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Afeganistão esconde governo paralelo do Taleban

Afeganistão esconde governo paralelo do Taleban

Atualizado: Sexta-feira, 11 Fevereiro de 2011 as 10:43

Em meados de dezembro, agentes da polícia afegã prenderam um homem que tinha escondido uma bomba falsa perto de um escritório do governo em Miri, um vilarejo no leste do Afeganistão. O homem, que deu o nome de Muhammad Mir, confessou, dizendo que queria medir a reação das forças de segurança a um ataque do Taleban, segundo autoridades de inteligência dos Estados Unidos.

Um papel encontrado no seu bolso, no entanto, mostrou-se mais significativo do que a evidência da tática de reconhecimento do Taleban. Escrito em pashtu, quando traduzido o papel se revelou uma nota de cobrança de impostos do Emirado Islâmico do Afeganistão – o Taleban.

Muhammad Alnabi tinha pago 1,6 mil afeganis (cerca de US$ 37) ao Taleban. O sargento Akbar havia pago 700 afeganis e Abdulla Kaka, 6,5 mil afeganis, formando os fundos para um governo paralelo continuar a sua luta.

  O papel no bolso de Mir, insinuando tanto arrojo quanto organização, tornou-se parte de um retrato de como a expansão gradual do Taleban tem organizado e lutado a sua guerra de guerrilha em uma região rural do Afeganistão.

A imagem é de um governo paralelo comandado por combatentes locais, organizados sob a bandeira do Taleban, que estabeleceu os rudimentos de uma administração civil para complementar a sua força de combate sombria. Eles têm escolas, cobram impostos e julgam litígios civis em tribunais islâmicos. E quando entram em combate, seus homens armados e fabricantes de bombas são auxiliados por uma rede de inteligência e de apoio que inclui moradores que fornecem abrigo e túneis pelos quais eles podem fugir ou procurar cuidados médicos.

Como parte da campanha do governo Obama em subjugar uma insurgência cada vez maior e criar um governo afegão durável, os militares enviaram milhares de soldados a zonas rurais do Afeganistão no ano passado, que vive sob a influência, se não o controle total, do regime Taleban. Uma dessas forças-tarefa, o 3º Batalhão do 187º Regimento de Infantaria, chegou a Miri em setembro para ajudar a estabelecer uma presença do governo em um lugar que, embora seja a sede oficial do Distrito de Andar da província de Ghazni, representantes oficiais visitaram de maneira esporádica na última década.

Quase cinco meses depois – por meio de interrogatórios de prisioneiro, relatos de informantes, conversas de rádio

interceptadas, fiscalizações de funerais de combatentes, documentos do Taleban, cerca de 200 tiroteios e a captura de fotografias, equipamentos e bombas – os americanos já começaram a entender como os talebans atuais operam.     O conhecimento que o batalhão tem de seus inimigos está longe de completo. Os oficiais dizem que não têm perfis detalhados da maioria das células de combate. Questões importantes, como se há financiamento externo para os insurgentes da região, continuam sem resposta. Mas a sua análise, construída quase a partir do zero e revelada por meio de entrevistas com os comandantes, soldados e analistas, no entanto, esboça um mapa tático, social e visual de uma organização que é ao mesmo tempo ampla, mas raramente vista por estranhos. Além disso, ela apresenta um lembrete implícito das dificuldades enfrentadas pelo Pentágono para entregar áreas como esta, com sua insurgência determinada e profundamente enraizada, às forças de segurança afegãs em 2014.

Poder oculto

A análise destaca dois elementos distintos de estrutura Taleban: um quase governo e o braço militar que lhe dá poder. Por um lado, o Taleban restabeleceu firmemente o seu domínio sobre a vida dos civis na região rural de Ghazni. Mesmo com um batalhão americano patrulhando Andar e o distrito vizinho de Deh Yak diariamente, o Taleban tem 28 escolas conhecidas, circula panfletos com declarações públicas à noite, decide disputas de propriedade através de tribunais religiosos, além de cobrar impostos dos moradores e castigar os afegãos rotulados como colaboradores.

"Há indicadores concretos de que um governo paralelo existe e tem sido forte nos últimos dois ou três anos", disse o primeiro tenente Michael D. Marietta, oficial de inteligência da força-tarefa.

Os oficiais americanos disseram que a influência do Taleban cresceu no vácuo deixado pelo governo: houve uma quase completa ausência do governo para prestar serviços aqui desde que o Taleban foi deposto na invasão americana de 2001. "A queixa mais comum que ouvimos dos afegãos é que eles não veem o governo há anos", disse o tenente-coronel David G. Fivecoat, comandante do batalhão.

Mas além disso, o Taleban trava combates. Os analistas estimam que o Taleban pode ter cerca de 400 combatentes nos distritos de Andar e Deh Yak, que têm uma população total de cerca de 150 mil.

Os combatentes assediam as forças afegãs e americanas e mantêm uma campanha de intimidação contra os moradores que colaboram com, ou mesmo reconhecem, o governo central. Vestindo-se como civis, eles combatem forças ocidentais com um roteiro familiar: emboscadas e bombas improvisadas com um risco mínimo e o ocasional ataque com foguete ou morteiro.

Eles também têm uma rede de apoio, os oficiais disseram, de pelo menos 4 mil civis. Os adeptos fornecem comida, abrigo e ajuda por tempo parcial, como passar informações falsas para os americanos e sinalizar os movimentos do batalhão de patrulha, com espelhos e fumaça. A ajuda muitas vezes permite que os combatentes desapareçam por ruas das vilas.   No dia 20 de janeiro, um esquadrão da Companhia C estava observando rotas de fuga da aldeia de Maumud, onde soldados e policiais foram em busca de armas.

Uma inspeção na entrada de um karez, o sistema de aquedutos subterrâneos tradicionais afegã, levou à descoberta de uma estação de apoio subterrânea do Taleban. Dentro do túnel principal do aqueduto, que continuava por vários metros, os soldados encontraram lençóis sujos, bandagens ensanguentadas, seringas e penicilina – sinais de que combatentes feridos haviam sido tratados ali recentemente.

Espiões

Ao contrário de outras áreas do Afeganistão, oficiais da força-tarefa disseram, os combatentes do Taleban da região de Ghazni parecem ser apenas homens locais.

O batalhão não ouviu línguas típicas dos combatentes estrangeiros no Afeganistão – árabe, urdu e uzbeque, por exemplo – em mensagens de rádio interceptadas. A fiscalização de enterros de combatentes talebans tem consistentemente apontado raízes locais. "Nós não vimos combatentes estrangeiros", disse Fivecoat. "Sabemos disso porque matamos combatentes e acompanhamos seus funerais. Todos eles estão sendo enterrados nas vilas locais pelos mais velhos”.

Mas as influências externas são evidentes no comando e controle dos combatentes. A grande maioria dos insurgentes de Andar e Deh Yak respondem à Quetta Shura – a organização liderada pelo mulá Mohammad Omar que outrora governou o Afeganistão.

Os oficiais de inteligência também disseram que há uma pequena presença na região oriental de Ghazni de combatentes leais à rede Haqqani, uma organização internacionalmente designada como terrorista, com base em Miramshah, Paquistão, que é alinhada com os talebans.      

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