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"Violência na escola começa com problemas na família"

"Violência na escola começa com problemas na família"

Atualizado: Sexta-feira, 24 Dezembro de 2010 as 8:57

O R7 entrevistou o secretário de Educação do Rio Grande do Sul, Ervino Deon, sobre os problemas das escolas gaúchas e de todo o país. Ele falou sobre os desafios do Estado nessa área, sobre bullying e agressão entre alunos e como a violência e a criminalidade na sociedade se reflete no âmbito escolar.

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Um dos exemplos mais significativos é do colégio estadual Venezuela, situado em Porto Alegre, que foi assaltado oito vezes seguidas em poucos meses. A instituição, que atende alunos do ensino fundamental (o antigo primeiro grau), foi palco de manifestações por parte de alunos e professores, que exigiam mais segurança da Secretaria de Educação.

Outro caso, dessa vez de bullying, ocorreu em maio, também em Porto Alegre. Um jovem de 15 anos que era vítima de ofensas na  escola foi baleado nas costas enquanto descia de um ônibus. A mãe afirma que outros garotos riam e faziam piada dele por obeso e alto. O Estado sancionou, em julho, uma lei para combater o bullying.

R7 - Vemos um crescente número de casos de bullying que acabam em tragédia. Isto está acontecendo em todas as regiões do país. Como combater?

Ervino Deon - A questão da violência não é da escola, é da sociedade, que invade a escola. Lá, se reproduz aquilo que a sociedade é.

R7 - O que o RS está fazendo para mudar esse cenário?

Ervino - Nós, no Sul, temos trabalhado muito com oficinas, palestras, teatros, enfim, a saúde escolar.

Trabalhamos o relacionamento dos professores [com os alunos]. Agora, o Proerd [Programa Educacional de Resistência às Drogas, adotado pela Brigada Militar do RS] é a política do Estado. Com o programa, trabalhamos as crianças com palestras e outros recursos para fazer a conscientização do indivíduo. E isso é jogado para dentro das escolas.

R7 - Qual o papel da família no combate ao bullying?

Ervino - Vejo um problema gravíssimo, que é da família. Vejo pais que não acompanham a vida escolar do filho. A responsabilidade não cabe apenas aos professores ou ao governo. A escola é vítima da violência. Assalto, invasão, explosão, pichação, brigas; isso não é culpa do governo.

Os jovens são muito influenciados pelas drogas e por ambientes familiares desestruturados, por programas de TV. Que abordagem você faz nesses programas [de TV]? O que as crianças assistem? Há programas sociais e educacionais para combater isso.

R7 - E dá resultado?

Ervino - Existem escolas com belíssimos trabalhos, com corais, grupos de música. Fizemos um programa, chamado de Escolas Abertas. São 77 centros de ensino localizados em regiões de maior degradação social. Elas estão abertas aos fins de semana, à disposição da comunidade com jogos, teatro, música e cursos.

O resultado é que essas escolas deixaram de ser pichadas, porque os pais também estão inseridos [nesse contexto], e a relação da família com o lugar passou a ser outra. Se uma comunidade perde o campo de futebol, o parquinho, uma hora vai explodir. O confinamento vai trazer problemas. os assaltos e arrombamentos também diminuíram muito.

Isso [um programa como o Escolas Abertas] requer estrutura material. Desenhamos o quadro mais grave e o transformamos. E ainda é preocupante, temos que continuar. Estamos investindo em tecnologia, são as salas digitais. Elas têm computadores e ar condicionado, alem de outros equipamentos.

A escola tem que agradar o aluno. Até o final de 2010, todas as escolas públicas terão isso.

R7 - Como a tecnologia influencia esse cenário?

Ervino - Muito, em vários aspectos. Os jovens estão na era digital. Por isso, percebemos que precisamos colocar o professor neste cenário também, e agora incentivamos a compra de computadores. O professor escolhe um modelo de notebook, o governo compra e desconta o valor em parcelas fixas sem juros, da folha de pagamento.

R7 - A relação entre alunos e professores está muito desgastada?

Ervino - O professor perdeu a autoridade. Qualquer atitude mais forte que ele toma, o aluno já ameaça a fazer denúncia no Conselho Tutelar. Tivemos um caso em Viamão, em uma escola que havia acabado de ser reformada: a estudante foi lá e pichou as paredes. A professora puniu a garota, obrigando-a a limpar a escola.

Os pais da menina procuraram a Justiça, entraram com uma ação no MPF (Ministério Público Federal) e a professora foi condenada a pagar indenização. Como lidar com isso? Esse tipo de coisa passa uma imagem de que se pode tudo, que é possível fazer qualquer coisa e jogar a culpa no professor e no governo.

Por Letícia Casado

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