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Animais pastam em parque no centro de métropole indiana

Animais pastam em parque no centro de métropole indiana

Atualizado: Quinta-feira, 10 Fevereiro de 2011 as 9:13

Ninguém sabe ao certo quando, como ou quem decidiu que as cabras poderiam pastar no coração do centro antigo de Kolkata (antiga Calcutá). Um historiador local diz que é preciso viajar três séculos no tempo, até o início da Companhia Britânica das Índias Orientais. Uma outra explicação é que as cabras foram liberadas para pastar quando a Índia conquistou sua independência da Grã-Bretanha, em 1947.

O que não está em disputa é um fato óbvio: no meio desta cidade de 15 milhões de habitantes, as cabras ainda estão pastando. E bem ao lado estão as mulas. Os animais têm seu lugar próximo ao domo branco do monumento construído para a Rainha Vitória durante o Raj; perto do tanque paquistanês que se destaca como troféu da guerra entre a Índia e o Paquistão, em 1971; das estátuas de um vice-rei britânico, um espiritualista hindu, um reformador social bengali e um astro do futebol indiano, entre outros.     Mas talvez o elemento mais estranho a formar este cenário pitoresco seja o silêncio, que domina de forma inesperada as manhãs de uma das cidades mais agitadas do mundo. Ouve-se apenas os gritos ocasionais, em hindi ou bengali, dos pastores chamando suas cabras. Ou então vozes de canções de devoção hindus flutuando para fora das janelas abertas de um sedan dourado, que percorre a rua vazia, com o motorista de braços esticados para fora da janela, feliz, acenando ritmicamente, como se estivesse em transe. "Ele vem todos os dias", diz Mohamed Azad, um pastor.

Quem quer que seja, ele não está sozinho. Poucas cidades representam tão bem o ritmo caótico da humanidade como Kolkata, que mudou seu nome, se não a sua identidade, há cerca de uma década, deixando para trás o nome dado pelos britânicos: Calcutá.

Seja como for, Kolkata também precisa de um lugar onde as pessoas possam respirar, correr e admirar o céu. Assim como as cabras e as mulas, elas ocupam o campo de pastagem no centro da cidade, conhecido como Maidan. À primeira vista, Maidan é apenas um parque. Mas para seus habitantes, ele é o pulmão da cidade, um recanto para aliviar a alma.

O problema é que há muitas almas em Kolkata e relativamente poucos espaços abertos para frequentar. O Maidan, bem como a cidade em torno dele, existe em um perpétuo estado de sítio com a humanidade. O silêncio da manhã é rapidamente tomado pelo ritmo pulsante da vida diária. Nos dias úteis ou nos fins de semana, milhares e milhares de pessoas jogam futebol, críquete ou fazem caminhadas e piqueniques.

Mas há também aqueles que queimam lixo e constroem moradias ilegais no Maidan. A época de eleições também é um problema. As eleições estaduais se aproximam e os comícios devem atrair de 100 mil a mais de 1 milhão de pessoas para a área. Os esforços no sentido de proibir manifestações no parque não trouxeram muitos resultados. "Os grandes comícios acontecem lá todo ano", diz Faiyaz Ahmad Khan, que foi supervisor do Maidan até 2009. "Você não consegue nem ver a grama. Só se enxerga a grama preta _ que é a cor dos cabelos das pessoas".

Dadas as pressões sobre o Maidan, parece apropriado que o parque seja controlado pelo exército indiano, cujo comando leste está situado no Forte William, uma antiga base britânica no coração do parque. A Inglaterra construiu o Forte William por volta de 1750, depois de um príncipe do império Mughal invadir as fortalezas anteriores. A visão do Forte William dominava a cidade, com sua estrutura em forma de estrela, erguida nas margens do rio Hooghly. Por temer novos ataques, os britânicos abriram uma faixa de mata para que os soldados pudessem ter ampla visão dos inimigos.     Quando os ingleses ficaram mais confiantes em sua posição, o espaço foi

arborizado e aberto ao público. Quando a Índia se tornou independente, o exército britânico entregou as chaves do Forte William e o Maidan ao governo indiano. Dependendo do ponto devista, foi uma benção para o exército indiano."É um estado de espírito", diz o coronel Debasish Mitra. "Se você sente que é uma dor de cabeça, é uma dor de cabeça. Se você sente que é um prazer, é um prazer ", acrescenta ele.

Alguns anos atrás, Mitra ficou baseado na fronteira com o Paquistão, um dos postos

militares mais sensíveis da Índia. Em seguida, ele foi transferido de volta para sua cidade natal, Kolkata, e colocado no comando do Maidan. Questionado sobre qual trabalho era mais difícil, ele sorriu. Ele passou um ano estudando as leis, regulamentos e decisões judiciais relacionadas ao Maidan. Ele estima que cerca de 20 pessoas aparecem por dia com reclamações, sugestões ou pedidos para alugar o espaço para casamentos e outros eventos.

Dentro de um prédio da administração do exército, Mitra abre uma fotografia dos 5.667 hectares do Maidan. O Forte William ocupa 364 hectares que não estão abertos para o público (em jargão militar, essa é a Zona Verde). Há também uma pequena área (a Zona Amarela), que abriga o Tribunal de Justiça e a Assembléia Legislativa. O "Victoria Memorial", em homenagem à rainha Vitória, ocupa a Zona Vermelha. Resta então a Zona Azul, que a população chama de pastagem do Maidan. "A Zona Azul está aberta 24 horas por dia ", explica Mitra. "O exército tem o controle. Nós estamos aqui para facilitar o acesso".

Sem dizê-lo diretamente, Mitra deixou claro que se incomoda mais com as pessoas do que com os animais. Os pastores pagam à polícia da cidade uma taxa anual de direitos de pastagem e guiam os animais pelas ruas para chegar à pastagem no início da manhã. Perguntado se existem problemas linguísticos com os animais em uma cidade onde os moradores falam bengali, hindi, urdu, inglês e outras línguas, um pastor pareceu desconcertado com a pergunta."Eles são animais", disse, em hindi. "Se você falar com eles em hindi, eles vão entender hindi. Se você falar com eles em bengali, eles entenderão em bengali", explicou.

Aproximadamente cem mulas e cavalos levam turistas para passear pelo "Victoria Memorial" e vivem na pastagem, alguns presos, outros não. Algumas mulas são descendentes das que trabalhavam no Maidan durante o Raj. De vez em quando, uma delas vaga em meio ao tráfego, mas a maioria parece compreender intuitivamente que deve permanecer dentro do parque, como se uma fronteira invisível as cercasse.

Já as pessoas têm mais dificuldade em respeitar limites."Há sempre a transgressão das regras. Preciso agir como um vigia. Tenho pessoas espalhadas por todo o Maidan, além de alguns informantes", afirma Mitra.

É a luta constante de uma cidade populosa, onde apenas um dia comum pode às vezes parecer uma batalha: a busca de silêncio, de um céu aberto, de um dia no parque.      

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