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Antigas atrocidades continuam a assombrar o Zimbábue

Antigas atrocidades continuam a assombrar o Zimbábue

Atualizado: Quinta-feira, 27 Janeiro de 2011 as 10:10

A exposição na Galeria Nacional de Bulawayo agora é uma cena de crime, a arte foi banida e o artista acusado de insultar o presidente Robert Mugabe.

As imagens que mostravam representações gráficas das atrocidades cometidas nos primeiros anos de governo de Mugabe, que já está no poder há 30 anos, foram cobertas com páginas amareladas de um jornal controlado pelo Estado.  

Mas os esforços do governo em sepultar a história tiveram efeito contrário e despertaram as lembranças do gukurahundi, nome dado no Zimbábue ao assassinato e tortura de milhares de civis na região de Matabeleland um quarto de século atrás.

Conforme o Zimbábue segue ansiosamente para mais uma temporada eleitoral, uma pesquisa recente revelou que 70% dos zimbabuanos têm medo de ser vítimas de violência ou intimidação política, como aconteceu com milhares de pessoas nas eleições de 2008.

No entanto, uma proporção igual quer que o pleito aconteça mesmo assim, evidência de seu desejo profundo de democracia e vontade de muitos de votar contra Mugabe, ainda que com grande risco pessoal, dizem os analistas.

Em poucos lugares tais sentimentos sobre a violência na vida pública vão tão longe como aqui, e nos últimos meses o governo – seja através de inconsistências ou provocações deliberadas – tornou isso ainda pior.         Antes da Copa do Mundo na África do Sul, em junho, um ministro do partido de Mugabe, o ZANU-PF, convidou a equipe de futebol da Coreia do Norte para ficar em Bulawayo, um gesto que despertou protestos ferozes. Afinal, foi a Coreia do Norte que treinou e equipou a infame Quinta Brigada, que os historiadores estimam ter matado pelo menos 10 mil civis da minoria Ndebele entre 1983 e 1987.

"Para nós, isso abriu feridas muito antigas", disse Thabitha Khumalo, membro do Parlamento, sobre a tentativa de trazer a equipe norte-coreana para o coração de Ndebele. "Nós estamos sendo lembrados da dor mais horrível. Como ousam fazer isso? Nossos entes queridos ainda estão enterrados em fossas, poços de minas e covas rasas".  

Voti Tebe, que dirige a Galeria Nacional, disse que permitiu que o artista, Owen Maseko, criasse uma exposição sobre o Gukurahundi como uma forma de contribuir para a reconciliação.

Em uma grande pintura em três painéis, uma fila de faces é mostrada com as bocas abertas em gritos sem palavras. Três corpos de papel machê, um pendurado de cabeça para baixo, preenchem uma moldura. Ao longo das galerias são recorrentes as imagens ameaçadoras de um homem de óculos grandes: Mugabe.

Veto

A exposição foi fechada um dia depois de sua inauguração no ano passado. Maseko foi detido na delegacia central e, em seguida, liberado sob fiança. Ele é acusado de insultar o presidente e de comunicar falsidades prejudiciais ao Estado, uma acusação passível de até 20 anos de prisão.

David Coltart, um político de Bulawayo que é ministro das artes, disse que avisou os seus companheiros ministros que processar Maseko poderia transformar o caso em uma causa célebre e inflamar as divisões.

"É somente quando as nações enfrentam o passado, na sua realidade, não como uma ficção tendenciosa, que elas podem começar a lidar com o passado", Coltart disse em uma palestra realizada na galeria onde estava exposta a mostra de Maseko.    

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