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'Sabia que não era coincidência', diz professor sobre vazamento do Enem

'Sabia que não era coincidência', diz professor sobre vazamento do Enem

Atualizado: Quarta-feira, 24 Novembro de 2010 as 3:33

O professor de redação Marcos Antônio Freire, de Petrolina (PE),  foi uma das pessoas que denunciou o vazamento de um dos assuntos trabalhados na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

A Polícia Federal (PF) informou que uma professora e o marido dela foram indiciados por violação de sigilo funcional, de forma qualificada, por terem repassado informações sobre o Enem ao filho deles, que participou do exame.

Segundo as investigações, a professora, que aplicou a prova em Remanso (BA), viu o tema de um dos textos de apoio ("O trabalho e a escravidão"), antes do início do Enem, e ligou para o marido. Ele fez uma pesquisa na internet e passou os dados para o filho, que fez o exame em Petrolina.

O tema passado pela professora fazia parte de um dos textos que poderiam servir de base para os estudantes. O tema efetivo da redação era "O trabalho na construção da dignidade humana".   De acordo com Freire, a escola em que ele trabalha montou um ponto de apoio a estudantes em frente a um prédio onde ocorreu o Enem e um jovem pediu orientações para a redação, caso o tema fosse escravidão. "Na hora, ninguém ligou. Só fiquei surpreso quando os alunos começaram a sair da prova e confirmaram que esse tema estava em um dos textos de apoio", disse Freire ao G1 . "Na hora, eu já sabia que não era coincidência."

Ainda segundo Freire, o estudante disse que soube do tema devido a um vazamento que teria ocorrido no Piauí. Durante as investigações, a polícia descartou essa possibilidade.

O professor afirmou que outros estudantes podem ter ouvido as orientações sobre o tema escravidão. Mas, na opinião dele, isso não teria dado vantagem a esses jovens. "Não acredito que tenha mudado muita coisa", comentou. "Mas acho que todos ficaram preocupados depois.Todos estão preocupados com essa questão de igualdade de direitos e de condições de se fazer a prova. A gente sabe que o Brasil é um país de dimensões continentais e todos os envolvidos têm de ter responsabilidade."

Freire disse também que o filho da professora que seria responsável pelo vazamento faltou das aulas do cursinho nos últimas dias.

Investigações

O Enem 2010 ocorreu em 6 e 7 de novembro. Segundo nota divulgada pela PF, mais de dez pessoas foram ouvidas pela polícia durante os dez dias de investigações sobre o vazamento. Também foram realizadas perícias e houve quebra do sigilo telefônico dos supostos envolvidos.

A PF destaca, entretanto, que o tema passado pela professora fazia parte apenas de um dos textos que poderiam servir de base para os estudantes. O tema efetivo da redação era "O trabalho na construção da dignidade humana".

Em depoimento, a professora e o marido teriam admitido envolvimento. Se confirmada a culpa, eles podem ser condenados a até seis anos de prisão.

O Ministério da Educação (MEC) informa que o filho do casal deve ser eliminado. Para o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia ligada ao MEC que organiza a prova, o sigilo da redação foi mantido, porque o candidato teve acesso a apenas um dos textos de apoio e não houve vazamento do tema principal. Por isso, o exame não deve ser suspenso.

'Caso pontual'

Para o superintendente da Polícia Federal, José Maria Fonseca, o vazamento foi "um caso pontual". "A investigação foi exaustiva, inclusive com apreensão de mídia computacional. O que se comprovou, até agora, é que só um estudante teve acesso às informações, por meio da mãe e do pai. E também foi de uma forma genérica, porque não exatamente o tema da redação, mas de um dos textos da prova."

A supervisora pedagógica do colégio onde ocorreu o vazamento, Meirisvalda de Araújo Santos, disse que os responsáveis pela unidade não foram notificados oficialmente do problema. Das 13 salas, 11 foram usadas durante a realização do exame.    

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