas precisam é escolher um momento para relaxar e entender que quanto menos se estressarem melhor será para a saúde delas", aconselha Vasconcellos.

O diretor científico afirma que a redução da jornada de trabalho influenciará positivamente com a queda do estresse. "É por trabalhar tanto e muito que o nível de estresse aumenta nos brasileiros. Não é só o tempo de serviço que gera isso, mas a distância entre a casa e o trabalho, o trânsito, e a rotina". Para Vasconcellos, a diminuição da jornada contribuiria para a vida pessoal do trabalhador. "Ter maior disponibilidade para executar outras funções que dão prazer faz sentido, porém, é necessário uma reorganização social e as diretrizes devem partir do governo", pondera o diretor científico.

Quando o assunto da redução se liga à qualidade de vida, o diretor do departamento sindical da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Roberto Ferraiuollo, acredita que embora o lazer seja importante, o emprego deva ser priorizado. "Trabalho é distribuição de renda. O que predomina na atual situação lazer ou subsistência?", questiona ele. Na opinião de Ferraiuollo, empresários discordam da proposta de redução da carga de trabalho e dividem o mesmo ponto de vista dele. "Crescimento econômico para geração de empregos e equilíbrio financeiro", sustenta o diretor da Fiesp.

Ferraiuollo acredita que a redução da carga de trabalho não resultará em aumento de empregos. "Menos tempo de trabalho não gera vagas. A solução para essa problemática é ter um desenvolvimento econômico sustentável", diz. Para Ferraiuollo, a redução na jornada é o mesmo que reduzir o PIB (Produto Interno Bruto), que é a soma das riquezas produzidas pelo país. "Se a economia cresce o PIB acompanha essa perspectiva e gera competitividade. Neste momento é contraditório fazer uma mudança, pois não há estrutura", afirma ele. Para embasar sua opinião, o diretor da Fiesp aponta a França na mudança de leis trabalhistas. Segundo ele, o país que teve carga reduzida de 39 para 35 horas com sucesso econômico apenas nos dois primeiros anos após a medida. De acordo com ele, a França luta hoje para achar o caminho de volta e ganhar mais competitividade. "A França é o exemplo de que a manutenção econômica e a geração de empregos estão interligadas".

Mas há quem discorde do argumento de Ferraiuollo. É o caso do Presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Marcio Pochmann. Segundo ele, a proposta de redução da jornada de trabalho é tardia. "A redução da jornada já existe em diversos países. A China, por exemplo, trabalha 40 horas por semana e não perde produtividade", rebate o professor. Segundo Pochmann, o Brasil não tem razões para justificar uma jornada tão longa de trabalho e deve atentar para a qualidade de vida. "É necessário que haja valorização do tempo livre das pessoas", defende ele.

O Presidente Nacional da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, que também é deputado federal pelo PDT, afirma o apoio das centrais sindicais está voltado para a redução da jornada de trabalho. Para isso, Paulinho conta que a movimentação já começou. "Temos um abaixo assinado que circula pelas fábricas. A idéia é colher um milhão de assinaturas até o dia 1º de maio e fazer manifestações para conscientizar a todos de que precisamos desse direito", diz o sindicalista. Paulinho acrescenta que a idéia é ganhar mais apoio de deputados e senadores e fazer "um trabalho de convencimento" para aumentar o número de favoráveis à proposta.

Para Paulinho, além de possíveis questões salariais, a preocupação com o a jornada excessiva de trabalho visa melhor a qualidade de vida. "O trabalhador terá mais tempo para se dedicar a outras atividades e ao descanso. O resultado disso é mais produtividade e melhor execução do trabalho. Ganha o trabalhador, a família e a produção", defende ele. Paulinho disse ainda as centrais sindicais pretendem se reunir com empresários e avançar com a proposta de redução.

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