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Brasileiros foram os primeiros a sair de avião despedaçado no Caribe

Brasileiros foram os primeiros a sair de avião despedaçado no Caribe

Atualizado: Segunda-feira, 23 Agosto de 2010 as 9:05

Só sobraram destroços do Boeing 737-700 que, na madrugada da última segunda-feira, saiu de Bogotá para um voo de duas horas com destino a San Andrés, uma ilha do Caribe que pertence à Colômbia.

O casal Katherine e Ramiro, assim como Tiago e Caroline, pretendia passar cinco dias de férias na ilha. Caroline está grávida de cinco meses e viajou com autorização da médica particular.

“Eu passei a gravidez inteira muito bem, não tive problema nenhum”, confirma.

O voo de Bogotá também seguia tranquilo, até segundos antes do pouso, que aconteceu em meio a uma tempestade elétrica. “Tinha raios em volta do avião. Eu estava olhando o mar, estava muito escuro, comecei a ver as luzes da orla e vi raios”, lembra Caroline.

Mesmo assim, na área dos passageiros, o clima era tranquilo. “Não suspeitamos que talvez fosse acontecer um acidente”, diz Katherine. “No avião não teve aquela gritaria: ‘vamos morrer’”, observa Ramiro. “Estava tudo normal, até ele tocar o solo”, lembra Katherine.

Encontro com o chão

Quando tocou o solo, de maneira violenta, o Boeing se partiu em três partes. Uma asa pegou fogo e os passageiros saíram desesperados, escorregando em mistura da água do temporal com o combustível que vazava. “A gente está vivo, todo mundo está falando que é um milagre de San Andrés”, fala Caroline.

Uma senhora de 73 anos morreu durante o acidente. Uma menina de 12 anos segue internada em estado grave. O grupo de quatro brasileiros faz parte de um clube que tem muito pouca gente: o das pessoas que sobreviveram a acidentes aéreos de grande porte. “Eu olhei e vi muita gente desacordada”, observa Ramiro.“Usamos a poltrona como degrau, a asa já estava ali. Caímos em cima da asa, na ponta dela tudo fogo, não dava para ir para trás, tivemos de sair pela frente."

“A asa estava molhada, tivemos uma certa dificuldade de vencer a asa”, conta Tiago.

Os brasileiros estavam na parte final do avião, sentados nas poltronas 23 e 24. A colisão foi muito violenta e, de perto, é quase inacreditável que alguém tenha sobrevivido a um acidente destas proporções.

Josué de Andrade, um ex-comandante de Boeing com 15 anos de experiência, explica que o avião é construído em três partes, que depois são unidas. “Se há um impacto muito forte com o trem de pouso no solo, partes mais fracas se separam, exatamente onde existem as emendas da fuselagem”, explica o ex-piloto. Reação

Ramiro e Tiago são tenentes do Exército. Trabalham no 8º Batalhão de Infantaria de Selva, em Tabatinga, Amazonas, na fronteira tríplice entre Brasil, Peru e Colômbia. Estão acostumados a situações-limite.

“Com certeza ajudou, principalmente para reação, para o reflexo, e nós agimos automaticamente”, comenta Tiago.

“Todo mundo nervoso, gritando. Eu fiquei mais calmo. O fogo estava na asa, onde fica o tanque, poderia explodir. Corremos, passamos a talude, a onda de choque já não iria nos pegar. Conversamos com o dono da clínica. Eles falaram que nós quatro fomos os primeiros a sair do avião e a chegar na clínica”, conta Ramiro.

Machucados

“Eu fissurei o nariz, na parte de cima. O rosto em si ficou muito machucado”, mostra Katherine. Tiago saiu sem nenhum arranhão, nem na roupa. Já Caroline, a esposa grávida, passou dois dias internada.

“Não tive nenhum sangramento, mas começou a sair uma secreção, o líquido amniótico. Perdi um pouco da substância e fiquei em repouso absoluto para que não houvesse ”, conta.

Casados há dois anos, eles esperam o primeiro filho. “Minha prioridade era meu filho, eu só dizia ‘estoy embarazada’ [estou grávida]. Falei que não podia pular por causa do nenê. Ele foi me buscar. Tudo isto para que hoje o nenê ficasse bem”, descreve Caroline.

O bebê se chamará Felipe. É o mesmo nome do filho da médica que atendeu Caroline em San Andrés.

Causas

Uma equipe de peritos americanos investiga o acidente na ilha. Um raio está entre as possíveis causas.

Segundo Osmar Pinto Júnior, coordenador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), seria um efeito indireto. “Diretamente em si, um raio não partiria um avião, mas ele poderia ser a causa para o avião ter sido desestabilizado. Se um raio atinge um avião segundos antes do pouso, isso pode ser vital”, afirma. Retorno ao Brasil

A companhia Aires já apagou seu nome da fuselagem. No Brasil, as famílias aguardam com ansiedade a volta dos sobreviventes.

Katherine e Ramiro são de Volta Redonda (RJ).“Não perdi minha filha, graças a Deus ela está aqui”, comemora a mãe de Katherine.

Thiago e Caroline são do Rio Grande do Sul. “Estou aqui de braços abertos, esperando para dar todo o colo que ela precisa e deseja neste momento”, avisa a mãe da Caroline, Janet Corrêa.

A família da Caroline ainda não tinha visto a barriga de grávida. “Está vendo agora que cresceu. Em dezembro, se Deus quiser, vai estar dando bom dia pra gente”, diz Caroline.

Os quatro brasileiros foram transferidos para a capital da Colômbia, Bogotá.

Postado por: Thatiane de Souza

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