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Apesar de crescimento, credibilidade de estatísticas é sombra

Apesar de crescimento, credibilidade de estatísticas é sombra

Atualizado: Sexta-feira, 21 Outubro de 2011 as 9:19

Apesar do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina , o questionamento da veracidade dos índices econômicos ainda faz sombra na campanha da presidente Cristina Kirchner, favorita para vencer o pleito presidencial deste domingo.

Segundo dados do Ministério da Economia, o país registrou crescimento anual de cerca de 7% desde que o ex-presidente Néstor Kirchner assumiu a Presidência, em 2003, e neste ano a cifra deverá superar os 8%.

O índice oficial de pobreza caiu para menos da metade, e a geração de empregos formais (de carteira assinada) subiu com a criação de mais de 3 milhões de vagas neste período.

Mas, persistem os questionamentos sobre as estatísticas oficiais de inflação, que afetam dados sobre os reais níveis de pobreza no país. A fuga de capitais do sistema financeiro aumentou durante a campanha, e foram intensificadas as críticas sobre o nível de dependência da economia argentina em relação à brasileira e do preço da soja no mercado internacional.

'As pessoas não entendem por que o governo não assume que a inflação é alta e resolve o problema', disse a economista Mariel Fornoni, do instituto de pesquisas de opinião Management & Fit.

Entrevistados pela BBC Brasil, governistas, opositores e analistas reconheceram que o crescimento econômico poderá ser 'decisivo' para uma reeleição. Mas acrescentam que o sistema econômico atual 'deverá ser corrigido' no próximo governo.

'É verdade que a inflação argentina é mais alta do que em outros países, mas ela se acomodará', disse Alejandro Robba, subsecretário de coordenação econômica do Ministério da Economia.

Pelos cálculos do INDEC (equivalente ao IBGE na Argentina), a inflação anual é de cerca de 10%. Pelas estimativas dos governos provinciais e das consultorias privadas, porém, a inflação anual estaria em torno de 25%.

Dados oficiais indicam que a pobreza está em torno dos 8%, após ter atingido 54% quando Kirchner assumiu, logo após a histórica crise econômica de 2001-2002. Mas para especialistas como Ernesto Kritz, da Sel Consultores, e Artemio López, da consultoria Equis, o índice de pobreza ainda é de cerca de 20% (entre 8 e 10 milhões de pessoas).

'O índice de pobreza é alto, mas houve uma queda impressionante desde 2003. A geração de empregos, com a criação de mais de 3 milhões de postos de trabalho, também foi marcante. A oposição se engana ao afirmar que a presidente vencerá por populismo ou porque distribuiu planos sociais. Ocorreram melhoras e isso não se pode negar', disse Krtiz.

'Oportunidade desperdiçada'

Crítico do governo, o ex-presidente do Banco Central, economista e deputado da oposição Alfonso Prat-Gay, da Coalición Cívica (CC), disse que a Argentina está 'jogando fora uma oportunidade' e que deveria aproveitar melhor este momento de crescimento.

'A economia cresce, mas a inflação é maquiada, o governo aumentou o gasto público e estamos jogando fora uma oportunidade para resolver problemas estruturais do país, como questões de infraestrutura', disse Prat-Gay.

Para ele, o governo gerou uma 'fantasia' que inclui os subsídios estatais para setores como transporte público e energia elétrica, graças aos quais as tarifas estão congeladas, apesar da escalada de preços.

'Em algum momento o governo deverá ajustar esses números, e temo que esta conta sobrará para a população', disse. Para ele e para outros parlamentares da oposição, como Adrian Perez, da CC, e Federico Pinedo, do PRO, a população optou por aumentar o consumo para 'proteger seu dinheiro' diante da inflação.

Estudos privados, divulgados pela imprensa local, indicam que, entre créditos pessoais para compras e para viagens, a alta teria sido de 40% em um ano. Prat-Gay argumenta que são créditos para consumo principalmente de eletrodomésticos e automóveis, mas não de longo prazo como para a casa própria, 'o que indica a desconfiança' no atual momento econômico.

Salários

Para compensar a alta de preços, o governo e as empresas estão promovendo o aumento nos benefícios sociais e nos salários. Segundo Kritz, os salários da economia formal estão subindo acima da inflação, levando os principais sindicatos do país a apoiarem a reeleição da presidente.

Na radiografia da economia argentina, opositores apontam a fuga de capitais como mais um sintoma da 'desconfiança' no atual modelo econômico.

'A fuga de capitais mostra que o eleitor está desconfiado', disse o economista Javier Gonzalez Fraga, candidato a vice na chapa do presidenciável da oposição, Ricardo Alfonsín.

'No primeiro semestre os argentinos compraram dólares devido ao clima eleitoral. Agora compram porque temem que o dólar possa subir depois das eleições', disse o economista Francisco Gismondi, do Banco Ciudad.

Comprar dólares é tradição no país, mas sua intensidade é um dos poucos sintomas de campanha eleitoral no país, já que não existem passeatas ou outras marcas pré-eleitorais.

Para economistas, como Marcelo Elizondo, da consultoria DNI, a economia argentina continua dependente das exportações da soja e da saúde da economia brasileira - principal mercado para suas exportações.

'E somente depois das eleições vamos saber como o governo vai resolver desarranjos como a inflação e os subsídios ao setor público. E se pagará ou não o Clube de Paris, transmitindo maior confiança também ao mercado externo. Será então a hora da verdade', disse.          

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